O mistério de Maiden Castle: a batalha que nunca aconteceu

Durante quase um século, a narrativa era clara: em algum momento sangrento do passado, guerreiros britânicos lutaram bravamente — e em vão — contra as legiões romanas que invadiam a ilha. Seus corpos, encontrados em um antigo cemitério em Maiden Castle, no sul da Inglaterra, teriam sido vítimas de uma batalha épica. Mas e se essa história não for exatamente verdadeira?

Uma nova pesquisa conduzida por arqueólogos da Bournemouth University lançou luz sobre esse episódio lendário e revelou algo surpreendente: os mortos de Maiden Castle não caíram em um único confronto dramático contra os romanos, mas sim ao longo de várias décadas, vítimas de uma série de conflitos internos.

Os pesquisadores reanalisaram os esqueletos descobertos em 1936 no interior desse que é um dos maiores e mais impressionantes fortes da Idade do Ferro na Grã-Bretanha. Usando modernas técnicas de datação por Carbono 14, a equipe identificou que os indivíduos enterrados ali morreram entre o final do século I A.E.C. e o início do século I E.C. Em outras palavras, muito antes — e durante — os primeiros suspiros da conquista romana, mas sem indícios de uma única batalha devastadora.

O dr. Martin Smith é professor-associado de Antropologia Biológica na Universidade de Bournemouth, Reino Unido. Sua pesquisa envolveu a análise de restos humanos que datam desde o início da agricultura (c.4000 A.E.C.), até a Idade do Bronze e Idade do Ferro e romana até o período pós-medieval, se concentrando nas maneiras como os povos do passado tratavam seus mortos.

Segundo o dr. Smith, embora os esqueletos encontrados em Maiden Castle apresentam ferimentos claros de armas, mas isso não significa necessariamente que todos tenham morrido no mesmo dia. Mas por que geral acreditava que sim? Eu diria por quererm sempre coisas épicas acontecendo ao longo da História.

A versão mais conhecida foi popularizada pelo famoso arqueólogo Sir Mortimer Wheeler, que liderou as escavações originais nos anos 1930. Ele interpretou os sinais de trauma nos corpos como resultado de uma batalha final contra os invasores romanos. Em plena véspera da Segunda Guerra Mundial, a ideia de uma luta heroica contra um inimigo estrangeiro encontrou eco entre o público, e rapidamente virou um símbolo da resistência britânica, sendo repetida em livros, documentários e salas de aula por todo o país.

O problema é que isso provavelmente nunca aconteceu.

A nova interpretação sugere que os mortos de Maiden Castle foram vítimas de algo mais complicado: disputas internas, conflitos locais, talvez até lutas por poder entre clãs rivais da tribo dos durotriges, que habitava a região antes da chegada dos romanos. Ou seja, britânicos matando britânicos.

Além da violência, o estudo também identificou práticas funerárias diversas entre os enterrados — o que pode indicar uma convivência entre diferentes grupos culturais ou, talvez, uma sociedade com regras sociais mais complexas do que imaginávamos.

Além disso, segundo os pesquisadores, a escavação original investigou apenas uma pequena parte do local. Pode haver muito mais por descobrir sob as imensas muralhas de Maiden Castle, histórias enterradas que talvez nunca conheçamos completamente.

O mito da batalha final contra os romanos se desfaz, dando lugar a uma história ainda mais rica — e talvez mais real — sobre os conflitos humanos que marcaram o fim da Idade do Ferro na Grã-Bretanha.

A pesquisa foi publicada na Oxford Journal of Archaeology

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