
O CEO chega na área de Pesquisa & Desenvolvimento da empresa.
– Então, Maicon, o que você tem para mim?
– Olá, Steve. Tenho uma coisa excelente. Você vai ficar estupefato com a inovação!
O orgulhoso engenheiro descortina a sua obra-prima.
– Um computador?
– Sim, Steve. Um computador!
– Tem diversos desses no mercado.
– Sim, tem, mesmo. Mas esse é diferente. É o computador para todo mundo usar.
– Qualquer um pode usar um computador como este?
– Não, Steve. Este é um único computador que todos poderão usar. Só esse. Não haverá este computador em série. Este é o único aparelho. Só este.
O CEO Steve faz uma expressão enigmática.
– Funciona assim. Tem muitos computadores no mundo, certo? As pessoas têm computadores, notebooks, tablets, celulares, leitores de ebook. Elas não precisam. Basta um só!
– Entendi. Este é o hardware que vai substituir todos os equipamentos que as pessoas têm em casa.
– Quase isso. Este será o único – único mesmo! – computador que todas as pessoas no mundo usarão, acessarão, empregarão etc.
– Um mainframe com um terminal burro em cada casa.
– Quase isso. Ele será um mainframe que as pessoas não acessarão diretamente por meios físicos.
– Então, como as pessoas acessarão?
– É mesmo preciso?
– Olha… seria bom, né?
– A gente condiciona com interfaces homem-máquina que basta pensar e pronto.
– Então, vamos instalar chips nas pessoas?
– Não precisa. O mainframe será capaz de captar ondas cerebrais. Será wireless.
– E como o usuário será atendido nas suas requisições?
– Ele pede e o mainframe executa.
– E quanto tempo demora?
– Não tem como saber. Pode ser instantâneo, pode acontecer daqui a 50 anos ou nunca.
– Isso é idiota! Como alguém vai querer isso?
– Simples. O marketing cuida disso. Serão feitas campanhas que se a pessoa não quiser ter acesso, a vida dela será absurdamente miserável, sofredora, horrenda e implacável, e isso vai durar para sempre.
– E para parar com isso…?
– Basta ela adquirir o acesso ao produto.
– …que não terá certeza se tudo o que almeja será providenciado pelo computador…
– Exatamente.
– Ela só precisa ter medo da alternativa…
– Correto.
– Que pode nem acontecer…
– Correto de novo.
– Apenas medo.
– Isso.
– Nenhuma garantia.
– O usuário pode não querer arriscar, e como sabemos como as pessoas são, elas não arriscarão.
– Isso não vai funcionar! Ninguém vai querer arriscar o certo pelo duvidoso, e o certo é que as tralhas que já têm já fazem a mesma coisa… ou seja, nada.
– Aí que entra o marketing agressivo. A gente pega o computador e quebra ele todo, pisa em cima, arrancas os circuitos, pendura em tudo que é lugar, e depois a gente coloca a culpa nas pessoas e espalha isso para todo mundo.
– Hã? QUE pessoas?
– Nas pessoas que a gente quer que use, ué. Vamos dizer que o computador foi quebrado por culpa delas, porque elas não quiseram acessar o computar.
– ISSO É INSANO!
– Todo marketing agressivo, é. Mas calma que tem a boa nova! Ele vai ser restaurado depois de três dias.
– Como assim?
– Ele não vai ser destruído em pedacinhos e colocar a culpa nas pessoas?
– Sim.
– Vamos dizer que mesmo assim ele apareceu de novo daí a alguns dias e perdoou todo mundo pelo erro das pessoas. Daí todo mundo fica feliz, fica com dor de consciência e passa a aceita-lo.
– A gente vai quebrar o computador na frente de todo mundo e depois apresentamos um outro computador?
– Não. Será o mesmo. Inteiramente restaurado!
– Mas vai dar tempo de remontar tudo?
– Não precisamos fazer isso, porque as pessoas efetivamente não irão ver o computador quebrado. A gente só diz que aconteceu e, depois, dizemos que foi restaurado. Simples assim.
– E as pessoas vão aceitar isso?
– É para isso que você paga caro pro Marketing, não?
– Não está bom. Está faltando alguma coisa. Precisamos de mais agentes de marketing e vendedores. Assim, eles espalharão as vantagens desse computador e a tática de colocar a culpa nas pessoas de forma que elas se sintam estimuladas a adquirir o produto.
– EXCELENTE, STEVE! Você é mesmo um visionário!
– Acho que precisamos de algo concreto, como modelos ou maquetes, mesmo que não-funcionais. Você sabe, material para divulgação como action figures deste computador, panfletos, livros, fotos etc. Talvez até filmes e desenhos animados. Aí a gente espalha isso tudo nos pontos de venda. Todo ano comemoraremos o ano de lançamento, e… qual é mesmo o nome do produto? Precisamos de um nome de vanguarda, que não seja usado pela concorrência e de certa forma inédita e que não precise ter algum significado claro.
– Estamos chamando internamente por uma piada. Colocamos o nome de Nothing to Report to Idiots (Nada para Reportar a Idiotas). Podemos usar só a sigla NRI. Que tal?
– Não está de acordo com nosso branding. Vamos usar nossa atual tática de nomear produtos novos e colocar um i na frente. É inovador, não acha?
– STEVE, VOCÊ É UM GÊNIO!!!!

Steve nem precisou averiguar que o computador na verdade era só um case.
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