O mundo invisível do interior de sapatos observado pelo poder da Era Atômica

A família risonha entra saltitante na loja. O pai, a mãe e o filhinho. Eles entram de mãos dadas e o vendedor, com terno bem alinhado, o espera com um sorriso maior ainda. O filho iria provar novos sapatos, era um evento! Papai pede pelo melhor par, mamãe, com cabelos bem arrumados, fica extasiada na seção de feminina. O filho olha pro sapato e escolhe, papai orgulhoso prepara a carteira, mas a mãe, preocupada como só as mães podem ser, indaga se aquele sapato seria o ideal, ao que o vendedor estufa o peito e diz com orgulho que a modernidade da ciência iria auxiliá-los. Ele apresenta o aparelho e com ele conseguirão ver através dos sapatos, das meias e até da pele como estará o pé do pequeno petiz. A mãe leva a mão à boca, seria seguro. O pai ri, pois é óbvio que seria seguro, completamente seguro, disse o pracista. E assim, ele mostra de forma indolor como o sapato se adequava ao párvulo que lá estava. Sem dor, sem perigo. Todos estavam completamente seguros ao ver as imagens.

Mas eles estavam enganados. Terrivelmente enganados.

Não se pode precisar quando o estudo da Radioatividade enquanto ciência começou, pois, vários campos estavam sendo estudados e só mais tarde se soube que se tratava do mesmo fenômeno. Podemos começar dizendo que em 1879, William Crookes retirou todo o ar de dentro de um tubo e fez passar corrente de alta voltagem (danem-se vocês, físicos. VOLTAAAAAAAAAGEM!), E viu emanações luminescentes no fundo da ampola. Experimentos mostraram que estas emanações tinham massa. Crookes achou que era um quarto estado da matéria e chamou isso de “raios catódicos”.

Em 1895, Wilhelm Conrad Röentgen fez modificações nas ampolas de Crookes, introduzindo anteparos metálicos inclinados, os quais eram atingidos pelos raios catódicos. Os feixes gerados eram capazes de sensibilizar placas fotográficas. Como o experimento mais comum nesta época era ver se as emanações sensibilizavam chapas fotográficas, Röentgen resolveu fazer este teste, mas ele também queria investigar a ação desses raios sobre tecido vivo; para isso, Röentgen fez o teste com a mão de sua esposa e o resultado foi que os raios atravessavam a pele e os músculos, mas não os ossos e os metais.

Por não saber a natureza desses raios, Röentgen chamou-os de Raios-X, já que ele não tinha nome melhor, posto que não sabia a natureza dos referidos raios. Por isso, mandou um X, um X, um X na sua radiação.

Thomas Edison, um dos primeiros entusiastas dos Raios-X, cunhou o termo “fluoroscopia” para esta nova técnica, que foi desenvolvida simultaneamente em fevereiro de 1896 na Itália e nos Estados Unidos. Só mais tarde ela seria chamada de “radiografia”.

Röentgen se recusou a registrar a patente para que a Humanidade pudesse se beneficiar desse novo método de exame, abrindo caminho para os exames não-invasivos. Cientistas, engenheiros e médicos mergulham de cabeça na pesquisa de raios-X. Ninguém sabia o que ia acontecer dali em diante.


Exame de raio-X em 1906.

Durante a Primeira Guerra Mundial, milhares de soldados sofreram de pés de trincheira, quando os pés ficavam em petição de miséria devido à humidade das trincheiras e locais alagados, já que as botas não eram impermeáveis. Os sintomas iniciais eram formigamento e coceira, podendo progredir para dormência e os pés acabavam ficando vermelhos ou azulados. Os pés então começavam a inchar e cheirar mal, pois os tecidos se necrosavam, e não raro era necessário amputar.

Some-se a isso que muitos soldados desenvolveram problemas crônicos nos pés devido ao mau ajuste das botas militares, pois eram feitas num único tamanho, pois, saía mais barato assim, e os soldados dos dois lados estavam sofrendo, já que os oficiais superiores sempre estavam muito bem, obrigado, com suas roupinhas feitas sob medida.

Os militares tiveram então uma excelente ideia: e se pudéssemos entender como os pés dos soldados ficam dentro dos sapatos? Então, algumas mentes criativas desenvolveram uma ciência para estudar a adaptação dos pés em calçados que foi adotada por podólogos, osteopatas e varejistas de calçados. Em 1919, o dr. Jacob Lowe, um médico de Boston, derivou esta ideia para “e se pudéssemos ver por dentro dos sapatos para ver como os pés estão ali? Com uma ideia na cabeça sem ter uma câmera, Lowe pesquisou, inventou e patenteou um dispositivo que lhe permitiu usar Raios-X para ver como os pés de seus pacientes estavam, nos sapatos sem cortar uma janelinha nas botas.

A patente só foi aprovada em 1927 e Lowe a vendeu imediatamente para a Adrian X-ray Company de Milwaukee, o que levou ao uso em sapatarias desse aparelho, o Foot-O-Scope, ou Podoscópio.

Começou a haver uma guerra de patentes e, com isso, duas empresas surgiram como as principais produtoras de fluoroscópios para calçados: a Pedoscope Co., na Inglaterra, e a X-Ray Shoe Fitter Inc., nos Estados Unidos. O projeto básico incluía um grande armário de madeira com um tubo de raios-X em sua base e uma abertura por onde os clientes colocavam seus pés já calçados.

Quando o vendedor acionava o interruptor para ativar o fluxo de raios-X, o cliente podia visualizar a imagem em uma tela fluorescente, mostrando os ossos dos pés e o contorno dos sapatos. Os dispositivos geralmente tinham três oculares para que o atendente, o cliente e um terceiro espectador curioso (pai, cônjuge, irmão) pudessem ver a imagem simultaneamente.

As máquinas foram anunciadas como fornecendo um método mais “científico” de encaixe de sapatos, mas você não é idiota e sacou logo que isso era apenas puro marketing para vender sapatos. E sim, funcionou! Na década de 1940, havia pelo menos 10.000 fluoroscópios em lojas de calçados nos Estados Unidos. Infelizmente, havia uma coisinha chata nisso tudo: a exposição desregulada à radiação colocou inúmeros clientes e balconistas em risco de doenças como dermatites, catarata e, claro, câncer; e isso nem era para ser novidade.

Clarence Dally, um técnico no laboratório de Thomas Edison, realizou vários testes com o fluoroscópio, expondo-se regularmente à radiação por horas a fio. Em 1900 (sim, quarenta anos antes) desenvolveu lesões nas mãos, seus cabelos começaram a cair e seu rosto ficou enrugado. Em 1902, seu braço esquerdo teve que ser amputado e, no ano seguinte, seu braço direito. Dally morreu em 1904, aos 39 anos, vítima de câncer de pele metastático. O New York Times o chamou de “mártir da ciência”. Edison afirmou famosamente: “Não fale comigo sobre raios-X. Tenho medo deles”, mas isso foi completamente ignorado e o marketing falou mais alto, como é comum acontecer.

Em 1915, a Sociedade Roentgen da Grã-Bretanha emitiu diretrizes para proteger os trabalhadores da superexposição à radiação. Estes foram incorporados em recomendações feitas em 1921 pelo Comitê Britânico de Proteção de Raios-X e Rádio, um grupo com uma missão semelhante. Diretrizes comparáveis foram estabelecidas nos Estados Unidos em 1922, mas era apenas burocracia sem resolver nada efetivamente.

Em fins da década de 1940, cientistas e reguladores começaram a levantar sérias preocupações sobre os níveis chocantemente elevados de radiação emitida pelos fluoroscópios e o risco representado para crianças e funcionários. Os crescentes protestos acarretaram mudanças nas leis. Em 1970, um total de 50 estados haviam tomado alguma forma de ação legislativa contra o dispositivo.

A Food and Drugs Administration (FDA) nada podia fazer, pois, era um campo tão novo que não havia legislação dando poderes ao órgão para agir como autoridade regulatória sobre dispositivos emissores de radiação. Só em 1971 ganhou poderes regulatórios.

A Radioatividade teve muitos empregos e chegou muito rápido no imaginário popular, com as empresas investindo muito dinheiro nesta maravilha da Era Moderna. O problema é que grandes poderes requerem grandes responsabilidades e ficar ao sabor de emanações radioativas não dava em boa coisa, e a Era Atômica não nos deu gente com poderes de aranhas ou capazes de ficarem mais fortes quando irritadas. A irritação era apenas a consequência de se ver com a saúde deteriorada.

Este simples exemplo do aparelho para se ver através de sapatos devem ser visto como um aprendizado do quanto podemos fazer muita besteira só por achar algo muito legal à primeira vista, coo passar pózinhos brilhantes no rosto para se ver cintilando no escuro ou enfiar supositórios de material radioativo no ânus para dar saúde, ou algo que o valha.

As pessoas são ótimas em achar maneiras de se autodestruir.

6 comentários em “O mundo invisível do interior de sapatos observado pelo poder da Era Atômica

  1. Quando eu estava no colégio eu adorava Química. Quando eu já tinha dominado a arte da estequiometria básica eu passava a aula lendo a parte de Química Nuclear e todos os mistérios (pra mim) das partículas alfa e beta e dos raios gama eram saborosos. Mas isso também me fez desenvolver muito respeito pela radiação e pelos cientistas que descobriram tudo aquilo. Os pioneiros basicamente se sacrificaram pra que a gente possa lidar – às vezes não tão bem assim, né Goiânia? – com materiais radioativos de forma benéfica. E apesar da precariedade, achei a ideia do raio-x de sapatos genial.

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    1. Por mais absurda que soe pra gente hoje, a ideia da máquina é bem legal, né? hehe, parece aquelas invenções do futuro cogitadas pelo pessoal lá do início do século XIX. A primeira vez que ouvir falar dela foi numa passagem de “It” do Stephen King, à época achei que era uma invenção do autor e como não tinha internet nem outros meios pra pesquisar acabei me esquecendo. Muito legal o artigo.

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