O caso das Fadas de Cottingley

Essa é uma interessante história do “acreditei porque quis acreditar”, o que é a base de todas as crenças, obviamente; desde histórias sobre quando Jesus caminhou sobre as águas até o bandido que a periguete descolou, e jura que vai conseguir redimi-lo. Também é uma história da linha “mente vazia é oficina do Diabo”. Junta isso tudo e temos o quê? Isso mesmo! Fadas pousando para fotos, com escritores famosos caindo feito otários.

Tudo começou numa pacata vila chamada Cottingley, localizada em West Yorkshire, Inglaterra. Estamos em meados de 1917, com um bando de gente endinheirada o suficiente para não se preocupar com a Primeira Guerra Mundial, em que uma menina chamada Elsie Wright estava meio entediada do alto dos seus 16 anos, com a família já preocupada se ia ficar pra titia, já que era para já estar em vias de se casar, como era de praxe naquela época.

Arthur Wright, o patriarca da família e pai de Elsie, gostava de fotografia, e isso nem de longe era algo como uma Kodak apontando e batendo a foto (para depois de algumas semanas saber se ficou bom). Era na base da longa exposição numa placa de vidro com substâncias fotossensíveis, como nitrato de prata, como substância principal e depois relevar em papel fotográfico. Como podem imaginar, o aparato era bem grande e era preciso revelar, o que se fazia em casa mesmo, e Arthur tinha tudo isso, pois, este era seu hobby.

Naquele verão, a prima de Elsie, Frances Griffiths, de nove anos, veio para ficar uns dias. Frances e sua mãe tinham acabado de voltar da Cidade do Cabo, na África do Sul, onde moravam, também bem longe da Guerra Que Ia Acabar Com Todas As Guerras (ou assim diziam), e voltaram só quando tiveram certeza que a Inglaterra ia continuar de boas.

Elsie e Frances passavam o dia inteiro sem fazer nada, morrendo de tédio, já que smartphones ainda não haviam sido inventados. Com isso, a saída era brincar pela propriedade que tinha um imenso jardim e até um córrego. As mães, outras desocupadas, ralhavam com as meninas por causa da imensa preocupação delas: as não molharem seus vestidos ou os sapatos. Elsie disse que elas estavam indo pro córrego pra ver fadas, o que obviamente não foi levado a sério.

Elsie já sabia usar os equipamentos do pai e disse para a mãe que ia tirar algumas fotos. Papai Arthur já tinha tirado fotos de Elsie com uns gnomos, no melhor dos efeitos visuais da época, mas quando Elsie voltou com as fotos, elas pareciam tão… reais!


Ok, não pareciam, mas pessoal acredita em qualquer coisa

Nas fotos, as fadas davam ares se aproximar de Elsie e Frances, elas tinham asinhas brilhantes (estou falando das fadas), e todos ficaram maravilhados. Quer dizer, todos menos papai Arthur, que como sacava de fotografia, estava achando aquilo esquisito demais.

Em fins do século XIX e início do século XX, as pessoas estavam fascinadas por espiritismo, misticismo, magia e criaturas fantásticas. Não o tipo de fascinação de fã de Harry Potter. As pessoas realmente levavam a sério, e várias sessões espíritas se espalharam por toda a Europa e Estados Unidos. De novo, entre os ricaços; pobres estavam ocupados trabalhando de manhã até a noite. Embora, mesmos pobres se interessassem por estes assuntos, não tinham tempo para este novo hobby, então, os ricos que ficavam fazendo sessões espíritas e coisas do tipo. As fotos de menina Elsie foram uma sensação. Sim, fadas existem. U-AAAAAAAAU!!!!!!!!

Papai Arthur tentou fuçar nas coisas de Elsie para saber como ela aprontou aquilo, mas não encontrou nada. Mamãe Frances (sim, a mãe de Elsie também se chamava Frances. Devia ser a “Valentina” da época) acreditou piamente que as fotos eram reais porque, claro, ela acreditava em fadas. Seria maluco não acreditar nelas, ainda mais com fotos, certo?

No final de 1918, Frances Wright escreveu uma carta para sua amiga que ainda morava na Cidade do cabo, Johanna Parvin. Nessa carta, menina Frances incluiu a foto dela com as fadas. Na parte de trás da carta, Frances pontuou: “É curioso, eu não costumava vê-las na África. Deve fazer muito calor para elas aí”.

As coisas começaram a escalonar a partir daí. Em 1919, Frances Wright, mãe de Elsie, assistiu a uma palestra sobre “A Vida das Fadas” (uma palestra sobre algo que achavam que existia, mas ninguém nunca viu. É como uma palestra de Exobiologia), promovido pela Sociedade Teosófica. Segundo a palestra, as pessoas estavam lentamente se tornando mais espirituais, e, com isso, capazes de entrar em contato com seres da Natureza – e assim poderiam conhecer tais seres. Mamãe Frances aproveitou para mostrar as fotos das fadas, que mais tarde foram colocadas em exibição. Em 1920, as meninas foram encorajadas a tirar mais três fotografias, que também pareciam mostrá-las com as fadas.

Nisso, entra em cena, Arthur Conan Doyle, autor de Sherlock Holmes, que apesar de ter criado um personagem que disse “depois que se exclui o impossível e o improvável, o que resta é a verdade” acreditava em fadinhas, eres místicos, espíritos e coisas fantasticamente impossíveis e improváveis. Conan Doyle adorou as imagens e vaticinou que aquilo era uma prova que fadas existiam!

Conan Doyle apresentou as fotos para outro membro da Sociedade Teosófica, Edward Gardner, que foi correndo mostrar as gravuras e os negativos de vidro de placa originais para Harold Snelling, um especialista em fotografia. Snelling disse que os dois negativos eram inteiramente autênticos, e as fotos absolutamente não indicavam ser falsas, sem haver possibilidade de terem sido alguma montagem feitas em um estúdio fotográfico. Mesmo quando as fotos foram muito ampliadas não havia nenhuma marca de recorte nas fotos. Doyle escreveu um longo artigo e as Fadas de Cottingley se tornaram uma sensação!

Em 1922, Arthur Conan Doyle escreveu um livro sobre as fadas intitulado The Coming of the Fairies (disponível na Amazon por menos de 3 reais, na versão para kindle), mostrando as fotografias de Elsie Wright e dando outros exemplos de registros de fadas e as opiniões de outras pessoas que acreditavam nelas. Parecia que as fadas eram mais propensas a serem vistas em dias bons e por crianças. É que nem as aparições da Virgem Maria.

Edward Gardner descreveu as fadas no livro de Conan Doyle como sendo como borboletas em uma forma humana muito pequena, e cheias de uma “alegria contente e irresponsável da vida”, seja lá o que ele tenha querido dizer com isso.

Outras empresas de fotografia examinaram as fotos e apontaram que havia algo de errado nas fotos, mas tanto Gardner quanto Doyle acharam que isso não importava e pescaram partes dos relatórios que diziam o que eles queriam que dissessem.

Outros membros da Sociedade Teosófica foram até Cottingley para ver as fadas, entre eles estava o clarividente Geoffrey Hodson, que não conseguiu fazer nenhuma foto de fada, gnomo ou o que quer que seja, mas jurou de pés juntinhos que tinha fadinhas por todos os lugares. Isso foi indo, foi indo, foi indo, até que caiu no esquecimento, quando apareceram outras coisas mais legais para se noticiar nos jornais, como a Crise de 1929 e uma coisinha desagradável que aconteceu na Europa em 1939 e se estendeu até a metade da década de 40.

Arthur Conan Doyle morreu em 1930. Edward Gardner morreu em 1965, ano que a farsa começou a ser demolida. Numa entrevista ao Daily Express em maio daquele ano, Elsie Wright declarou que as imagens mostravam “frutos de nossa (de Elsie e Frances) imaginação”, o que foi repetido numa entrevista à BBC em 1971.

Em 1983, Elsie Wright e Frances Griffiths admitiram que forjaram as fotos. Como ninguém percebeu? Simples! Elas não tinham feito montagens nas fotos. Elas haviam copiado e recortado algumas figuras de u livro de historinha infantil, feito apoio para as figuras e então batido as fotos. Ainda assim, elas disseram que sim, tinham visto fadas, sim. Só não conseguiram tirar as fotos.


Original


Foto manipulada

A grande magia nisso não está nas fadas com suas asinhas de borboletas, mas em duas meninas com uma engonhas, porém simples, técnica de fotografia enganar um monte de adultos. E isso pelo simples expediente de todo mundo apenas querer acreditar na realidade daquilo tudo.

A história das Fadas de Cottingley nos faz entender como algumas histórias absurdas como aparições fantasmagóricas, milagres religiosos, naves extraterrestres, monstros fantásticos e toda sorte de esquisitice terem vários crédulos que juram que é verdade, muitos apresentando “provas” como as que Elsie e Frances apresentaram, mesmo com óbvia mostra de falsificação. Por que, no fundo, tudo isso se baseia numa coisa: a vontade de querer acreditar.

4 comentários em “O caso das Fadas de Cottingley

  1. Uma vez eu estava na Universidade de Vila Velha (UVV), aqui no Espírito Santo, e peguei um folheto com uma oferta de “Cursos para a Comunidade”, uma espécie de programa social com cursos gratúitos. Ótima ideia, certo?
    Tinha curso de corte e costura, manicure, culinária, várias coisas úteis, mas no meio tinha um curso sobre….. ANJOS ?????? wtf

    Aí eu perguntei para um colega:
    – O que habilita alguém a ministrar um curso desses?
    – Ter feito o curso com outro professor.
    – Mas o que habilita esse outro professor? (recursão infinita detectada)
    – Ter feito o curso com o charlatão que inventou a baboseira toda.

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