O milagre fatal para a cura da gripe espanhola

Entre 1918 e 1919, o mundo viu uma das piores pandemias da História: a gripe espanhola, a mais devastadora da Era Contemporânea. Ela ceifou 50 milhões de vidas, inclusive o presidente eleito Rodrigues Alves, que não chegou a assumir a presidência do Brasil porque a gripe duzinferno levou-o embora. Especula-se que a gripe espanhola não é bem espanhola, já que a proposição mais aceita é que ela tenha surgido nos Estados Unidos, num acampamento militar.

Em 24 horas, 41 mortes foram registradas em Boston. Mais vítimas foram relatadas em toda a Nova Inglaterra e, quando começou a se espalhar para a população civil, foi emitido um alerta nacional contra a histeria pública. O vírus estava descontrolado e as pessoas também. Obviamente, todo mundo atrás de um culpado.

O tenente-coronel Philip S. Deane, chefe de Saúde e Saneamento da Emergency Fleet Corporation, afirmou que o surto da gripe espanhola na costa leste se deveu às tripulações de um punhado de submarinos alemães que haviam conseguido fugir para Nova York. Em um artigo de 1918 intitulado “The so-called influenza epidemic”, escrito pelo médico Albert J. Croft, é sugerido que a gripe espanhola não era um vírus, ou sequer causado por um agente biológico, e sim por causa do excesso de vapores e gases tóxico na atmosfera, liberados durante a Primeira Guerra Mundial

Para Croft, o vírus não tinha como espalhar rápido o suficiente para infectar pessoas em lados opostos do planeta; tinha que ser ambiental, ou pelo menos, alguma espécie de “vingança divina” por causa da guerra. Como não era biológico, Croft não receitou os remédios a época, mas formas de expulsar o agente venenoso do organismo. Para tanto, ele receitou laxantes e enemas salinos. Ele também prescrevia fenacetina, para aliviar as dores. O problema é que mais tarde ficou se sabendo que este medicamento afetava os rins. A propósito, ele também receitou estricnina. O sujeito era hardcore.

Eu sei, você vai alegar que ele era apenas um maluco, mas não era só ele que tinha este tipo de visão. Um memorando de outubro do hospital base em Camp Zachary, em Kentucky, delineou o tratamento padrão para pacientes admitidos com gripe espanhola: usar Vick Vaporub (sim, este que é vendido até hoje) no nariz, beber leite morno e… um enema básico, que consistia em enviar substâncias pelo seu ânus e mantê-las lá o máximo de tempo possível, mas não inferior a 20 minutos. Não sei qual a tara que pessoal tinha antigamente com enemas. Os casos mais graves foram tratados com pequenas doses de estricnina ou um enema de café preto quente, conhaque e água.

Estricnina? Pois é. Eu não escrevi errado. Estricnina era um remédio nesta época. Extraída da nux vomica, este alcaloide era usado com beladona, entre outras misturas. Beladona e estricnina são venenos, mas ninguém sabia disso, e medicamentos com estas substâncias apareciam em várias farmacopeias.

Usava-se a nux vomica para melhorar o tônus muscular, aumentar o apetite e como antidoto para a overdose por narcóticos, estimulante cardíaco e respiratório e como analéptico. Ah, e como disse, foi usada como tratamento da gripe espanhola que não se sabia que era uma gripe. Com o passar do tempo, ficou evidenciado o que a estricnina fazia, e entre 1926 e 1928 o referido alcaloide matava mais de 3 americanos todas as semanas, sendo em 1932 a principal causa de envenenamento em crianças, para depois ser finalmente banida dos róis de medicamento.

Tá ruim por enquanto? Piora.

Parte do tratamento era combater a tosse, então, chegaram à maravilhosa conclusão de que se a pessoa dormir, ela vai descansar bastante e, com isso, não vai tossir. Então, aplicavam láudano, um derivado opioide, e como todo opioide causa dependência, mas ninguém sabia no século XIX. No século XX, sim, mas daí era só arrumar um substituto, certo? O substituto foi um novo medicamento conhecido como diamorfina, criado pelo químico britânico C. R. Alder Wright em 1874 para a Bayer, mãe da Aspirina. Este nome não era muito comercial, então, a Bayer batizou com um nome melhor: heroína.

A Bayer vendeu que nem água! A heroína era apresentada como um substituto que não causava dependência como a morfina e o láudano, além de não apresentar efeitos colaterais. Entre 1898 e 1910, a Bayer o anunciou como uma cura para dores de cabeça e mal-estar geral, e foi vendido em xarope para tosse para crianças. Foi até dado aos bebês para ajudá-los a dormir. Antes da Primeira Guerra Mundial e antes da gripe espanhola, em 1912, americanos já tinham descoberto que heroína dava barato. Todo mundo sabia, mas foi vendida assim mesmo para combater aquela doença esquisita que com certeza não era causada por nenhum ser vivo.

A Bayer criou a heroína para ter um remédio que não causasse tanta dependência quanto a morfina. De certa forma, conseguiu. De fato, a heroína não é viciante como a morfina. É muito pior! Duas vezes mais potente que a morfina e se mostraria como sendo uma das substâncias mais viciantes do mundo!

Quando a gripe espanhola bateu nos EUA, por falta de coisa melhor para receitarem, mandaram as pessoas tomar aspirina. O problema é que não disseram quanto, e se dando instruções claras as pessoas fazem merda, sem orientações acarretou overdose de aspirina. Ou, quando há orientações, mas elas são totalmente idiotas, como foi o caso do Journal of the American Medical Association, que recomendava administrar 25 comprimidos (!!) por dia, e isso é mais que o dobro da dosagem máxima segura.

Sim, overdose de aspirina, como a maioria das substâncias, é letal!

Isso acarretou outros problemas: sacaneou com os dados estatísticos sobre a gripe espanhola. Motivo? Acontece que morte por overdose de aspirina se parece muito com as da gripe espanhola. As pessoas tomavam a aspirina e a heroína para tentar se verem livres da gripe, só que – óbvio – não funcionava, não melhoravam, não se recuperavam.

Arco reflexo, achavam que era melhor aumentar a dosagem, então, e continuavam a tomar esses “medicamentos”, aumentando a dosagem, até morrer do que se supunha ser a gripe, mas era intoxicação, mesmo. Por causa disso, hoje não temos como saber quantas mortes foram causadas pela gripe espanhola e quantas foram realmente causadas por aspirina ou overdose de heroína. Simplesmente, não sabemos.

A heroína foi proibida nos Estados Unidos em 1924, mas isso serve de alerta que remédios milagrosos podem trazer um mal maior e é por causa disso que o método científico precisa ser empregado, ou daqui a pouco trataremos doenças causadas por vírus com um remédio anti-parasitário.

4 comentários em “O milagre fatal para a cura da gripe espanhola

  1. Eu fui lendo o nome das substâncias… fui lendo… fui pensando “vai dar merda”… e deu merda. Ok que nego não sabia onde estava enfiando o nariz (ou o que estava enfiando… enfim, sabemos onde), mas nem a noção de que tomar remédio demais podia fazer mal eles tinham? o.O
    Se bem que, numa época mais “esclarecida”, médico receitava antibiótico pra qualquer coisa (e a amoxicilina ainda tinha que ser docinha, né?) e qualquer mal estar se resolvia com “bezetacil” (eu sei) e tá aí agora a seleção natural linda e bela inutilizando boa parte dos antibióticos conhecidos…

  2. Se em um mundo onde as pessoas têm acesso a mais informação do que um acadêmico na melhor universidade do século XIX há casos de pessoas que tomaram desinfetante para tratar vírus, imagine quantas não morreram por conta desses “tratamentos” antigamente.

  3. Primeira guerra mundial, gripe espanhola e agora essa história de pessoal tendo overdose de heroína e aspirina. Os primeiros anos do século XX foram hardcore ao extremo.

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