A história do livro assassino e papéis de parede mortais

No romance O Nome da Rosa, um livro assassino foi o algoz de alguns monges numa abadia esquecida no interior da Itália. Olhando para o livro (ou filme), podemos pensar que isso seria um pouco (ok, muita) de maluquice, mas não é. Realmente existiu livros venenosos, e papéis de parede mais venenosos ainda!

E tudo por causa de uma tinta de cor verde.

Shadows from the Walls of Death – Facts and Inferences Prefacing a Book of Specimens of Arsenical Wall Papers (Sombras das Muralhas da Morte – Fatos e Inferências Prefaciando um Livro de Amostras de Papéis de Parede com Arsênico) foi um livro… interessante. Ele foi propositadamente feito para ser venenoso e matar pessoas, mas a função mesmo era mostrar que alguns papéis eram venenosos e podiam matar pessoas, mas não eram quaisquer papéis e sim um tipo muito especial: papéis de parede.

O livro foi produzido pelo dr. Robert Clark Kedzie, cirurgião da União durante a Guerra Civil Americana. Mais tarde, Kedzie se torna professor de Química (com ele a oração e a paz) na então Michigan State Agricultural College. Trabalhou no Conselho Estadual de Saúde na década de 1870, e ficou muito preocupado com um problema seriíssimo: papéis de parede.

O livro contava com dezenas de amostras de papel de parede com infusão de arsênico que Kedzie havia obtido de comerciantes e servia de aviso para quem o visse.

Nessa época, não havia a indústria de corantes, pigmentos e tintas que temos hoje. Os pigmentos eram substâncias químicas inorgânicas cuja estrutura molecular apresentava cores. Por exemplo, o sulfato de cobre II é azul. O iodeto de chumbo é amarelo. Já o corante verde mais comum era chamado “verde-paris” ou “verde-esmeralda”, porque, óbvio, tinha um tom de verde semelhante ao da esmeralda, mas as composições químicas dos dois são diferentes.

O verde-paris foi inventado em 1814 por dois químicos: Wilhelm Sattler e Friedrich Russ, na Wilhelm Dye and White Lead Company de Schweinfurt, Baviera. Qual o problema desse pigmento? Bem, está na composição química: o triarsenito de cobre acetato de cobre II ou Cu(C2H3O2)2·3Cu(AsO2)2. Este pigmento foi feito para substituir o verde de Scheele, cuja substância é arsenito de cobre e hidrogênio (AsCuHO3). Russ e Sattler queriam um pigmento mais durável e que mantivesse a belíssima cor verde. Eles batizaram de schweinfurter grün (verde de Schweinfurt).

Em 1822, Justus von Liebig (sim, o criador do condensador de Liebieg), então apenas um filho de um farmacêutico e comerciante de tintas, divulgou os processos químicos para a preparação das tintas usando este pigmento, que até então eram uma espécie de monopólio não patenteado de algumas fábricas, e tratado como um segredo comercial. Liebig descobriu como produzir tintas com ele e foi um furor, dada a beleza. Fez muito sucesso em paris e, por causa disso, ficou conhecido como verde-paris.

Entretanto, pouco depois ficou evidente o grande problema desse corante: o arsênio. Arsênio (mais conhecido por “arsênico”) é extremamente tóxico, podendo levar à morte… e levava. Só que dá uma cor tão bonita que muitos usavam em pinturas, vestidos e até em papéis de parede. Em 1867, o verde-paris foi introduzido no combate a pestes, sendo o principal inseticida para combater o escaravelho da batata. Em 1900 era usado em tão larga escala que levou o governo dos EUA a estabelecer a primeira legislação no país sobre o uso de inseticidas.

Perto do final do século XIX, a Associação Médica Americana estimou que cerca de 65% de todo o papel de parede nos Estados Unidos continha arsênico.

Ainda assim, a predileção pela cor verde era tanta, que a segurança foi posta de lado. Em 1927, um técnico dos cursos da Faculdade de Medicina de Paris, J. P. Barruel, foi encarregado de examinar alguns bombons coloridos de verde, preparados por um confeiteiro da cidade. No seu exame, constatou-se que as guloseimas deviam sua aparência ao arsenito de cobre. Ocorreram, então, visitas pelas autoridades de saúde, quando os bombons foram condenados e destruídos. Logo após, foram proibidas as preparações alimentícias com a respectiva substância.

Kedzie investiu tempo em conscientizar sobre os perigos do papel de parede pigmentado com arsênico. Foram produzidos 100 cópias do Shadows from the Walls of Death. Kedzie as enviou para bibliotecas públicas no Michigan, juntamente com uma nota explicando o propósito do livro e um aviso aos bibliotecários para não deixarem as crianças tocarem nas páginas.

Quando as teorias de Kedzie se provaram corretas, a maioria das bibliotecas que receberam cópias da obra trataram de destruir os livros, considerando-as muito perigosas para o público. Das 100 cópias originais deste livro incrível, apenas quatro ainda existem hoje. Dois permaneceram no Michigan, um acabou na Harvard University Medical School e o quarto está na National Library of Medicine.


As folhas estão cobertas com plástico para proteger no manuseio

E se você ficou curioso com o livro, poderá examiná-lo com toda segurança que a Internet proporciona clicando AQUI. E o melhor de tudo: sem risco de morrer.

A literatura pode ser bem mortal às vezes.

3 comentários em “A história do livro assassino e papéis de parede mortais

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