O caso do inexistente escritor que humilhou vários jornais por causa de um livro que não existia

Eu paro para refletir de vez em quando sobre a psique humana. Eu acho fora de série o que nos faz ser o que somos, em toda nossa peculiaridade. Isso fica evidente em certas histórias que nos são contadas e daí vemos como são estranhas as pessoas grandes. Para isso, tomemos um exemplo simples, mas interessante: o monte de pessoas que leram um livro, comentaram esse livro, fizeram resenha, críticos aclamaram, jornais elencaram-no como um best-seller e um “must read”. Um verdadeiro fenômeno editorial, com várias pessoas discutindo a trama, os personagens, o desenrolar da história.

Só tem um pequeno detalhe: este livro não existia.

Jean Shepherd era uma figura… interessante. Durante a Segunda Guerra Mundial, Shepherd (ou “Shep”, para os íntimos) serviu no Signal Corps do Exército dos EUA. Shepherd então teve uma extensa carreira em uma variedade de meios de comunicação, acabando por optar para trabalhar em rádio. Ele adorava rádio. Ele também adorava outra coisa: bancar o zueiro.

Após pedir baixa do serviço militar, Shepherd começou sua carreira no rádio no início de 1945 no WJOB em Hammond, Indiana. Depois trabalhou em Ohio, depois na Pensilvânia, passou pela TV, mas voltou ao rádio, sua paixão. Em 1955, ele assumiu como radialista na rádio WOR, em Nova York.

Era um mundo estranho, mas fascinante. Basicamente, o rádio se resumia em tocar música, com algumas esporádicos inserções de notícias. Era diferente do que ele estava acostumado. Assim, ele ficou com o turno da madrugada (ia de meia-noite às 5:30), e sim, tem gente ouvindo rádio a essa hora. Pessoas que trabalham à noite (obviamente), como vigias, faxineiros, motoristas e toda sorte de trabalhadores que nos são invisíveis, pois, quando acordamos, eles já foram para casa. O diferencial de Shepherd é que ele era um humorista, mas um contador de histórias, também. Eu diria que era mais um contador de histórias do que humorista, mas as duas essências estavam nele.

Shep gostava de ler poesias, trechos de livros e uma ou outra piadinha ocasional. Mas um dia ele teve um estalo, e compartilhou com seus ouvintes. Shep queria provar que um buzz poderia ser artificialmente criado, e que todos os críticos literários, colunas especializadas em livros e lista de best-sellers era uma fraude. Segundo Shep, ninguém se importa com um show a menos que seja indicado para um Tony ou um filme até ganhar um Oscar. Ninguém compra um livro se não for um best-seller do New York Times; mas quando algo entra na lista, de repente, todo mundo tem uma opinião sobre ele, todo mundo se torna um especialista.

Com isso, ele pediu pros seus ouvintes fazerem uma coisa. No dia seguinte, eles iriam em uma livraria (ou em mais de uma) e perguntariam pelo livro I, Libertine (Eu, Libertino), o primeiro volume de uma trilogia sobre a vida na côrte do século XVIII, escrito por Frederick R. Ewing. O autor não existia e muito menos o livro. Shep avisou para seus ouvintes fazerem cara séria, não rirem, perguntarem sobre o livro e depois simplesmente saírem da livraria. Só isso.

E assim foi feito. Os ouvintes de Shep foram nas livrarias, e com a cara mais deslavada do mundo pediram pelo livro I, Libertine. Você sabe, né? Do Frederick Ewing. Não, senhor, não temos, mas iremos solicitar à editora. Com o tanto de gente procurando o livro nas livrarias, os livreiros ligavam desesperados para as editoras procurando pelo tal livro. Obviamente, as editoras nunca tiveram, mas – vejam que ótimo! – asseguravam aos livreiros que iria sair do prelo em breve, isto é, estavam imprimindo para mandar para as livrarias.

A história foi escalando. Frederick R. Ewing já tinha até uma biografia: tratava-se de um suposto graduado em Oxford, ex-comandante britânico da Segunda Guerra Mundial, que, naquela época, exercia o cargo de funcionário público na Rodésia, onde passava seu tempo livre em busca de escrita acadêmica. Os livreiros estavam atrás de qual editora publicara o livro. As editoras estavam em busca onde estava o sujeito para comprar os direitos do livro e publicar. Foi um Deus nos acuda.

À noite, Shep gargalhava contando aos seus ouvintes o que estava acontecendo. Pelo visto, nem os livreiros, nem os editores ouviam seu programa. Jean Shepherd não fez nada escondido. Se ninguém no ramo editorial ouvia seu programa depois da meia-noite, não era culpa dele. Isso caiu nos ouvidos do The New York Times, que o elencou em sua lista de best-sellers. Sim, isso mesmo. Um livro best-seller que tecnicamente não estava sendo vendido porque, segundo as desculpas, as editoras não tinham sequer entregue. Claro, alguns livreiros mandaram aquela “tem, mas acabou”. E foi só ter saído na lista do The New York Times, que apareceu um monte de esnobes, sommeliers de livros e gente metida a intelectual tecendo altos elogios à trama, ao autor, à forma como o livro era conduzido. Nos clubes de leitura, várias senhoras discutiam os detalhes da trama, as passagens inesperadas e o desfecho.

O livro virou uma febre nacional. Todo mundo tinha o livro, leu o livro ou estava desesperado pelo livro. Ninguém queria admitir que jamais tinha lido, pois, como já foi dito, é impossível ler um livro que nunca fora escrito, mas, mesmo assim, as pessoas não ousavam criticar o que estava acontecendo, assemelhando ao conto da Roupa Nova do Imperador. O rei estava nu, e ninguém iria dizer para não passar por ignorante.

Com o passar das semanas, Shep ia atualizando os seus ouvintes das insânias que estavam acontecendo, enquanto caía na gargalhada. Pelo visto, os ouvintes também estavam adorando e colocando mais lenha na fogueira juntos aos seus familiares e amigos. O caso chegou a um ponto de loucura tamanho, que um de seus ouvintes, que era aluno do curso de História da Literatura Inglesa, escreveu um ensaio sobre Frederick R. Ewing, contendo 9 (NOVE) páginas, com notas de rodapé, citações e bibliografia. O resultado? O professor escreveu na capa do trabalho “Pesquisa Soberba!”, e deu um B+ ao sujeito. Se isso não demonstrar a qualidade de ensino e avaliação acadêmica, não sei o que mais pode ser.

Earl Wilson, um colunista social e figurinha fácil que rondava as festas da alta sociedade da época, escreveu uma profunda e densa coluna, descrevendo uma entrevista que tivera com Frederick R. Ewing, que estava acompanhado da sua esposa Marjorie. Fazendo um pequeno desvio no assunto, Wilson chegou a vir no Brasil, visitando o carnaval do Rio de Janeiro em 1961, escrevendo muito sobre a sociedade da época. Agora imaginem o tanto que ele não inventou ao mencionar as personalidades daqui, também.

A Biblioteca Pública da Philadelphia, como muitas outras, abrira uma ficha catalográfica para o livro em questão. O livro não existia, mas se existisse já estava tudo pronto, e a Biblioteca do Congresso dos EUA não entendia por que não conseguia uma cópia do livro para o seu acervo. Shep, entre gargalhadas, apontava como todos os metidos a “ratos de biblioteca”, especialistas em livros, acadêmicos, estudiosos de literatura inglesa, colunistas, jornalistas etc. não passavam de uma fraude desavergonhada. E isso falando abertamente todas as noites, e nenhum deles sabia o que estava acontecendo, porque simplesmente nunca ouviam rádio à noite pelo simples expediente que não pegavam no pesado em horários esquecidos por Deus.

I, Libertine cruzou o Atlântico e estava sendo procurado na Inglaterra, França e Itália, em que outros experts analisavam minuciosamente a obra, com comentários profundos e embasados sobre um livro que nunca leram. Isso durou até que um dia Shepherd recebeu um telefonema de um repórter do Washington Post que passou meses inteiros investigando quem de fato era Frederick R. Ewing, do que se tratava o livro, onde ele estava e, afinal de contas, o que diabos estava acontecendo? Shepherd contou a ele toda a história e o repórter, Carter Henderson – o único que espírito jornalístico e investigativo – escreveu um artigo de página inteira para o Washington Post, fazendo todo mundo amargar a cara de otário.


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Enquanto uns choram, outros correm para vender lenço. Enquanto todo mundo ficou com cara de babaca, Ian Ballantine, dono da Ballantine Books, entrou em contato com Shepherd, pegou os detalhes, dinheiro trocou de mãos, e Ian contratou Theodore Sturgeon (um autor de ficção c científica tão bom que foi congratulado pelo próprio Ray Bradbury) para escrever um romance para combinar com o boato criado por Shepherd e seus fiéis ouvintes.

Sturgeon trabalhou direto num fim-de-semana, e acabou caindo de cansaço sem terminar o livro. Quem terminou foi Betty Ballantine, esposa de Ian e também escritora, com alguns prêmios literários no bolso. O livro foi lançado simultaneamente em edições de capa dura e papel, em 13 de setembro de 1956, com Shepherd posando como Ewing numa foto na contracapa, fazendo pose de intelectual arrogante. A pintura da capa de Kelly Freas, que inseriu easter eggs no desenho, como piadas internas.

Nesse ínterim, um monte de gente fez que não viu, os jornais amargaram a humilhação que passaram, colunistas meteram a viola no saco, um monte de gente sequer comentou mais o assunto e isso porque seres humanos sentem a necessidade patológica de se sobressair perante os demais.

Para finalizar, vou postar o vídeo (que na verdade é um áudio) de Jean Shepherd contando o caso:

E se você quiser ler o livro, está disponível na Amazon gringa.

4 comentários em “O caso do inexistente escritor que humilhou vários jornais por causa de um livro que não existia

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