Grandes Nomes da Ciência: Nathaniel Ward

O homem caminha até a sua criação. A olha com curiosidade. Vê que ela precisa um pouco de sua intervenção. Só um pouco. Por 12 anos não precisou, mas agora seria ótimo dar uma ajudinha. Ele contempla a enormidade de sua criação, tanto em tamanho, como longevidade. Ele faz o que tem que fazer, e ele sai. E por mais algumas décadas, sua criação estará sem nenhuma intervenção. Ali, funcionando sozinha, independente. O homem sai satisfeito. Sua selva particular está a contento e ele sendo o deus bondoso daquele sistema, o deixa prosseguir.

Nathaniel Bagshaw Ward nasceu em algum momento em 1791, ano em que a cabeça de Lavoisier saiu rolando quando guilhotinado. Ele seguiu a carreira da Medicina, mas ele era fascinado por plantas. Há quem diga que essa paixão começou quando ele foi mandado para a Jamaica aos 13 anos. Ele era tão fanático por plantas que em seu herbário tinha certa de 25 mil espécimes, mas isso iria demorar. A Revolução Industrial era movida basicamente a carvão e a Inglaterra estava lindamente tomada por toneladas de partículas suspensas no ar, o que detonava com os jardins de todo mundo.

Em 1829, Ward observou algo interessante. Ele tinha colocado uma crisálida de uma mariposa esfinge em uma certa quantidade de solo úmido no fundo de uma garrafa e cobriu-a com uma tampa. Ele queria saber se a crisálida iria dar em uma nova mariposa; mas o que aconteceu pareceu-lhe muito mais fascinante: uma samambaia e uma muda de grama haviam brotado do solo. Mas como assim? Ward prestou atenção nas paredes da garrafa e viu que estavam orvalhadas. A conclusão era óbvia: a água do solo evaporava durante o dia, e de noite, escorria pelas paredes da garrafa, mais frias, já que se condensavam, orvalhando as respectivas paredes, entrando em equilíbrio.

A rigor, ter plantas crescendo e sendo transportadas em recipientes de vidro não era nova, mas só Ward tinha observado elas em uma garrafa totalmente selada, mantendo as plantas ali no seu próprio ecossistema, totalmente independente das condições atmosféricas circundantes. Foi o avanço que mudou para sempre a arte e a ciência da exploração vegetal.

Corretamente, Ward deduziu que é o que acontece com o nosso planeta, e que a grande quantidade de água das florestas evapora e depois se condensa e volta à terra. Como nós chamamos isso hoje em dia no Brasil? Terrários.

Ward contratou um carpinteiro para construir um recipiente maior para mais experimentos. As especificações de Ward eram claras que deveria ser construído o mais fortemente possível, com a mais dura das madeiras para resistir à decomposição da condensação. Com isso, os imensos terrários tiveram início. Em julho de 1833, Ward conduziu seu primeiro grande experimento enviando duas caixas personalizadas com uma série de samambaias e gramíneas nativas das ilhas britânicas para Sydney, Austrália. Depois de seis meses em alto mar, os terrários chegaram ao porto de Sydney com todas as plantas vivas e prosperando.

Fazendo outros experimentos, viu que isso acontecia sempre, e suas Garrafas Wardianas viraram uma sensação, mas, mais do que isso, foram uma mão na roda para transportar vários exemplares de plantas de diferentes locais para outros lugares, cada vez mais longe, sem haver perdas, ou quase. Ward escreveu sobre suas observações no trabalho On the Growth of Plants in Closely Glazed Cases.

Alguns casos em que as Garrafas Wardianas foram usadas foi quando Robert Fortune fez uso desta técnica para transportar 20.000 plantas de chá de Xangai para a região de Assã, na Índia, onde, até hoje, grande parte do melhor chá do mundo é produzido, e as bananas Cavendish foram parar em Fiji. Entretanto, o mais notório uso foi quando os ingleses deram um balão no Brasil.

O auge do que chamamos Ciclo da Borracha se deu entre 1879 e 1912. O montante de dinheiro que a borracha dava impulsionou o desenvolvimento da região Norte do Brasil. Cidades como Manaus, Belém, Porto Velho entre outras se tornaram importantes polo comerciais, o que ajudou a levar mais pessoas para aquela região desabitada. Não apenas isso, o Ciclo da Borracha fez com que o Brasil tivesse a brilhante ideia de comprar uma certa região da Bolívia. Esta região virou um território brasileiro e hoje é uma unidade da federação: o Acre.

O poderio econômico trazido pela borracha tratou de facilitar a aprovação de uma lei proibindo terminantemente que se comercializasse mudas ou sementes de seringueira, podendo até mesmo uma eventual condenação seríssima, pior que homicídio, como qualquer um que usa torrent sabe, piratear e coçar, é só clicar no Magnet Link.

No referido caso, o clicador foi Henry Alexander Wickham, um botânico falido, na beira da miséria, que correu o mundo aos 20 anos quando o pai morreu e ele ficou na penúria. Depois de muitos percalços, contraindo malária várias vezes a ponto de quase bater as botas, Wickham perdeu toda a família, mas estava disposto a enriquecer. A essa altura, ele já sabia trabalhar com seringueiras, conhecia bem a região, conhecia as plantas e as épocas de extração do látex e como acondicionar as sementes e foi para Santarém, no Pará.

Lá ele dá um balão na alfândega mostrando um cesto devidamente preparado para esconder as sementes, acondicionadas de forma que não mofassem ou apodrecessem. Falou que ele ia levar mudas para o Jardim Botânico da Rainha Vitória. Conhecendo vem o brasileiro, deve ter rolado uma propininha responsa. Pelo sim, pelo não, ele conseguiu contrabandear 70 mil sementes de Hevea brasiliensis, levando-as para o Jardim Botânico de Kew. Mas isso não deu nada a ele a mais que 700 libras. Muito pouco. A esposa o abandona, ele vira um pária por todo mundo e só depois de mais de 30 anos depois, as mudas oriundas das sementes trazidas por Wickham e levadas até as colônias asiáticas por meio da técnica das garrafas wardianas, tinham se transformado em árvores plenas e começaram a prover muita borracha, fazendo a Inglaterra competir de igual pra igual com o Brasil, cujo plantio era inexistente. Os seringueiros colhiam o látex de árvores nativas, nunca tendo feito um esforço maior para produção em maior escala para que não diminuísse o preço.

Pelo que ficou conhecido como o primeiro ato de biopirataria, a Coroa da Inglaterra concede a Wickham o título de cavaleiro, e o Brasil começou a ter o declínio do comércio da borracha. Com o advento da Segunda Guerra Mundial, houve mais apelo por borracha e o Brasil começou a exportar muitas toneladas dela, mas isso durou até 1945. Quando criaram a primeira borracha sintética financeiramente viável, a borracha natural tomou o golpe final.

Para finalizar, temos o caso de um engenheiro eletricista chamado David Latimer. Em 1960, ele quis fazer um experimento. Pegou um imenso garrafão de vidro, adicionou certa quantidade de terra, adubo, três mudas de tradescantia e cerca de 120 ml de água.

Duas das mudas morreram, mas a terceira sobreviveu, e o sistema fechado permaneceu se desenvolvendo até que, em 1972, Latimer abrisse a garrafa, adicionasse mais água, e voltasse a fechar e selar a tampa, e assim o pequeno jardim pessoal de Latimer prossegue.

Nada mal para uma técnica que funciona há bilhões de anos e que funciona até hoje.

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