Analisando séries e filmes de super-heróis III

A maravilhosa mulher e os verdadeiros vilões


Mulher Maravilha do Perez é a melhor Mulher Maravilha.
Quem discorda está a serviço de Ares

Saiu o Mulher Maravilha 1984, mas antes de falarmos sobre o que é o filme (assunto esse que larga maioria não conseguiu deduzir pelo filme, apesar de ser bem explicado), vamos dar uma repassada na Diana, a Mulher Maravilha. É uma personagem criada por um psicólogo com duas fixações: a verdade e fetichismo.

William Moulton Marston foi o criador de duas coisas excepcionais: o polígrafo, ou detector de mentiras, e a Mulher Maravilha. A própria Mulher Maravilha trazia as duas coisas que mais lhe interessavam. Não é à toa que seu laço mágico obriga as pessoas a dizerem a verdade e todas as publicações em seu início traziam referências não muito discretas a dominação e BDSM.

Algumas edições vinham com algumas artes para lá de… cahan… sugestivas:


Às vezes, um torpedo é só um torpedo. Às vezes…

Como todo personagem ao longo do tempo, a Mulher Maravilha evoluiu. Antes, ela segue o mito do Deus Oleiro. Ela é esculpida no barro sagrado pelas ordens da deusa Atena, usando uma técnica antiga ensinada a Hipólita, a Rainha das Amazonas.

Depois em outra edição, é usada esta mesma origem.

Sendo que atualmente ela é tida como filha do próprio Zeus, Rei dos Deuses. O que antes a fazia uma criação especial (assim como as amazonas o são), ela é uma semideusa, com mais poderes do que super-força e ficar à mercê de outras mulheres. Quando muito, era secretária da Liga, e costureira nas horas vagas.

Com o tempo, ela começa a crescer e se torna uma da Santíssima Trindade da DC, ao lado do Batman e do Super-Homem. Fizeram um piloto de série com ela que ficou tão ruim que não foi pra frente, depois fizeram a série com a Lynda Carter, combatendo nazistas e depois As Novas Aventuras da Mulher Maravilha, onde ela combate vilões de quinta categoria entre um pulo e outro. Não, ela não voa ali, mas tem um jato invisível.

Sim, era ruim desse jeito, mas era o que se tinha na década de 70 e a gente curtia mesmo assim. Claro, hoje temos produções melhores, mas continuam reclamando. Vou pular o filme Wonder Woman de 2017 e ir logo para o Mulher Maravilha 1984, o filme que saiu recentemente nos cinemas e em streaming., que muita gente falou mal. O problema é que, segundo percebi, não entenderam o filme, sobre o que era o filme e quais os verdadeiros vilões do filme.

O roteiro do filme é da Patty Jenkins com o Geoff Johns e ele é um excelente autor de quadrinhos, entendendo profundamente os personagens e sabe como desenvolver uma história. Ele é o argumentista de Doomsday Clock, uma série que dá mais uma ajustada na timeline do universo DC, o tipo de coisa que a Marvel nunca fez e por isso temos aquela zona de cronologia dos X-Men, mas vou pular sobre o Doomsday Clock. Leiam, vocês vão gostar. Eu acho. Eu gostei.

Enquanto o Snyder faz roteiros muito preocupado com crises existenciais dos personagens, algo que parece obras da Marvel, com um gênio da Ciência que vive na pindaíba e sobrevive tirando fotos para um jornaleco de quinta categoria, Johns trata os personagens da DC como são os personagens da DC: super-heróis. E nada mais super-herói do que agir feito super-herói.

A maravilha do filme é o prólogo, com Diana falando em off sobre lições de aprendizado que ela não deu importância quando era criança, enquanto as imagens são dela ainda uma menininha marrenta participando do que eu chamei de Jogos Themiscylímpicos. Logo no início, Antíope lhe diz “Grandeza não é o que você pensa que é”, e claro, a menina não lhe deu bola.

Só que pareceu que há um probleminha com o primeiro filme: Hipólita que sempre a protegeu de mostrar seus poderes com medo que Ares a encontrasse, aqui parece que Hipólita está confortável que ela participe dos jogos, no máximo apresentando aquela expressão de preocupação que toda mãe tem quando um filho vai participar de algo que possa se machucar (e isso vale para uma garota praticamente indestrutível, filha do maior dos deuses).

Durante a prova, Diana cai do cavalo (figurativa e literalmente) e fica para trás, mas trapaceia pegando um atalho, chegando na frente das outras competidoras; só que Antíope não a deixa prosseguir na última prova, impedindo-a de ganhar. A menina surta e aí vem a lição que explica o filme todo:

– Você trapaceou, Diana! (…) Essa é a verdade. É a verdade absoluta, e a única verdade possível.

– Mas eu ganharia, se você…

– Mas você não ganhou! Não pode ser uma vencedora, porque não está pronta para vencer e não há nenhuma vergonha nisso. Apenas conheça a verdade em seu coração e não apenas a aceite. Nenhum herói de verdade nasce de mentiras.

Mentira. Aqui será toda a chave do filme!

O filme corta para o ano de 1984. Ele segue o padrão do tipo de filmagem, cores e estilo. O que muitos reclamaram foi proposital. As pessoas que dizem ser saudosistas dos anos 80 efetivamente não viveram os anos 80. Era uma época de preocupação com uma possível guerra entre EUA e URSS? Até sim, mas ainda havia o otimismo, como em filmes do John Hughes. O filme, a direção e a fotografia parecem uma homenagem a ele e outros diretores, como Richard Donner, e isso porque, quando corta para o ano de 1984, mostra-se várias situações, com pessoas roubando lojas e rindo, dando um solavanco numa noiva que quase se acidenta caindo da ponte e é salva por uma corda. Um racha entre dois carros quase atropela uma pedestre, mas um chute providencial faz com que o carro desvie. É a Mulher Maravilha sendo rápida sem ninguém perceber. Uma super-heroína fazendo o mais básico de um super-herói, não apenas combatendo vilões perigosíssimos, mas salvando pessoas comuns de acidentes comuns, alguém na hora certa fazendo o que é certo. É a pura síntese do filme de super-herói que sentíamos falta e muitos não souberam dar valor. Não há complexidade, não há uma incrível trama digna de James Bond. São apenas pessoas sendo salvas, o que leva para o assalto no shopping em que uma garotinha fica em perigo e é salva, e assaltantes vagabundos são presos. Isso não exerce qualquer função real no filme, é apenas uma demonstração de caráter e que a Mulher Maravilha é uma heroína ocupada no seu dia-a-dia. É uma sequência que lembra os melhores gibis formatinhos, sem precisar ser uma grande saga ou graphic novel. Apenas alguém salvando o dia.

Então, partimos para quem acham que é o vilão do filme: Max Lord. O nome dele nem é esse. Ele encontra uma pedra mística que Diana identifica ter uma inscrição que é a língua dos deuses. Este cristal tem o poder de fazer ser real qualquer desejo que a pessoa tenha. O desejo da Mulher Maravilha? Ter o momô Steve Trevor de volta… e ele aparece, embora não seja ele, mas já falarei sobre isso.

Max Lord consegue tudo o que sempre sonhou, mas isso tem um preço: a degradação de seu próprio corpo, mas ele quer mais e faz com que as pessoas façam mais e mais desejos, inclusive Barbara Minerva, que vai se tornar a Mulher Leopardo, na sua própria corrupção, se não do corpo, de sua moral. E não, ela também não é vilã do filme. Nem mesmo Max Lord é. Ele é uma vítima! Uma vítima de violência doméstica que cresceu pobre, sofreu bullying de outras crianças por causa disso, e cresceu achando que a saída para sua vida era o sucesso, a fama e a fortuna. Ele caiu no mais antigo estratagema, mas não foi o diabo e sim um deus: Dechalafrea Ero.

Dechalafrea Ero nos quadrinhos é um deus menor, inimigo da Mulher Maravilha. Servo de Ares, Deus da Guerra, ele é o Duque do Engodo, Senhor da Enganação. Ele seria como um Loki da DC. Criado já no segundo número de Mulher Maravilha e criado pelo próprio Moulton Marston, Dechalafrea Ero ajudava Ares em seus esquemas para corromper o espírito da humanidade, espalhando desinformação, confundindo, se fazendo passar por outras pessoas a fim de colocar amigos uns contra os outros ou tomar posse de súditos involuntários para estimular o conflito e alimentar Ares, que precisa de guerras para ganhar força e manter seus poderes. O Loki da Marvel é o irmão de Thor (adotivo) baseado na mitologia nórdica, já Dechalafrea foi criação original de Marston, mesmo, mas muito dificilmente um foi inspirado no outro.

Dechalafrea volta em Mulher Maravilha #104 no Universo da Terra Um, mas foi limado da existência durante os eventos da Crise nas infinitas Terras.


“Deception” não significa “decepção”.
Cuidado com os falsos cognatos!

No filme, assim como todos os deuses, Dechalafrea Ero já não existia mais, mediante os acontecimentos narrados no primeiro filme da Mulher Maravilha, e ele pode muito bem ter sido morto na guerra entre os deuses (ou ainda existir e estar escondido. Vai saber!), mas não importa. O mal já estava feito e o gênio saiu da garrafa, entrando em cena os verdadeiros vilões do filme: nós mesmos. A nossa ganância, nossa raiva intrínseca, nossa vontade de ter mais e mais, nosso desejo de vingança, em que até Diana sofreu isso ao pensar que teve de volta Steve Trevor, só que era uma enganação. Assim como cada pessoa pagou um preço pelos seus desejos, Diana também pagou ao ir perdendo seus poderes, e isso sem ter Steve Trevor de volta. O que aconteceu é que a mente, a personalidade de Trevor acabaram em outra pessoa. Não era o verdadeiro Trevor ali e sim alguém escravizado e obrigado a pensar e agir como Steve. Tanto que quando ele se olha no espelho, vê o verdadeiro corpo. Só Diana enxerga Steve Trevor ali, mas é a magia da Pedra, a enganação de Dechalafrea Ero.

Muitos não reconheceram, mas esta cena é um easter egg, uma homenagem ao antigo seriado da Mulher Maravilha, já que acharam um ator bem semelhante ao Lyle Waggoner, ator que interpretava Steve Trevor no seriado.

Quando alguém me fala que não gostou de um filme, eu pergunto sobre o que era o enredo deste filme. Normalmente, não sabem. O enredo de MM 1984 é sobre mentira e como nenhum (NENHUM) herói nasce de mentiras, é um filme sobre o poder da renúncia a algo que se quer muito afim de poupar a si e aos outros de sofrimento. Isso vale pra Diana também, que provou um pouco da humanidade que ela buscava, assim como em Superman 2 o Super-Homem achou que podia se livrar de seus poderes para, enfim, ficar com a Lois, pagando um preço caro e quase causando a morte de muitas pessoas pelas mãos de Zod, até ele entender que ele É um super-herói e precisa agir feito um super-herói. Diana entende isso quando renuncia ao seu desejo e precisa fazer todas as pessoas do mundo entenderem isso. Mundo esse indo pro caos, para a barbárie, para a guerra, simplesmente porque as pessoas não pedem algo como a paz mundial, mas ser rico, que desafetos morram, se tornar reis e chega até ao presidente, que não é o presidente de fato, o sujeito se surpreende por estar no salão oval e há a menção direta ao projeto Guerra nas Estrelas. O presidente dos EUA, de fato, é Reagan e ali temos uma severa crítica à corrida armamentista. Sim, saímos dos anos 80 otimista de John Hughes e caímos no pesadelo do filme The Day After.

Alguns ainda fizeram cara de “ué” por ela ser capaz de voar (o que está nos quadrinhos) e ser capaz de laçar relâmpagos. Como assim laçar relâmpagos? Bem, primeiro, ela é filha de Zeus, o próprio Deus dos Raios e Trovões. Em segundo, é canônico, ela é uma deusa capaz de viajar em raios e manipulá-los.

Você pode não gostar, mas aí é um problema seu, pois se está de acordo com o que a personagem faz nos quadrinhos, então está sendo fiel à personagem; o que, por sinal, foi referenciado no primeiro filme. Parece que pessoal ou não presta atenção ou quer reclamar.

MM84 é um filme sobre como nos colocamos à beira da extinção várias vezes por causa de desejos irrefreados de poder, da ganância, pela procura de dinheiro. Não foi Max Lord ou Dechalafrea Ero quem causou isso, assim como a Tramontina não é responsável se você esfaquear alguém. Dechalafrea apenas enganou (indiretamente) Lord para que ele fosse a ferramenta que iria disseminar o caos, mas a decisão foi de cada pessoa; Dechalafrea apenas colocou a faca em cima da mesa, o que as pessoas decidiriam fazer com elas dependeria de cada uma. Cada pessoa, seja um simples cidadão ou um líder de um país, tem responsabilidades para com seus anseios e Diana é o ponto que saiu do equilíbrio, pois ela mesma se recusou a ver a Verdade: não era Steve Trevor, quando ela mesma diz que o poder do Laço de Héstia é a verdade e é a verdade que dá o poder e faz Diana ser a Mulher Maravilha. A mentira deu o poder à Mulher Leopardo, o poder que roubou de Diana, mas enquanto Diana ainda manteve a sua humanidade, Bárbara perdera a sua, e ela mesma critica Diana o que de importante ela perdera. Poder, sim. Tão atraente para as pessoas comuns.

A salvação de todos foi o entendimento que nem sempre querer é poder. Sempre há um preço a pagar, às vezes pequeno, às vezes alto demais. A saída foi renunciar aos desejos, o que é um esforço hercúleo, pois nós somos escravos deles e é preciso muita força de vontade para parar e decidir que isso nos faz mal, mas Max Lord, por amor ao filho, encontrou sua redenção e renunciou ao seu desejo, assim como todas as pessoas da Terra. Pareceu simples, mas é um filme, uma aspiração de que podemos, sim, mudar.

Como dito, tudo isso foi explicado no prólogo do filme e a lição dada a ela quando criança passou batida, coisa que a narração em off reconhece, pois ela apesar do seu poder era apenas uma menina e apenas nossas experiências pessoais constroem nosso caráter, nosso modo de agir, a nós mesmos.

Mulher Maravilha não tem um enredo simples. Parece que sim, mas é mais profundo, pois toca fundo nos nossos principais anseios, no que é mais baixo no ser humano e como falei antes, os personagens da DC são deuses buscando serem humanos, mas devem ter a responsabilidade que jamais poderão ter uma vida normal, e isso que é trágico neles, como em qualquer narrativa da Antiguidade, como nas peças de Sófocles. Geoff Johns mostrou que é um magnífico roteirista, mas requereu pensar, e pra geração youtube, com visualização de apenas 3 minutos em média, sem capacidade de entender nuances, o que é uma pena, por isso, as grandes sagas e graphic novels estão acabando, dando lugar a dar mais importância meninos se beijando (coisa que já aconteceu na década de 90, quando Estrela Polar se casou, o primeiro casamento gay dos quadrinhos). Se não for muito explícito, não serve, ou você viu alguém comentar que a campeã dos jogos Themiscylímpicos foi uma amazona negra? Pois é.

Por isso, muitos detestaram, mas a grande maioria adorou. Tanto que a Warner está rindo de orelha a orelha, pois em dois dias foram 554 mil assinantes novos no serviço de streaming HBO Max. Acho que eles curtiram o filme.

Para finalizar: destaque para a cena extra com a Lynda Carter fazendo uma ponta Asteria, tida como a maior guerreira entre as amazonas. Ela realmente mereceu a homenagem. Não é uma excelente série para os dias atuais, mas era o máximo quando eu era criança. Não havia grandes e terríveis vilões. Era apenas uma heroína fazendo a coisa certa e inspirando outros a agirem assim.

4 comentários em “Analisando séries e filmes de super-heróis III

  1. Parece ser ótimo. Simples mas profundo. Sobre o beijo, é olhar um beijo gay, ter alguma “reação” rápida e depois sair vociferando como se não tivesse acontecido nada no processo. Ou então fazer uma militância básica como se dez ou quinze segundos fosse alguma conquista.

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