Grandes Nomes da Ciência: Frances Glessner Lee

Os investigadores olham a cena. Algo está errado. Eles se detêm nos detalhes. Sim, algo está muito estranho. Sim, a vítima se matou, é o que tudo indica… mas tem algo errado! Por que alguém que cometeria suicídio teria feito um bolo pouco antes? Não, não faz sentido. Os investigadores chegaram à conclusão: assassinato. A perpetradora foi uma senhora, uma senhora de olhos doces e rechonchudinha como a Dona Benta. Uma senhora que cometeu vários assassinatos de todos os tipos, desde facadas até tiros, envenenamento, enforcamento e asfixia.

A tia era uma máquina de bolar as mais cruéis mortes, sendo mestra em disfarçar os assassinatos, dando trabalho para investigadores, brincando com o poder de dedução deles usando seus conjuntos de casas de bonecas. Sim, isso mesmo que você leu: casinhas de bonecas.

Frances Glessner é uma referência na Ciência Forense dos EUA. Filha de um industrial podre de rico chamado John Jacob Glessner, Frances nasceu em 25 de março de 1878, em Chicago, mas se mudaram em 1888, já que seu irmão mais velho, George Glessner vivia doente. No diário da mãe de Frances – que também se chamava Frances – Fanny, como a menina era conhecida, era descrita como uma menina encantadora, inteligente e precoce. Fanny era ensinada em casa como seu irmão George, com os melhores professores que o dinheiro podia pagar.

Entre 1896 e 1897, Fanny ficou viajando pela Europa com a irmã de sua mãe, Helen Macbeth. Quando voltou, foi apresentada à sociedade, numa suntuosa festa em novembro de 1897. Em 9 de fevereiro de 1898, Fanny se casou com o jovem advogado Blewett Harrison Lee, passando a assinar Frances Glessner Lee, tendo três filhos: John Glessner Lee, Frances Lee e Martha Lee. Isso poderia ser uma historinha de família Doriana, mas o mundo real não é um conto de fadas e Fanny e Blewett se divorciaram em 1914.

Como dito, Fanny e o irmão foram educados em casa. Tempo passou e o irmão foi para Harvard, mas papai John Jacob Glessner não deixou que Frances fosse para a universidade, mesmo levando em conta que Catherine Brewer tendo sido a primeira mulher a obter um diploma universitário em 16 de julho de 1840 e Helen Magill conseguido seu doutorado em Estudos Gregos em 1877, um ano antes de Frances ter nascido. Infelizmente, papai Jacob era um tosco que achava que a filhinha dele tinha que ficar em casa e ser fábrica de bebês. Estando em casa sem fazer nada, Fanny desenvolveu gosto por duas coisas: criar dioramas e assassinatos.

Dioramas são representações tridimensionais. Seria como uma maquete, mas muito mais realista, seja de paisagens ou construções. Desde sempre, dioramas eram usados não só como peça decorativa, mas instrucional também.

Fanny começou a desenvolver interesse por Ciência Forense quando o colega de faculdade de seu irmão, George Burgess Magrath, passou férias com a família Glessner em sua casa de verão nas Montanhas Brancas de New Hampshire. Magrath, então estudante de medicina, passou a ensinar Medicina Legal em Harvard e se tornar o médico legista-chefe do Condado de Suffolk, em Boston.

Frances era aficionada pelas histórias de Sherlock Holmes e em como pequenos detalhes podiam mudar a direção da investigação e apontar o culpado. Então, ela pensou “e seu eu puder ajudar o pessoal, treinando seu poder de observação e dedução?”. Em 1931, Frances Glessner Lee ajudou a estabelecer o Departamento de Medicina Legal em Harvard, o único programa desse tipo existente nos Estados Unidos. Em 1934, ela apresentou ao departamento uma coleção de livros e manuscritos, que se tornou a Biblioteca Magrath de Medicina Legal, e em 1936 concedeu ao departamento um presente de US$ 250.000 (ou US$ 4.678.972,82, a dinheiro de hoje).

Além da Biblioteca George Burgess Magrath, Frances montou uma cadeira de Medicina Legal e Seminários de Harvard em Investigação de Homicídios, tendo presidido os respectivos seminários, sendo a única mulher entre cerca 40 homens, dando banquetes no Ritz Carleton para os detetives e examinadores participantes, supervisionando pessoalmente menus elaborados, arranjos florais e mesas.


Seminário sobre homicídios. 1952

Apesar da sociedade não ser assim tão à favor da liberação feminina, dinheiro é dinheiro, e isso garantiu que Frances começasse a trabalhar com o departamento de polícia de New Hampshire, tornando-se a primeira mulher no país a alcançar o posto de capitão da polícia. Aos 65 anos, ela começou a fabricar suas casas de bonecas, que seria seu legado mais duradouro.

Para facilitar o aprendizado dos investigadores, Frances Glessner Lee criou o Nutshell Studies of Unexplicained Death, 20 dioramas de cenas de crime recriados em mínimos detalhes em escala 1:12, usados ??para treinar investigadores de homicídios, como macabras casas de bonecas, mas aquilo não era divertimento de uma criança psicopata. Era trabalho!

Cada investigador tinha 90 minutos para examinar todos os detalhes do diorama e concluir o que aconteceu. Sabem a descrição do parágrafo que abre o artigo? Taqui a cena:


Não tem nada de errado, não?

Os dioramas eram trabalhosos de tão detalhistas, representando diferentes crimes, principalmente os que envolviam prostitutas e violência doméstica. Cada um deles custou entre 3 a 4,5 mil dólares (da época), levando cerca de um ano (cada um!) para ficar prontos. Era preciso tempo e dinheiro para serem feitos; por sorte, Frances tinha os dois.

O nível de detalhes era assombroso, com janelas que podiam ser abertas e fechadas, os abajures acendiam (ou não, dependendo do que a cena queria retratar), papéis de paredes descascando, lençóis rasgados, chão arranhado, sapatos gastos, garrafas com rolhas caídas ao lado, roupas remendadas etc. Não era a descrição dos crimes ocorrendo em mansões e casas de campo da alta sociedade, como nos livros da Agatha Christie.

As Nutshell Studies se tornaram uma referência didática e perfeita de situações que os investigadores poderiam trabalhar. Até mesmo as revistas e jornais colocados no cenário eram baseados em publicações verdadeiras, tendo cabeçalhos e parágrafos de notícias, num trabalho de artesão de primeira linha.

Eram cenas reais, retratando crimes reais, que nem sempre estavam disponíveis para serem estudadas no mundo real, sendo a maioria das vítimas mulheres, sendo tanto donas de casa vítimas de violência doméstica como prostitutas.


Suicídio, certo?


Tem certeza?

Ninguém estava livre dos crimes. Nem mesmo bebês.

Sim, eu sei que muitos vão reclamar “mas e os homens”. Sim, eles também eram retratados como vítimas. Alguns parecendo suicídio, mas as aparências enganam.


Não era mais fácil ter se suicidado se jogando de cima?

Não, ninguém estava livre da criatividade assassina bem direcionada de Mrs Lee, cujo trabalho ainda existe. Dezoito dos casos abordados no Nutsfhell Studies ainda são usados para fins de ensino pelo escritório do médico legista em Maryland, e os dioramas também são agora considerados obras de arte.

Frances Glessner Lee, um dos Grandes Nomes da Ciência, é tida como Mãe da Ciência Forense dos EUA e deixou um imenso legado. Ela faleceu em 27 de janeiro de 1962, em Bethlehem, New Hampshire, mas seu perfeccionismo e atenção aos detalhes perduram até hoje, tendo ensinado muitos investigadores e ainda hoje servem como inspiração e estudo.

Então, meu caro criminoso, você pode achar que está livre da Lei, mas em algum lugar, alguém está vendo uma casinha de bonecas e sabe o que você fez, e como você fez. Você pode fugir, mas uma senhora que fazia bonecas deixou as pistas para lhe pegarem.

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