Grandes Nomes da Ciência: David Hahn, o Escoteiro Radioativo

A polícia foi chamada. Os Homens de Azul receberam um alerta e foram investigar um caso de roubo. Ao chegarem perto do automóvel, foram instados em tom de alarme para não chegarem perto. Ao abrirem o porta-mala, o que viram os deixou estupefatos. Não era um corpo, ou mesmo um alien. Era um… reator nuclear! E com níveis alarmantes de radioatividade; e foi aí que se soube da história de um escoteiro com ideias avançadas demais, e noção de menos.

Esta é a história do Escoteiro Radioativo.

David Charles Hahn nasceu em Clinton Township, no Condado de Macomb, Michigan, em 30 de outubro de 1976. Ele era uma criança inteligente, ativa e curiosa. Sua curiosidade era maior que a esperteza, pois ele queria investigar coisas, sem parar para se preocupar se era seguro ou não. Ele adorava ciência e, em especial, Química, e esse amor começou aos 10 anos, quando o seu avô deu a ele o livro The Golden Book of Chemistry, para ajudar a mantê-lo ocupado no fim de semana e alimentar seu amor pela ciência.

Hahn estava obcecado com a Química, devorando enciclopédias, livros didáticos e conjuntos de Química, tentando aprender ao máximo tudo o que se podia saber sobre Química. Só que a Química é ardilosa, principalmente para aqueles que não se preocupam com sua própria segurança; começando com avisos simples, às vezes. Isso pode ser deduzido quando David apareceu uma vez em uma reunião de escoteiros com um rosto laranja brilhante causado por uma overdose de cantaxantina. A intenção dele era descobrir uma substância para servir de bronzeamento artificial.


não tão laranja assim!

Foi responsabilizado por fazer um imenso buraco na parede de uma tenda de escoteiros depois de acidentalmente acender um estoque de magnésio em pó que trouxera consigo, e os coleguinhas toscos acharam que seria bem legal acender.

Os pais de David frequentemente ouviam pequenas explosões vindas de seu quarto. Esse era o momento para os pais darem um fim nisso, mas papai e mamãe não queriam perder tempo educando o filho, daí apelaram para uma forma educacional mais fácil: Mandaram David e seus trecos para o porão. O que poderia dar errado?

Certa noite, enquanto o pai e a madrasta de David estavam sentados na sala, assistindo TV, ouviram um KABUM daqueles, devido a uma violenta explosão em seu laboratório, causando danos significativos no porão, e a própria casa fora abalada. Ao correrem para lá, os pais de David o encontraram deitado semiconsciente no chão, com suas sobrancelhas ainda fumegando, segundo o relato. David não conhecia as propriedades do fósforo vermelho e ficou batendo nele com uma chave de fenda para saber o que acontecia. Isso fez com que o fósforo vermelho acendesse, reagindo com o ar, e liberando grande quantidade de energia. David foi levado às pressas para o hospital com as mãos machucadas e cacos de vidro ao redor de seus olhos. Não, ele não estava usando óculos de proteção, e sim, ele deu MUITA sorte!

Era para ter aprendido algo com isso, certo? Qual nada! Mais uma vez, os pais não quiseram saber e disseram para ele ralar peito pro barracão atrás da casa. Sim, houve uma bela explosão no porão, mas beleza, pode continuar aí, filhão, mas não aqui. Chispa!

Aos 14 anos, David era escoteiro e fazia parte da Tropa 371, alçando o posto de Eagle Scout, a maior conquista ou classificação alcançável dos Escoteiros da América. Apenas 4% dos escoteiros recebem esta honraria após um longo processo de revisão.


Sempre alerta! Outros deveriam ter seguido este lema

Não apenas isso, David Hahn ganhou um Emblema de Mérito de Energia Atômica em 10 de maio de 1991, cinco meses antes de seu décimo quinto aniversário. Em sua pesquisa, David fez diagramas mostrando como a fissão nuclear ocorre, visitou uma unidade de radiologia hospitalar para aprender sobre os usos médicos de radioisótopos e construiu um modelo de reator nuclear usando uma lata de suco, cabides, canudinhos, palitos de fósforos e elásticos. Obviamente, era apenas um modelo, e como tal a geringonça não funcionava realmente, mas todo mundo achou o máximo! Sendo assim, ninguém poderia ser responsabilizado por sequer imaginar que, ao escrever seu trabalho sobre fissão nuclear e energia nuclear, David teria uma ideia totalmente louca: construir seu próprio aparato nuclear funcional.

Sim, eu sei. Você está rindo à beça. Ou está com cara de “Mas hein?”. Mas quando sabemos os detalhes, vemos os perigos que podem advir de alguém muito inteligente, mesmo bem-intencionado, e agradecer pelos mal-intencionados serem, na maioria, estúpidos.

Mas não. David Hahn não passou da curiosidade para um reator funcional. Houve passos a serem seguidos, a pura evolução tecnológica, aplicando método científico de análise, observação, reprodução, falha, nova tentativa, elaboração de hipóteses, teste de novo… isso é realmente fascinante e deveria ser estudado (ainda que não incentivado desta maneira). Do ponto de vista técnico, Hahn não precisava desbravar nenhuma fronteira. Tudo o que ele precisava já tinha sido escrito desde a década de 1940. O problema era a parte operacional: fazer funcionar e em escala reduzida.

Só abrindo um parêntese: esta foi uma das críticas apontadas por Tom Clancy (A Sombra de Todos os Medos) e Frederick Forsyth (O Punho de Deus), que, apesar de novelistas, faziam pesquisas para compor seus romances. Eles apontaram que em qualquer biblioteca tinha o necessário, em termos e informações, para se fazer um aparato nuclear, mesmo que fosse uma bomba. Era uma questão apenas de ter os materiais e trabalhá-los. Fecha parênteses.

David começou a fazer experimentos, e chegou mesmo (segundo fontes oficiais) a produzir uma “arma de nêutrons”. Motivos? É exatamente os nêutrons os principais (mas não únicos) agentes que iniciam uma fissão nuclear.

Fissão nuclear ocorre quando núcleos pesados se quebram dando origem a núcleos mais leves. isso gera mais nêutrons, os quais são chutados pra fora do núcleo e atingem outros núcleos, continuando o processo.

A ideia de David, então, era construir uma máquina que emitisse nêutrons e pudesse bombardear núcleos e ter sua tão amada fissão nuclear. Ele chegou a fazer um dispositivo nuclear gerador capaz de produzir mais material físsil. Era uma técnica interessante como as centrífugas de separação, mas isso foi deixado de lado quando se descobriu jazidas de minérios com propriedades radioativas que são menos dispendiosas do que produzir mais material físsil, posto que David era muito bom, mas ainda não conseguia subverter a Segunda Lei da Termodinâmica.

O que David estava querendo fazer era um reator de regeneração. Um reator que usa material físsil para gerar calor e, com isso, tendo outros materiais físseis como subproduto. Lembrando que um reator nuclear para geração de eletricidade é efetivamente uma máquina a vapor, com o calor usado para transformar a água em vapor, o qual será usado para mover turbinas. Este calor era liberado mediante o bombardeio de núcleos radioativos de forma controlada. Quando não é controlado, a energia é liberada toda de uma vez, virando:

Tudo muito bom, no papel é lindo e coisa e tal. Como um moleque de 14 anos consegue material radioativo? A resposta é assustadoramente simples: Em produtos domésticos. Ah, entendo. Você acha que isso é absurdo, não é mesmo? Mas foi aí que a pesquisa aprofundada de David lhe deu condições de saber como e onde conseguir esse material.

Por exemplo, David descobriu que detectores de fumaça domésticos continham (ainda que em pequenas quantidades) o isótopo amerício-241 como parte do mecanismo que detecta a fumaça, o que ele não sabia era em que parte do aparelho o amerício-241 estava localizado, então ele escreveu para uma empresa chamada BRK Electronics em Aurora, no estado norte-americano do Illinois. A atendente ficou muito feliz em lhe dizer. O dispositivo, na verdade, tinha pouco amerício-241; além disso, ele ficava encerrado numa cápsula de ouro. David resolveu facilmente o problema: meteu o maçarico, escorreu o ouro e ficou com o amerício.

David fingia ser professor universitário e metia uma engenharia social de fazer inveja a qualquer trambiqueiro. Primeiro, ele ligou para a Comissão Reguladora Nuclear e eles o orientaram no processo de como construir vários componentes de um reator, além de dizer a ele como isolar material radioativo e até mesmo deu suculentas informações sobre preços e fontes comerciais de alguns dos produtos radioativos. Sim, segurança zero. Bastou alguém telefonar, mesmo com voz de moleque, que conseguiu todas as informações vindas de fonte oficial.

Nosso Escoteiro Radioativo partiu para conseguir os componentes. Ele contatou empresas de detectores de fumaça e afirmou que precisava de muitos dispositivos para um projeto escolar, ainda com aquela carteirada de professor. Por que as empresas não venderiam esses equipamentos para ele, não é mesmo?

Depois que David incinerou o núcleo e isolou o amerício, colocou-o num bloco oco de chumbo com um minúsculo buraco em um dos lados. Sabem aqueles diagramas em livros didáticos mostrando o experimento de Rutherford? Exatamente aquilo, só que usou amerício ao invés de polônio.

Pelo orifício, tal como no experimento de Rutherford, saíam partículas alfa, mas não era isso que David queria. Ele queria nêutrons. Para tanto, colocou uma folha de alumínio na frente da saída e isso impedia que as partículas alfas (que são núcleos de hélio) saíssem, mas não os nêutrons. Mas isso acarreta outro problema: nêutrons não são detectados por um contador Geiger. Voltando a pesquisar, David descobriu que parafina, ao ser bombardeada com nêutrons, libera prótons. Ele apontou seu canhão alfa e mediu a parafina com contador Geiger e voilà! Olha os prótons ali.

Não basta ter um emissor de nêutrons, tem que ter algo pra bombardear. Claro, a escolha era urânio-235, mas o bom mesmo seria urânio-238. Sendo assim, david saiu para catar alguns minérios à base de urânio. Ele até conseguiu arrumar os minérios. O problema foi purificá-los e a separação deu muitos problemas. Não, urânio não rolou. O que se podia usar no lugar?

Mais um vez, a pesquisa de David veio a calhar. O melhor candidato seria o tório que, ao ser bombardeado com nêutrons, produz urânio-233. Um emissor de nêutrons nosso Escoteiro Radioativo já tinha. Para obter o isótopo radioativo tório-232, David lembrou-se de um fato que aprendera como um escoteiro: o manto de lanternas a gás contém vestígios do material radioativo.

As antigas lâmpadas a gás tinham uma espécie de “rede” ou “manto” feita com óxido de tório para encerrar a chama lá dentro. Esta substância era usada porque poderia se aquecer sem se decompor, já que o ponto de fusão da substância era bem alto. No entanto, com o uso constante, o manto torna-se extremamente frágil e pulveriza-se numa cinza fina facilmente de ser inalada ou ingerida e extremamente tóxica. O tório é um emissor alfa natural com o lindo potencial de causar tumores no pulmão.

Não seria um simples risco de câncer no pulmão que iria parar David. Dessa forma, ele comprou milhares de mantos de lanterna em lojas de excedentes militares (coisa que tem muito nos EUA). Usou um potente maçarico para reduzir tudo a uma pilha de cinzas. Faltava agora purificar o sal para se obter o metal. De novo pro livro de Química, David viu que tinha um elemento que ADORAAAAAAAAVA oxigênio: Lítio. Comprou o equivalente a US$1.000,00 em baterias de lítio e extraiu o elemento, cortando as baterias ao meio com um par de cortadores de fio. Em seguida, David colocou o dióxido de lítio e de tório juntos, em bola de papel alumínio, e aqueceu essa bola com um bico de Bunsen. PRONTO!

Foi obtido tório numa quantidade tão ótima que acarretou em níveis de radiação 9.000 vezes o nível encontrado na natureza e 170 vezes o nível recomendado pela própria Comissão Reguladora Nuclear. David estava em terreno muito perigoso e, o pior de tudo, não fazia a menor ideia disso. Se fazia, não eu a menor bola.

Nesse ponto, David poderia ter usado sua arma de nêutrons de amerício para transformar o tório-232 em urânio-233 fissionável. Porém, o amerício que ele tinha não era capaz de produzir nêutrons de maneira eficiente, em uma quantidade aceitável. Acertar parafina era uma coisa, fazer o tório virar urânio era outra. Assim, ele partiu para outro elemento extremamente radioativo que, esperava ele, fosse bem mais eficiente: O rádio.

O rádio-226 era muito usado por fabricantes de relógios para pintar os marcadores das horas e ponteiros, de forma com eles ficassem fosforescentes e visíveis durante a noite. Dando uma revirada em lojas e antiguidades, David conseguiu encontrar uma lata antiga de tinta levemente radioativa numa loja de antiguidades próxima. Ele conseguiu isolar o isótopo para experimentos.

 

Você deve estar achando um absurdo tantos materiais radioativos estarem à disposição. Pois vou contar um segredinho: era até pior. Na década de 1920-30, a radioatividade, por causa dos estudos profundos sobre sobre sua natureza, levou a uma febre comercial. O Marketing explorou até não poder mais, e saíram diversos produtos radioativos, como relógios, maquiagens, remédios e até mesmo supositórios de rádio (o elemento, e não o aparelho radiofônico. Ninguém era tão louco de enfiar um estéreo na bunda… ou era?).

Há inclusive o relato que, ao exumarem um corpo de uma moça, em 1927, que morrera cedo (ela tinha 24 anos quando faleceu), cujo trabalho era pintar marcadores de relógios, darem de cara com um corpo que ainda brilhava no escuro dada a alta contaminação por rádio.


Radium Girls ou Meninas Radioativas

Os relógios pintados com tinta à base de rádio que ele encontrava continham muito pouco rádio, até o dia que ele tirou a sorte grande ao passar por uma loja chamada “Gloria’s Resale Boutique/Antique”. Lá ele viu um relógio grande e antigo, que seu contador Geiger ficou maluco. Lá dentro tinha um frasco de tinta de rádio.

Ainda assim, era preciso concentrar o rádio, coisa que David fez facilmente com uma amostra de sulfato de bário, da ala de radiografia de um hospital local (a equipe entregou a substância, porque eles lembraram de seu projeto para obter a medalha de mérito), e o aqueceu a mistura até o ponto de fusão. Depois de misturar o sulfato de bário com as partículas de tinta de rádio, David passou a mistura através de um filtro de café em um béquer. que começou a brilhar. Então, ele desidratou a solução em sais cristalinos, que ele poderia colocar em um outro bloco de chumbo para construir uma nova arma.

Ele pegou o rádio e o amerício, misturou esses isótopos com berílio (cortesia de um amigo que passou pelo laboratório de Química da Universidade Macomb e afanou uma amostra) e aparas de alumínio e embrulhou tudo em papel alumínio, formando o “núcleo” improvisado de seu reator. Em seguida, envolveu-o com o tório e pó de urânio, empilhados em um padrão alternado com cubos de carbono e tudo isso mantido junto com um grande dispositivo de última geração: fita adesiva.

Essas compras não foram os únicos casos em que Hahn empregou subterfúgios para obter material radioativo. O “professor” atacou de novo, e certa vez escreveu a uma empresa tcheca que vendia urânio a compradores comerciais e universitários, obtendo algumas amostras de material que continham urânio-235 e urânio-238. Mandando a segurança às favas, David Hahn juntou toda essa bagaça e tentou construir um reator usando o material radioativo que coletou ao longo dos anos, usando o esquema daquele livro de Química que eu mencionei logo no início. Mas surgiu mais um problema: os nêutrons eram rápidos demais. Novamente, lá vamos pra engenharia social.

Em usinas nucleares, o que ajuda a controlar a reação nuclear é água pesada. Longe de ser água com sais de chumbo dissolvidas, água pesada é água que ao invés de usar o isótopo Hidrogênio-1, usa Hidrogênio-2, também chamado “deutério”. Na falta desse, pode-se usar trítio, o Hidrogênio-3.


Tanque com água pesada e material radioativo.
Adivinhe por que está brilhando

Para controlar a reação, a saída foi usar trítio, muito usado em sistemas de miras de armas de fogo, pressão e arcos, que brilhavam no escuro. A ténica de David? Comprou as miras, tirou a substânia cerosa rica em trítipo lá de dentro, devolveu alegando defeito de fabricação, recebia outros, raspava, devolvia e assim ele conseguiu um belo amontoado de cera com trítio. Usou esta cera para besuntar a tira de berílio e direcionou a arma em direção ao urânio em pó.

A bem da verdade, este reator nunca foi funcional, pois mesmo assim não produzia radiação de forma eficiente e controlável, mas mesmo para um processo incontrolável, não tinha massa crítica e foi isso o que salvou sua vida de uma explosão. Só que ele não estava pensando em explosões. Estava pensando em aumentar a eficiência radioativa do seu aparato.

David chutou o pau da barraca com a plaquinha escrita “NORMALIDADE” na entrada e removeu o rádio e o amerício de seus casulos de chumbo e, começou a misturá-los e pulverizá-los. Detalhe: a única proteção efetiva de David era um poncho de chumbo, mas a cabeça e as mãos ficavam de fora.

Depois de pulverizar e homogeneizar tudo, no Escoteiro sem um pingo de noção misturou os isótopos com o berílio e aparas de alumínio, que foram envolvidos em uma folha de papel alumínio. Este era o núcleo improvisado de seu reator. Ele envolveu esta bola radioativa com um “cobertor” composto de minúsculos cubos de cinzas de tório e pó de urânio, que foram organizados em um padrão alternado com cubos de carbono e amarrados com uma fita adesiva.

Aquele caldo de bruxa radioativo estava montado e Hahn foi medir os índices com seu contador Geiger: Segundo relatos da época, estava “radioativo como o inferno”. Se você se perdeu na data, estamos em 1994!

O nível de radiação depois de algumas semanas estava muito maior do que na época da montagem, já que o material radioativo não parava de seguir as leis da Química e da Física. Quando o contador Geiger de David estava berrando em alarme a uma distância considerável da casa de sua mãe, mesmo estando debaixo de concreto, David percebeu que tinha ido longe demais e resolveu desmontar o reator.

Ele colocou as pelotas de tório em uma caixa de sapatos e escondeu na casa de sua mãe (sim, pode fazer seu facepalm!), deixou o rádio e o amerício no galpão e colocou a maior parte do restante de seu equipamento no porta-malas do Pontiac 6000, onde estariam esquecidos, mas em 31 de agosto de 1994, a polícia recebeu um chamado. Diferente do Pica-Pau, os moradores da vizinhança ligaram prestando queixas que tinha um sujeito “roubando pneus de um carro”.

A polícia foi até lá investigar deram uma prensa em David, que alegou pros meganhas que estava apenas esperando um amigo. O Pessoal de Azul não caiu nesete lenga-lenga e mandou abrir o porta-malas do POntiac 6000, e lá encontraram uma caixa de ferramentas fechada com um cadeado e selada com fita adesiva, junto com mais de cinquenta cubos embrulhado, pequenos discos e objetos cilíndricos de metal, mantos de lanterna, interruptores de mercúrio, mostradores de relógio, minérios, fogos de artifício, tubos a vácuo e diversos produtos químicos e ácidos. David avisou que era radioativa e os meganhas acharam que estavam de frente para uma bomba atômica.

Começou o barata-voa! Os meganhas meteram a mão no rádio (o dispositivo radiofônico) e chamaram Deus e o mundo. Foi acionado o Plano Federal de Resposta a Emergências Radiológicas, e todo mundo entrou na dança: DOE, EPA, FBI e NRC e muitas outras letrinhas. Depois de examinar a propriedade de sua mãe (que deu uma geral em muito do que tinha lá que era de David, por medo da polícia confiscar a casa), as autoridades decidiram que o local deveria ser uma operação de limpeza da EPA:

Ainda assim, o que tinha lá era absurdamente radioativo. Só uma lata de legumas lá tinha mais de 1000 vezes mais radiação do que seria considerado “normal”. Hora da limpeza!


Aqui é onde David fazia seus experimentos.
Am, Th, U e T escritos na parede, símbolos dos elementos

Entre 26 e 28 de junho, teve lugar um grande processo de limpeza local, orçado em, na época, 60 mil dólares. O galpão foi desmontado totalmente, e tudo o que tinha lá foi parar em 39 barris selados, e enviados para serem enterrados num imenso cemitério de lixo radioativo de baixo nível, repousando ao lado de materiais que restaram de usinas nucleares, testes de bombas do governo e similares.

Por causa dos inúmeros elementos altamente radioativos com os quais David estava trabalhando, em especial o rádio, em 1995, a Agência de Proteção Ambiental providenciou que David fosse submetido a um exame completo na usina nuclear mais próxima, mas David recusou.

Em 1996, a mãe de David se suicidou (não ficou registrado se foi por causa das peripécias dele ou não), e ele também entrou em depressão. O Escoteiro Radioativo queria ser Marinheiro Radioativo e alistou-se Marinha dos EUA, aspirando poder trabalhar no reator nuclear, mas muito provavelmente já sabiam disso e não deixaram-no chegar nem perto. David ficou desgostoso, saiu da Marinha e foi cumprir um tempo no Corpo de Fuzileiros Navais em 2004 antes de voltar para seu estado natal de Michigan. Em 2007, a polícia investigava alegações que David Hahn estava armazenando material radioativo em seu apartamento de novo! No depoimento, Hahn descreveu sua honrosa alta das forças armadas e suas lutas com a esquizofrenia paranóica nos anos seguintes ao seu retorno para casa. Mais tarde, ele confessou o roubo de alarmes de fumaça e foi sentenciado a 90 dias de prisão, mas ele já não estava bem de saúde. Seu rosto apresentava várias feridas, provavelmente por exposição a radioatividade.

 

David Hahn foi diagnosticado com esquizofrenia paranoica e apresentava índícios de envenenamento radioativo, morrendo em 27 de setembro de 2016, aos 39 anos de idade, resultado de envenenamento por álcool, segundo seu pai, mas muitos acham que foi devido a longo tempo exposto a material radioativo. A verdade é que ninguém sabe ao certo e decidiram acabar a história dele por aí, mesmo.

David Hahn levou-se pela curiosidade científica, resvalando para a irresponsabilidade. Ainda assim, ele queria saber mais, testar, testar os limites do seu conhecimento. Isso é o que faz um cientista ser cientista. Talvez ele não devesse ter feito isso, nem ter colocado outras pessoas em risco. Depois que o tempo passa é fácil classificá-lo, seja para o bem ou para o mal. Eu mesmo não sei como classificá-lo senão alguém curioso que queria muito aprender.Indiretamente, ele foi muito importante. Importante em mostrar como é fácil ter aparatos nucleares com conhecimento, bom papo, pesquisa, inteligência e esperteza. Isso mostrou-se até como podemos ter algo muito mais perigoso do que o que aconteceu numa cidaedzinha esquecida do Michigan. Tudo depende das intenções.

Eu sinto, portanto, a necessidade de colocá-lo como um dos Grandes Nome da Ciência. Nem que seja para que não façamos o que ele fez ou do jeito que ele fez. Termos meios e impedir que outros façam o que ele fez do jeito que ele fez, pois estes últimos podem não estar com tão boas intenções assim.

Descanse em paz, David. Que outros tenham tanto amor pela ciência e curiosidade quanto você, mas sem nunca terem 1 milésimo de sua irresponsabilidade.

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