Bactéria já é ruim, quando auxiliado por sistema imunológico é pior ainda

O Clostridium difficile já traz no nome que não é brincadeira. Este bacilo (uma bactéria mais sacana que as outras) é que nem o seu cunhado. Assim como aquele inútil está se servindo do conteúdo da sua geladeira, a C. difficile é um comensal do trato gastrointestinal. Assim como o seu cunhado, que só lhe traz dor de cabeça, o Clostridium é responsável por doenças gastrointestinais, que variam desde uma diarreia até uma colite pseudomembranosa. Você não quer contrair uma colite polimembranosa, a infecção mais comumente adquirida em hospitais.

Agora, uma pesquisa aponta como alguns pacientes são altamente suscetíveis a infecções por cauda do C. difficile, fornecendo aos médicos uma maneira de prever a gravidade da doença e apontando para uma nova maneira de tratar essa desgraça. Já pro seu cunhado fica difícil e médicos recomendam tratamento à base de ferro. De preferência sob a forma de barra, na cabeça dele.

O dr. William A. Petri Jr é vice-diretor de pesquisa do Departamento de Medicina da Universidade da Virginia. Ele ainda dá aula de um monte de coisa, mas eu fiquei com preguiça de relatar. Clica no link que coloquei no nome dele e vá lá dar uma olhada, ou não. A maioria de vocês não clica, mesmo!

Sua pesquisa estuda formas de combater o C. difficile e os danos que este desgracento causa nos tecidos, podendo levar à morte, principalmente se levar em conta que pouco importa quantos desses miseráveis estão no seu corpo, mas sim a magnitude da resposta imune. Não apenas isso, a pesquisa explica por que pacientes com doença inflamatória intestinal são mais propensos a sofrer infecções graves pelo C. difficile e mais propensos a morrerem delas.

Tudo começa com o fato da colite polimembranosa ter um efeito prolongado sobre o sistema imunológico, preparando o paciente para uma pior infecção. Embora os cientistas soubessem que o C. difficile e outras bactérias produzem toxinas que são prejudiciais ao corpo, foi assumido que isso era uma questão simples: mais toxinas, mais doenças. Mas a pesquisa do dr. Petri (que nada tem a ver com a plaquinha de Petri dos laboratórios) mostra que a bagaça é bem mais complexa. Muitas vezes, o tipo de resposta imune gerada pelo corpo pode ditar o resultado da doença independente da toxina bacteriana.

Como ficar experimentando em humanos não é viável enquanto não se sabe com o que se está lidando, Petri e seus colaboradores criaram um modelo biológico com colite. Isto é, um rato. Os pesquisadores ficaram observando o desenrolar da doença, ficando capazes de determinar que os ratos que se recuperaram da colite realmente tinham alterações no seu sistema imunológico, apresentando uma resposta imune adaptativa.

Células imunes conhecidas como células Th17 tornaram-se hiper-carregadas, preparadas para causar uma reação severa à infecção subsequente pelo C. difficile. Mesmo a mesma quantidade de bactérias agora causaria uma resposta perigosa e descomunal, seguindo o mesmo caminho das alergias: usar um tanque M1 Abrams para detonar com um punguista (não que punguistas não mereçam, mas os danos colaterais não seriam muito bem vistos). É exatamente estas células Th17 que agravam o problema da infecção, no melhor sistema de fogo amigo imunológico, mostrando como o projeto de um Desenhista Inteligente é uma verdadeira bosta.

Depois dos ratinhos, vamos ver o que os humanos nos revelam. Petri e seu pessoal analisaram, em seguida, amostras humanas para determinar se suas descobertas seriam verdadeiras. E eles conseguiram usar substâncias no sangue, incluindo uma proteína conhecida como interleucina 6 (ou IL-6), para prever a gravidade da doença. Pacientes com altas quantidades de IL-6 foram quase oito vezes mais propensos a morrer de C. difficile do que aqueles com baixos níveis.

Opa, significa que temos uma cura? Não, claro que não. Mas, pelo menos, sabe-se com mais detalhes o que se está enfrentando, com algum prognóstico de cura e um menor tempo de convalescença. Diferente do seu cunhado. Ele ainda continuará por um bom tempo tomando a sua cerveja.

A pesquisa foi publicada no periódico Cell Host & Microbe

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