A queda de Angkor por causa de um copo d’água

Substância de essência de lavanda faz ratos ficarem calminhos
Acharam o que sobrou da Luzia. Sabem o que isso significa?

Angkor é uma maravilha sem igual. Não que as outroas maravilhas sem-igual sejam melhores ou piores que Angkor. Angkor é simplesmente diferente. Seu nome em sânscrito significa “cidade”, apenas, mas Angkr, como um todo, significa muito mais que isso. Foi a primeir acidade fundada pelo Império Khmer, que floresceu entre os séculos IX e XV, na região que hoje está compreendido o Camboja, Tailândia, Laos e parte do Vietnã. O Khmer acabou forjando uma miríade cultural, tendo Angkor a sua capital, que na época era a maior cidade do mundo, enquanto a Europa ainda estava na Idade Média. Assim como floresceu, Angkor teve o seu declinio, quando a população simplesmente migrou no século XV para o que hoje é a cidade Phnom Penh, conhecida como a “Pérola da Ásia” na década de 1920.

Até hoje, ninguém chegou a um acordo de como ou por que este êxodo começou. Todo mundo tem um palpite, mas é basicamente palpite, mesmo. Agora, uma pesquisa recente proura dar uma explicação para o que aconteceu: o abastecimento de água ficou sobrecarregado.

O dr. Mikhail Prokopenko é diretor do Grupo de Pesquisa de Sistemas Complexos da Faculdade de Engenharia e Tecnologia da Informação da Universidade de Sydney. Sistemas complexos são sistemas que são compostos por um conjunto de unidades que interagem entre si e que exibem propriedades coletivas emergentes. Essas propriedades coletivas são estudadas por diferentes áreas, como Matemática, Física, Química, Biologia, Sociologia (a de verdade e não do pessoal que ganha verba pra ir em orgias), Geografia entre outras. Tudo isso se combina acabando num sistema complicado de tão complexo.

Um exemplo é: você precisa passar uma linha de transmissão de energia do ponto A para o ponto B. Você vai fazer o que? Esticar o fiozão e ir em linha reta? É uma possibilidade, mas aí você depende de fatores como clima (venta muito forte?), terreno (tem algum rio no caminho que seja extenso?) se tem alguma cidade no caminho (colocar uma torre de transmissão no meio da pracinha não parece ser legal), matterial empregado etc. Vai estender cabo de transmissão de dados no fundo do oceano? Pense em todos os problemas, a começar pelo cabo que não é nada parecido com o cabo de rede da sua casa. Outro problema dos sistemas complexos é que eles evoluem (ihg, agora tem um vilarejo aqui? Não, mas um terremoto fez uma miséria no terreno).

Ao examinar o caso de Angkor e os dados disponíveis até agora, Prokopenko chegou à conclusão que um importante fator contribuinte para o pessoal ralar peito de Angkor foi um sistema de distribuição de água sobrecarregado, exacerbado por oscilações extremas no clima. Algo parecido com São Paulo quando a Cantareira chegou no volume morto e enterrado. A diferença é que a Sabesp de Angkor não mandou o pessoal racionar a água para depois aumentar a conta porque o lucro foi menor. Os líderes de Angkor decidiram que ninguém merece ter a gestão dos paulistanos. Colocaram uma plaquinha “Aluga-se. Tratar com proprietário” e ralaram peito de lá. Pelo menos, é isso o que Prokopenko defende.

Pesquisas apontam que a área de Angkor sofreu uma seca por décadas, seguida por um período de monções de verão incomumente intensas; e se uma monção já não é brincadeira, imagine quando ela está no 11. Ah, sim. Isso foi antes da Revolução Industrial, ok? Só se você alegar que os deuses hindus estavam bolados com as Grandes Navegações e resolveram varrer geral.

Este intercalamento de uma seca absurda que levou décadas seguida de uma monçãoziona hardcore fez com que o sistema de abastecimento de água de Angkor ficasse comprometido. Mas calma! Calma que piora!

Um império não quer só comida. Quer comida, diversão, arte… e água! Plantar comida não é difícil. O difícil é ter água abundante me, para isso, é preciso ter fontes de água e sistemas reservatórios. Angkor desenvolveu armazenamento e irrigação. Com isso, foi construída uma série de canais com aproximadamente 86 km de extensão. Esses canais, segundo pesquisa conduzida pelo dr. Etsuo Uchida, da Faculdade de Ciência e Engenharia da Universidade Waseda. Uchida concluiu que toda canalização de água não só servia para abastecimento de água, como para transporte e foi assim que os imensos blocos de arenito que foram usados para construir Angkor foram transportados.

Um colapso neste sistema de canais e não foi só o abastecimento de água que foi pro saco. Todo o sistema logístico de Angkor sucumbiu, já que a infra-estrutura de gerenciamento de água de lá tinha desenvolvida ao longo dos séculos, tornando-se muito grande, fortemente interconectada e dependente de componentes antigos. O grande período de seca obrigou a fazer uso intenso dessa rede complexa, tornando instável a distribuição de água. Quando este sstema entrou em colapso, o que houve em seguida foi um efeito dominó.

Por que se preocupar com isso? Porque nossas malhas de abastecimento de água são velhos e a seca da Cantareira mostrou como é frágil este sistema. Angkor não tinha 14 milhões de pessoas e São Paulo e Rio, por exeplo, não teriam como migrar todo mundo. Iriam para onde? Paquetá? (se você não entendeu, saiba que Paquetá é o Acre do Rio de Janeiro. Alguns alegam que existem tribos perdidas lá e construções astecas).

Na época do Império Khmer não havia os problemas climáticos que temos hoje, que a cada ano está se agravando. Nossos sistemas de abastecimento são precários e um dos dominós já está balançando.

A pesquisa foi publicada no periódico Science Advances.

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Sobre André Carvalho

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