Grandes Nomes da Ciência: David Reimer

Tubarão suspeito de terrorismo toma dura da polícia
Marcha pela Ciência hoje. Não posso deixar de perder

Este é um drama, uma tragédia, ainda que não grega. Começa com dois irmãos. Gêmeos. E eles compartilharam o mesmo destino. Temos a mãe e o pai, que ainda que tivessem boas intenções (talvez?) sabemos qual lugar quentinho e aconchegante é formado por essas boas intenções. Temos um médico incompetente e um psicólogo sádico. Tudo isso num horrível show de horrores que foi tido como um dos experimentos mais cruéis da história.

Esta é a história de David Reimer.

Bruce e Brian Reimer nasceram no mesmo dia, já que eram gêmeos, no dia 22 de agosto de 1965, em Winnipeg, Manitoba, no Canadá. Nasceram como dois garotos fortes e saudáveis, só que veio com um tantinho a mais de carne, o que chamamos de “fimose”. Na época, era comum resolver isso aos 8 meses de idade, circuncidando. O médico tinha ralado peito por motivos que ninguém soube e o procedimento ficou a cargo do estagiário. Para isso, ele usou um cauterizador elétrico, num procedimento não muito comum. Com Brian foi tudo certo, mas com Bruce deu problemas. Não se sabe como nem qual foi a imensa besteira que o estagiário fez, mas ele torrou o pênis de Bruce, queimando o coitado todo. Dias depois, o tecido morto caiu, ou seja, quase todo pênis foi embora, bye bye, so long, far well. O que aconteceu com o estagiário eu não sei e ele não será mais mencionado daqui pra frente.

Este acontecimento trágico fez a infelicidade dos pais de Bruce, mas desgraça pra uns pode ser uma excelente oportunidade para outros. Era 1966 e não havia as cirurgias plásticas que têm hoje. O que fazer? Bem, papai e mamãe Reimer souberam que havia um médico de Baltimore que achava que esse negócio de sexualidade inata era balela e que, com condicionamento certo, podia-se mudar o gênero da pessoa.

Sim, ele inventou o primeiro Gender Fluid ou sei lá como os retardados do Tumblr chamam isso. O nome do médico era John Money.

Money era sexólogo e com uma excelente reputação nos círculos de Psicologia. Bem recomendado assim, só poderia ser ótimo para o menino, certo? Bem, não posso culpar os Reimer por pensarem assim. Eles não tinham bola de cristal. Conhecido e com boa reputação dentro dos círculos da Psicologia, Money era tido como “O” expert no assunto, e ele estava bem convencido de si que a educação determinava a conduta das pessoas, inclusive no tocante a orientação sexual.

Sim, John Money seria o tio querido do Tumblr, da Direita Religiosa que defende a cura-gay e da Esquerda Lacradora que acredita que gênero é apenas uma ideologia, que você só é hétero se quiser, e isso é apenas um defeito, que o certo mesmo é ser gay. Se esses três estão fortes na Teoria da Ferradura, John Money era o casco a pisar por cima de todos para provar o seu ponto.

Money ficou mais feliz que pinto no lixo ao saber do caso; principalmente por Bruce ter um irmão gêmeo univitelino. O que seria mais legal do que fazer experimentos com gêmeos, com um deles servindo de controle? Cruel o bastante? Pois é, o próprio Mengele fez isso e não ficou muito bem visto por causa disso.

Mas, calma! Calma que piora! E como piora!

Com quase dois anos de idade, Bruce começou a passar por tratamentos hormonais ganhando belas quantidades de estrogênio e progesterona. Passou por uma cirurgia para remover seus testículos. Os pais foram instruídos a criar Bruce como uma menina, dando-lhe o nome de Brenda. Bruce/Brenda ganhava bonecas e vestidinhos, além de nunca terem dito a ele o que lhe acontecera. Para todos os efeitos ele era Brenda, a filha do casal Reimer, e era assim que era tratada.

Money acompanhou todo o processo, vendo Bruce/Brenda pelo menos uma vez por ano ao longo de dez anos. Mas algo deu chabu, e esse chabu chama-se “cérebro”.

Disforia de gênero é um curto circuito no cérebro. A pessoa se olha no espelho e não se reconhece. Vê um pênis, músculos desenvolvidos, barba e mesmo assim acha que tem algo de errado. Ele é uma mulher, como pode ter o corpo de um homem? Alguns possuem seios, uma vagina, quadris largos… mas não. Tá errado! A pessoa SABE que é um homem. Como assim? Isso nem tem a ver com atração sexual por homens ou mulheres. Não tem nada a ver com orientação sexual. É uma questão de autorreconhecimento, e isso não é facilmente diagnosticado ou facilmente tratado.

Bem, o que a família Reimer fez, sob orientação e estímulo do ilustríssimo doutor Money, foi dar de presente mais do que vestidinhos para Bruce/Brenda. O que eles deram foi uma disforia de gênero cavalar. Bruce/Brenda se olhava e não se reconhecia. Era mais Bruce do que Brenda. Ele não só não queria brincar de boneca, como destruía as mesmas. Queria os jogos dos outros meninos. A parte morfológica também estava tendo problemas, pois a Natureza sempre dá um jeito, e Bruce estava produzindo testosterona. Ele estava se tornando um ser sem identidade, disforme. Sua cabeça está a mil, ele sabia que era um menino, o corpo já estava entre menino e menina e os pais não contavam, nada. Na escola, Bruce preso no corpo da Brenda como se fosse uma possessão enfrentou as piores e mais demoníacas criaturas na face da terra depois de Money: seus coleguinhas de escola.

O dr. Money não se deu por vencido. Mandou aumentar as dosagens de estrogênio, e queria que fizessem uma cirurgia para a construção de uma vagina artificial. Ainda não estamos na década de 80, logo, este tipo de técnica cirúrgica não estava bem desenvolvido. A operação foi um fracasso e Brenda não conseguiu a sua vagina, mas um simples orifício para poder urinar. Eu fico imaginando Bruce/Brenda se olhando todos os dias sem saber o que estava acontecendo e me dá ânsia de vômito. Nenhum ser humano é para passar por isso.

Money não ia desistir agora. Ele TINHA que conseguir seu intento. O tratamento de feminização precisava continuar. Durante as consultas (sempre junto do irmão), Money mostrava revistas sensuais ou de pornografia pura, mesmo. Ele queria estimular Brenda sexualmente, de forma que ela ficasse atraída por homens, mas a única coisa que conseguiu foi deixar não só uma criança perturbada, mas duas. O próprio irmão começou a apresentar sinais de depressão. Por que? Talvez porque muitas vezes o grande dr. John Money obrigava que os dois, irmão e irmão/irmã tirassem a roupa e se posicionassem de forma que “Brenda” ficasse de quatro, como uma doce dama subserviente, e Brian ficasse simulando movimentos sexuais, como se estivessem fazendo sexo. Isso custaria caro aos dois irmãos.

Brenda decidiu que ia acabar com isso e parou de tomar estrogênio. Bruce estava vencendo a guerra contra Brenda, mas estava perdendo para si mesmo. Ele tentou o suicídio repetidas vezes, até que, finalmente, o pai mal aguentando o remorso revelou a história toda. Bruce tinha 14 anos. Brenda que era Bruce resolveu adotar outro nome. Escolheu David. Os anos seguintes foram com David tentando adquirir corpo masculino. Fez mastectomias (sim, ele tinha seios. Ou o que mais se aproximava disso) e construiu um pênis artificialmente, além de tomar doses extras de testosterona.

Agora David Reimer, Bruce/Brenda poderia ter uma vida normal. Em 22 de setembro de 1990, ele se casou com Jane Fontaine e se tornou o padrasto de seus três filhos. A vida estava garantida, certo? Não, o sofrimento ainda não parou aí.

Money registrou tudo o que fez, mantendo a identidade do menino como John/Joan e era assim que ele se referia ao seu paciente perturbado. Seu caso chamou a atenção internacional em 1997, quando ele contou sua história a Milton Diamond, um sexólogo acadêmico que persuadiu Reimer a lhe permitir apresentasse os resultados do experimento que fizeram com John/Joan/Bruce/Brenda/David, de forma que outros médicos não tivessem aquela ideia retardada e estupidamente assassina. Assassina? Sim, mas espere um instante.

Isso tudo chegou aos ouvidos de um repórter premiado na vida profissional, mas detentor do pior e mais infame trocadilho sob a forma de nome: John Colapinto (ele tem Twitter). Colapinto publicou um relato amplamente divulgado e influente na revista Rolling Stone, em dezembro de 1997, além de vários livros.

David Reimer, uma vítima da péssima ciência, nunca conseguiu se relacionar bem com seus pais. Seu irmão desenvolveu esquizofrenia e acabou se suicidando com overdose de medicamentos em 2002. Quando o assunto veio à baila, David perdeu o emprego, e era visto como um pária por seus vizinhos. Em 2004, sua esposa pediu o divórcio levando o pouco de vida que David tinha conseguido em seus anos de vida.

Em  5 de maio de 2004, 3 dias depois de Jane ter pedido a separação, David Reimer foi a uma mercearia com uma espingarda. Ficou no estacionamento, e de lá só saiu morto, com um tiro na cabeça. O dedo que apertou o gatilho foi dele, quem o matou foi John Money MD, dublê de médico, alguém que lembra os contos de terror como o Reanimator e Frankenstein.

Ciência não é para isso. Ciência é para compreender o que nos cerca e melhorar a nossa qualidade de vida. Ciência não é para torturar pessoas em busca de um suposto bem maior. Não houve bem maior naquele sofrimento. Não houve bem nenhum. O ideal da Ciência não é a descoberta dessa forma, não é torturando pessoas deixando seu ego lhe levar. O que Money fez foi, no mínimo, criminoso, mas ainda assim ele teve defensores. Por isso os comitês de ética são tão importantes. Me disseram que Conselhos Profissionais, como CRQ, CREA e CRM, são uma burocracia desnecessária. Humanos ainda são humanos, em todas as nossas falhas, e, sim, precisamos ser vigiados por alguém de fora, alguém que aponte e diga “Você REALMENTE está pensando em fazer esta merda?”

É lamentável, é triste e não há moral última a não ser “não façam isso, seus imbecis!”. Quando essa galerinha antenada vocifera dizendo que não há gêneros, tudo é fluido, seja o que quiser, mesmo que seja uma maionese, estão apenas justificando o que John Money achava. Quando a ala conservadora extremista aparece com propostas de cura-gay, estão justificando os atos de um médico psicopata. Dois lados da mesma moeda podre. Vocês não querem ajudar ninguém. Querem apenas defender uma agendinha de merda e quem sofre é gente como David Reimer, mártir da ciência da qual ele não se ofereceu de bom grado.

Desculpe, Bruce. Você não merecia o que passou. Desculpe.


Tem um documentário feito pela BBC chamado

Tubarão suspeito de terrorismo toma dura da polícia
Marcha pela Ciência hoje. Não posso deixar de perder

Sobre André Carvalho

και γνωσεσθε την αληθειαν και η αληθεια ελευθερωσει υμας

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  • Pedro De Biase Borges

    A reputação do Money foi pras cucuias ou ele ainda tem prestígio hoje em dia?

    Lucas Monteiro respondeu:

    Infelizmente ele ainda tem certo prestígio por parte de pessoas que consideram a tal do fluxo do gênero como algo correto. Inclusive ele ganhou mais de 60 prêmios na área dele, e acabou vendendo muitos livros por parte destas experiências horrendas.

    Agora pra piorar e algo que vi que o André não citou, ou pelo menos não me lembro, em uma das teorias dele, ele dizia que pedofilia não passava além de amor de uma pessoa mais velha por uma criança, e que não envolvia nada sexual. Para você ver o nível de demência desse “doutor”.

    Outro “Anjo da Morte” que morreu em paz, indicando que neste mundo, justiça é algo ilusório e só aplicada aos mortais.

  • Rafael De La Torre Oliveira

    Triste, realmente, quando uma idéia pára de ser pensada, as piores atrocidades ocorrem em nome do bem.
    Sempre digo, na ganância de se fazer o bem, o mal se multiplica

  • Neuton

    Parece até um filme de terror psicológico em que o tema é a convicção de um contra o outro. Que história pesada.

  • Lucas Monteiro

    Me lembrou de uma frase do Carl Sagan : “Há dois tipos de perigo : Uma é criarmos uma sociedade baseada em ciência e tecnologia em que ninguém entende sobre, e esta mistura inflamável de ignorância e poder cedo ou tarde irá explodir em nossas caras. […]”

    Muitas pessoas até hoje tentam justificar atrocidades em nome da Ciência, mas nada disto é justificável e nunca será, não importa o que Machiavelli pensava, os meios não justificam os fins.

  • Tiago Teth

    Cara, que coisa triste.

  • Luana

    Não conhecia a história, achei pesadíssima. Texto excelente btw