Pesquisadores criam técnica para armazenar vacinas em temperatura ambiente

Produzir vacinas nem é muito problema. O problema é pesquisa-las, desenvolvê-las e, uma das piores partes, transportá-las. Sim, porque não basta você ter toneladas de vacinas se não tiver como leva-las até quem precisa. Seguindo o preceito que o artista tem que ir aonde o povo está, com vacinas não é diferente e é preciso achar um meio de leva-las até Piraporinha do Mato Dentro, no interior do Acre, ou para a Miserábia Setentrional, num daqueles rincões perdidos perto de Deusmelivrestão.

O problema básico é que vacinas precisam ser acondicionadas de modo que fiquem entre 2 e 8ºC. Só arrumar um gelinho em volta não rola quando você tem que percorrer grandes distâncias. Então, temos que apelar para geladeiras que funcionem a bateria, gasolina ou mesmo ligadas a geradores. Será que algum químico poderia nos salvar?

O dr. Francesco Stellacci é engenheiro de materiais, mas resolveu que a perfeição sempre está a um passo, bastando que nós a aceitemos. Assim, ele concluiu pós-doutorado em Química (com ela a oração e a paz) na Universidade do Arizona. Stellaci é agora diretor do Laboratório de Nanomateriais Supramoleculares e de Interfaces da Escola Politécnica Federal de Lausane, Suíça.

Stellaci sabe que existem muitas técnicas para armazenar vacinas em temperaturas baixas para transporte, mas isso sempre implica em aumentar o custo do frete, só perdendo em valor pro Sedex, e com a vantagem dessas vacinas não ficarem perdidas em Curitiba. Transportar vacinas é um pesadelo logístico. O que se pode fazer a respeito?

O pessoal do laboratório sob coordenador do dr. Stellaci entrou em contato com outros órgãos, como os das Universidades de Milão, Turim, Leiden e Oregon e, bem, se o problema são as condições das substâncias que compõem a vacina, acabando por ser sensível à temperatura, o lance é adicionar aditivos, deixando a vacina aditivada, de forma que ela resista mais.

Foram consultados o pessoal da Sociologia, digo, do Departamento de Filosofia, não, quer dizer, Homeopatia, não, péra! Ah, sim, foram os químicos mesmo que resolveram a bagaça. Eles tinham mais tempo para fazer isso, já que não têm o hábito de latir em corredores nem fazer pesquisa de campo em banheiros públicos.

Vacinas podem ser obtidas através de vírus atenuados, de forma que o bichinho (EU SEI!) esteja ainda feliz da vida, saltitante na solução, mas sem lhe causar nenhum mal. Em outros tipos, o vírus está mortinho da silva, mas ainda é um corpo lá imerso na mistura. Só que seu sistema imunológico não sabe disso. Ele é paranoico, como qualquer bom segurança. Ele vê o corpo estranho e começa a preparar as defesas. Ataca o vírus eunuco ou o defunto de vírus e pronto, ele fez seu trabalho, mas resolve ainda dar um rolé pelo seu corpo, pois vai que alguns desses pulhas apareçam de novo? Se os vagabundinhos microscópicos derem as caras, seus anticorpos estarão com a forçla em alerta para mandar todo mundo pra vala. É assim (resumido de forma bem tosca e irresponsável, já que não escreverei toda a bioquímica aqui, porque ficaria longo, chato e tedioso) que você fica imunizado.

Pô, eu pago Ceticismo Platinum para ter uma explicação disso, ora bolas!

Ok, então vamos resumir mas não tão resumidamente

Os vírus são um pedaço de proteína FDP que fica doida para encontrar uma célula e fazer um milk shake de genes, de forma a produzir mais vírus. Isso faz com que a célula aja feito uma doida. Nesse ponto, um geneticista, se junta a um infectologista para virem me encher de porrada, mas em síntese é isso. Como tanto o RNA como o DNA (e existem vírus com os dois) são embrulhados por uma membrana, tem-se que tomar o cuidado para que esta membrana não se rompa, ainda mais que proteínas sofrem desnaturação de forma fácil com aumento de temperatura. Sabe quando você frita um ovo e a clara se torna aquela massa esponjosa? Pois é, aquilo é desnaturação de proteína.

Dessa forma, a pressão osmótica deve ser levada em conta. A pesquisa trabalha de forma que as nanopartículas, partículas não apenas finamente divididas como uma poeirinha, mas realmente finas em escala manométrica (um bilhão de vezes menor que um metro, ou um milhão de vezes menor que um milímetro), carregadas eletricamente façam uma barreira no invólucro, impedindo que essa membrana se desfaça. O polietilenoglicol é um polímero e também transforma-se num envoltório a mais. Já a sacarose está lá para manter a pressão osmótica, de forma que não haja transporte de líquido para dentro ou para forma da membrana que envolve o RNA e/ou DNA dos vírus, mortos ou zumbis, da vacina.

Péra. Um dos ingredientes é sacarose? Isso não é açúcar que se coloca no café?

Yep. Isso é eficiente e barato! Com essa técnica, Stellaci e seu pessoal conseguiram estabilizar as vacinas à temperatura ambiente durante várias semanas ou, em alguns casos, meses!

Calma, vou repetir.

Pesquisadores conseguiram estabilizar vacinas por MESES sem precisar refrigeração. Show, né?

E nenhum dos produtos usados são, OHHHHHH, caros. Claro, não estamos falando do Brasil, em que pesquisas demoram porque álcool de farmácia demora meses para chegar, e são superfaturados.

Isso quando não são superfaturados e comprados assim mesmo, mas por eventos caóticos não chegam nos laboratórios.

A pesquisa foi publicada na Nature Communications. Lembram aquela lei da União Europeia? Ótimo, pois por causa dela você poderá ler a pesquisa DIGRÁTIS!

2 comentários em “Pesquisadores criam técnica para armazenar vacinas em temperatura ambiente

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