Pequeno manual dos verbos

Aposta de Pascal em vídeo
Juiz se espanta com pessoa inteligente. Desculpem-no, ele é de humanas

Esse post começou com eu desabafando no Twitter minha alegria em aprender a diferenciar duas classes de verbos bem parecidas. O André e o Cogita me pediram mais detalhes, mas não cabe em 140 caracteres…

Então vamos de Livro dos Porquês \o/

(preciso deixar duas coisas bem claras aqui: primeiro que sou linguista de orientação gerativista, portanto não entendo muito de funcionalismo ou outras correntes que vão enxergar o assunto de forma diferente, e também não sou grandes coisas em gramática tradicional. Segundo que esse assunto é bem complexo e técnico, e envolve uma base teórica complicada. Vou tentar simplificar ao máximo, mas ele ainda pode ficar confuso, ou vago, ou incompleto. Vou tentar minimizar isso.)

Então, começando do começo… As categorias de Verbo, Substantivo, Adjetivo, Preposição (às vezes chamada de adposição por poder vir antes ou depois) são noções praticamente inatas. Não conseguimos definir com clareza e objetividade essas categorias, mas todo mundo intuitivamente sabe que elas existem e mais ou menos como funcionam. Embora haja algumas diferenças entre línguas (por exemplo, em línguas bantu adjetivos normalmente se comportam como verbos estativos tipo “ser alguma coisa”), essas categorias parecem ser universais.

A gente aprende na escola desde cedo alguns conceitos que vamos reaproveitar agora. O primeiro que quero lembrar é o de predicado. Lembra da tia da escola ensinando a separar orações em sujeito e predicado? Então… Tem toda uma lógica por trás disso. Predicado pode ser entendido como um item que codifica uma informação sobre um evento/fenômeno/acontecimento/estado/atividade. O verbo é o predicado típico (mas não o único; as outras categorias também podem ter itens que funcionam como predicados). Então quando eu falo de predicado, eu estou normalmente me referindo a um acontecimento, ou estado, ou evento, ou fenômeno, ou atividade. É bem geral mesmo. Outra coisa sobre predicados: a grande maioria deles precisa selecionar elementos que vão participar desse estado/evento/fenômeno/etc. A esse elemento participante chamamos argumento.

Verbos são predicados típicos, como já disse. Tradicionalmente, a classificação dos verbos se dá de acordo com a quantidade de argumentos que esse verbo escolhe para participar do evento/estado que ele codifica. Chamamos isso de transitividade. Daí que temos basicamente três grandes grupos de verbos, de acordo com sua transitividade:

  • Verbos não argumentais: fenômenos da natureza não selecionam argumentos. Exemplos: chover, nevar, ventar.
  • Verbos monoargumentais (ou intransitivos): verbos que só possuem um argumento. Exemplos: cair, viajar, morrer, florescer, sonhar, dançar.
  • Verbos biargumentais (ou transitivos): verbos que possuem dois argumentos. Exemplos: comer, quebrar, vestir, alimentar.
  • Verbos triargumentais (ou ditransitivos): verbos que possuem três argumentos. Exemplos: dar, vender, entregar, levar.

Há uma série de problemas com essa classificação. Primeiro que argumentos muitas vezes são opcionais. Segundo que essas classes não são homogêneas, e há várias nuances aí. Mas é um bom ponto de partida para um estudo sobre verbos e sentenças em geral (lembrando que, tanto nos estudos tradicionais como no gerativismo, o verbo é entendido como o núcleo da sentença. Outras abordagens linguísticas vão discordar disso.)

O ponto da discussão aqui vão ser dois tipos de verbos que estão inseridos em duas classes ali em cima. O primeiro deles é um subgrupo dos verbos intransitivos chamado de inacusativos. Verbos transitivos normais têm a capacidade de checar Caso acusativo (eu sei, qualquer dia eu explico direito. Por enquanto basta saber que Caso é uma característica essencial de sintagmas nominais em sua relação com o predicado, em algumas línguas aparece claramente e em outras fica escondida) do seu argumento interno (o objeto, normalmente). Mas esses verbos, por só ter um argumento, não conseguem atribuir Caso. Há vários argumentos e evidências pra mostrar isso, mas não cabe aqui.

Existem outras três estruturas muito parecidas com isso – ou seja estruturas com apenas um argumento, o objeto, sem o “sujeito” agente tradicional. Uma delas a gente conhece bem: a passiva. O que acontece na passiva: você esconde o agente, pega o objeto e leva ele pra posição de sujeito, dá uma leve modificada no verbo. Assim:

1) a. Eu quebrei o espelho.

b. O espelho foi quebrado (por mim).

Outra estrutura inacusativa comum é a alternância cansativa-incoativa, ou seja, quando você faz com o verbo um processo muito parecido com a passiva, mas sem mudar o verbo.

2) a. Eu quebrei o espelho.

b. O espelho quebrou (*por mim).

(o * indica que a sentença não é aceita se se incluir o elemento entre parênteses.)

Essa já é uma grande diferença entre passivas e incoativas: passivas normalmente aceitam o agente adjungido, ao passo que incoativas não aceitam. Inacusativos também não aceitam agente adjungido, normalmente.

3) Eu caí (*pelo André).

4) As árvores floresceram (*pelo jardineiro).

Interessante notar que esses verbos normalmente podem ser passivizados, mas continuam não podendo receber o agente adjungido (particípio é uma forma apassivizada de verbos. Também chamada de passiva adjetival.)

5) Caída (*pelo André)

6) Árvores florescidas (*pelo jardineiro).

Por fim, temos a voz média, que parece bastante com os inacusativos e com a forma incoativa, porque não tem nenhuma morfologia no verbo. Entretanto, ele não pode aparecer puro (só verbo + argumento). O verbo “médio” tem que ser adornado por um advérbio, ou quantificador, ou operador de negação.

7) Essa roupa vende bem.

8) Esse bife não corta.

Essas estruturas são bem parecidas à priori, mas quando você vai analisar bem elas têm propriedades bem diferentes.

O primeiro teste eu já mostrei: ver se a sentença aceita um agente adjungido (“por agente”) como passivas verbais normais, ou se não aceita, como passivas adjetivais e inacusativos. Já vimos que incoativos não passam nesse teste. Médios também não passam.

9) Essa roupa vende bem (*por mim).

Esse resultado é bem estranho se você reparar que a leitura dos verbos médios é agentiva.

10) Essa roupa vende bem = é fácil para alguém vender essa roupa

Ainda tem a questão de verbos médios serem obrigatoriamente adornados, ou seja, não podem ocorrer sem um modificador.

11) *Esse bife corta.

12) *Essa roupa vende.

Essas são, basicamente, as diferenças entre as estruturas coletivamente chamadas “inacusativas“.

–> quer saber mais sobre o assunto? O livro do Mioto et al, Manual de Sintaxe, da Editora Contexto, fala sobre esse assunto de maneira bem didática. Pra quem lê em inglês, recomendo o Understanding Minimalism, de Hornstein, Nunes &  Grohmann (2005, não lembro a editora).


(NOTA DE ANDRÉ)

Por algum motivo de meu retardo mental, eu não tinha visto que este artigo estava pendente, quando era para ter sido publicado bem antes. Peço desculpas à Bárbara. Espero que tenham gostado do artigo. Menina Bárbara escreve com muito amor pra vocês. 🙂

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Sobre Bárbara Rocha

Quero ser linguista quando crescer.

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  • Almeida

    Menina Bárbara escreve com muito amor pra vocês.

    Percebi ao ver como ela transformou algo técnico/complexo em uma linguagem totalmente acessível e não-acadêmica, utilizando um tom coloquial, ágil e compreensível a todos.

    Português é isso mesmo, um código secreto que aos poucos vai se tornando acessível por nós. (;