Chimpanzés mudam de sotaque para fazer amigos. Sotaque?

Sim, sotaque. Lindo, não? Chimpanzé tem sotaque, e o pessoal do Tumblr vai alegar apropriação cultural! Claro, você deve estar se perguntando "como assim ‘sotaque’?". Muito simples. Eles não fazem gruuuuu-bruuuuuuuuuu de qualquer jeito (a onomatopeia é minha e eu digo que chimpanzés "falam" assim. Me processe!). Eles mudam suas entonações para se encaixarem em outro grupo social, o que poderia ser chamado de "sotaque", ou algo próximo a isso.

Examinando dois grupos de chimpanzés no Jardim Zoológico de Edimburgo, biólogos perceberam que eles passavam a grunhir da mesma forma em cerca de três anos. Coisa sem utilidade nenhuma, né?

Até poderia ser, mas isso explica um pouco sobre nós mesmos. Nos ensina como aprendemos a conviver com outras sociedades e moldar nossos modo de comunicação, de forma que fôssemos reconhecidos por outras tribos. De acordo com a pesquisa, uma das característica de destaque da linguagem humana é a nossa capacidade para fazer referência a objetos externos e eventos com símbolos socialmente aprendidas, ou palavras. Dessa forma, busca-se as origens filogenéticas dessa capacidade para uma compreensão abrangente da evolução da linguagem.

A drª Katie Slocombe é professora do Departamento de Psicologia da Universidade de York (a velha). Um dos seus focos de estudo é aprender como nossa linguagem evoluiu. Para tanto, ela estuda chimpanzés, e o que ela observou foi o exposto acima: quando grupos de chimpanzés se fundem, eles alteram os tons de seus grunhidos até que todos estejam grunhindo da mesma maneira. É como você sair do Rio de Janeiro, ir para a Paraíba e aos pouco adquire o sotaque local. Da mesma maneira, os locais falarão um pouco como você e se tivermos grandes grupos se misturando, a tendência é termos uma mistureba de sotaques. Por isso, que distinguimos nossos modo de falar do dos portugueses.

A questão é que a capacidade de modificar vocalizações de forma que se encaixassem em outros grupos sociais era tido como algo puramente humano, mas não é isso que aquela coisinha chata chamada "realidade" mostra. O estudo mostrou que as chamadas por alimentos dos chimpanzés não eram fixos em sua estrutura. Quando expostos a um novo grupo social, os chimpanzés eram capazes de mudar suas chamadas de forma a soar mais como seus companheiros de grupo.

Na pesquisa da drª Slocombe ficou demonstrado a aprendizagem vocal na estrutura acústica de grunhidos, quando diferentes grupos de chimpanzés em cativeiro conviviam juntos. Na sequência da integração dos dois grupos de chimpanzés adultos, a estrutura acústica de grunhidos para um alimento específico convergiram ao longo de 3 anos. Essa convergência acústica surgiu independentemente da preferência para a comida, e as análises da rede social dos chimps indicaram que isso só ocorreu após o estabelecimento de fortes relações de filiação entre os subgrupos originais.

Em outras palavras, quando diferentes grupos eram mesclados (um deles era holandês e o outro era britânico), eles começavam a interagir entre si, formando laços sociais, ou seja, ficavam amiguinhos. Houve, então, um estabelecimento de uma harmonia de sinais vocálicos, isto é, eles começaram, a "falar" de forma parecida (olhe as aspas. Eu sei que macaco não fala, seu macaco pelado!)

Chimpanzés têm grunhidos especiais para determinados tipos de alimentos, como se "inventassem" palavras para se referir a uma determinada guloseima (aprendi essa palavra com o desenho do Zé Colmeia!). Os pesquisadores analisaram como os grupos grunhiam quando queriam se referir a maçãs. As chamadas de alta-frequência de um grupo convergiu para o ruído de baixa afinação do outro grupo, de forma que houvesse uma harmonização de sons, até que eles eram idênticos.

A pesquisa foi publicada no periódico Current Biology, e tem videozinho.

O ancestral comum a Homo sapiens e o Pan troglodytes separou-se nos ramos que daria origem a essas espécies há cerca de 6 milhões e 400 mil anos. Mas algo entre nós ainda está lá. Nossas ligações sociais, nossas linguagens, nosso meio de estar em conformidade com outros de nossa espécie, ao invés de tentarmos nos matar mutuamente. Uma lição que a macacada aprendeu antes de nós. De repente, daqui a uns 6 milhões de anos a gente aprende, para depois o Sol engolir todo mundo.

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