Os antigos registros do câncer em cães

Pensamos que algumas doenças só acontecem com seres humanos, principalmente as DST – Doenças Sexualmente Transmissíveis. Muitos atribuem a isso a besteiras como pragas, pecados, maldições, despachos ou alguma entidade mágica que simplesmente não foi com a sua cara. Só que cães também têm DST. Alguns canídeos até apresentam uma forma de câncer transmissível, isto é, que seu querido Rex pode pegar da cachorra da vizinha (me refiro a outro canídeo e não fêmea de Homo sapiens que resolve ir pra baile funk).

Chegou-se a pensar que o câncer transmissível em cães fosse devido a alguma mutação recente, mas pesquisadores encontram evidências num passado mais distante que isso já ocorria.

A drª Elizabeth Murchison é geneticista do Departamento de Medicina Veterinária da Universidade de Cambridge. Ela estuda as incidências de câncer em cães mediante evidências fósseis e tenta entender como esta porcaria de doença vem evoluindo com o passar do tempo.

Há apenas dois tipos conhecidos de câncer clonal: um deles é o tumor facial que ataca o demônio-da-Tasmânia e o outro é o tumor venéreo canino transmissível. Enquanto que o tumor facial do demônio-da-Tasmânia é transmitido por mordidas, o tumor venéreo canino é transmitido durante o coito, obviamente. Em humanos, ainda não há documentação de câncer transmissível. [1] [2] [3]

No caso do tumor facial dos filhotes do Taz, o primeiro registro data de 1996, e o bicho já está mais do que ferrado perigando de ser extinto e este câncer não ajuda em nada. Você pode até clicar na imagem ao lado para ver maiores detalhes, mas fique avisado que não é bonito.

No caso dos cães, o câncer que ele desenvolve é do tipo tumor histiocítico, que abrange vários tipos de doenças[4] (e só de ler já estou sentindo os sintomas). No caso, o tumor pesquisado se espalha a partir de um cão para outro quando os cães têm relações sexuais[5] ou mesmo apenas tocar ou lamber uns aos outros. Normalmente, esse tipo de doença afeta cães de rua e, por isso, muitos donos não a conhecem.

O bizarro nisso tudo é que quando a equipe da drª Murchison examinou o DNA tumoral, encontraram vestígios de cães do passado, de cerca de milhares de anos! A estimativa, portanto, é que a origem do câncer transmissível dos cães esteja com seus parentes onde ainda não havia a separação entre cães e lobos (lembrando que cães e lobos pertencem à mesma espécie; e esse seu pérfido chihuahua aí é um irmão de um feroz lobo cinzento).

Como chegar nessa conclusão? Bem, tia Elizabeth colocou a peãozada para trabalhar e sequenciar o DNA de tumores de duas raças caninas: um cocker spaniel brasileiro – lindinho, fofinho e capaz de roer a sua casa toda – e um cão de um acampamento aborígene australiano (curiosamente, a única coisa lá que não é venenosa ou não está a fim de te matar… acho). Então, os vassalos de Elizabeth I compararam os padrões genéticos dos tumores com mais de 1.000 raças de cães modernos.

Praticamente, um trabalho de cão, que foi publicado na Nature.

A pesquisa aponta que o câncer contagioso apareceu pela primeira vez no primo distante do malamute-do-Alasca, que não era tão amigável quanto o atual malamute. Nada era amigável há 11 mil anos atrás. Sua importância é mais do que entender porque cães ficam doentes. Com os primeiros estudos sobre os tumores caninos, entendeu-se melhor como se dá o câncer nos seres humanos. Não que a doença de um pule pro outro. A probabilidade de você contrair algo do seu cachorro seria alguma doença em que ele é hospedeiro, mas não ficando doente propriamente dito.

Entendendo como funciona os tumores histocisticos, entende-se melhor o sistema dos fagócitos, e pode-se descobrir uma forma de enganar o sistema imunológico, o que pode ser de extrema importância para a saúde de nós, seres humanos.

Sim, tem videozinho (e sim, tem legenda em português):

2 comentários em “Os antigos registros do câncer em cães

  1. Existe um documentário sobre os taz que foi apresentado a algum tempo num dos canais tipo discovery e que mostra mais detalhes sobre esse câncer. É provável que essa mesma pesquisadora apareça lá, mas não me lembro mais.
    Essa palestra no Ted , como sempre, é muito boa. Espetacular essa organização do Ted. Inclusive ótima fonte de artigos.

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