Clérigo muçulmano diz que bebês devem usar burca, diz a imprensa. Melhor estudarem.

O problema do microcosmo dos revoltados é achar que qualquer coisa que sai na Internet é alguma novidade. Nisso gera-se ondas de protestos e revolta, para depois aparecer outro tema nos trend topics da vida e a revolta mudar de cenário.

A bola da vez é um clérigo muçulmano que deixou muita gente (desocupada) em polvorosa por ter afirmado que bebês deveriam usar burcas, a fim de escaparem do assédio sexual. Pronto! Os revoltosos tuiteiros, babando peçonha, resolveram mostrar o quanto são incultos xingando o cara no Twitter. Eu, não. Pois sou culto, sábio, incrível e fantasticamente modesto o suficiente para rir dessa indignação.

Primeiro de tudo, onde isso foi publicado? No Terra, o melhor exemplo de jornalismo [/sarcasmo].

Na matéria, o clérigo sheikh Abdullah al-Daud (sheikh – aportuguesadamente para "xeque" – não tem nada a ver com bebidas achocolatadas à base de leite. Sheikh é um líder tribal, um chefe  familiar ou escolástico, que se estudar mais um pouquinho ganha o título de Hakim, o equivalente ao nosso doutorado) foi entrevistado num programa televisivo e afirmou lá que bebês deveriam usar véu, para impedir a tentação de dar uns pegas nas crianças. Isso levou um monte de gente a xingá-lo pelo mundo afora, só que se você não percebeu ou não sabe o que a matéria tem de errado, vamos explicar por partes.

Quem é o quê?

Primeiro de tudo, burca não é véu. Logo, o título diz uma coisa e a matéria diz outra. Por que? 1) Porque jornalista é idiota e inculto em sua maioria; 2) "Burca" chama mais a atenção do que "véu".

Quem é quem nessa história?

De princípio nós temos 3 coisas diferentes: O hijab, o niqab, a dupatta e a burca. Eles não são a mesma coisa.

O hijab é um véu muçulmano usado originariamente tanto por homens quanto mulheres. Com o tempo, ele ficou preferível (mas não exclusivo) às mulheres. É um simples véu usado por muslimahs, as mulheres muçulmanas. Ele pode ser todo preto ou altamente decorado, muitas vezes com fios de ouro! Assim como os talliths dos judeus identificam bem o poder aquisitivo de seu dono, o hijab identificará como é a família da dona dele. Pois mulheres são mulheres e elas não andam com lavadeiras em casa, filho. É outro tipo de cultura (falarei disso mais à frente). O hijab apenas cobre parte da cabeça, escondendo principalmente o cabelo. Só isso, nada mais. Ele é mais usado em países árabes que não sejam muito rigorosos, ou quando a dona é muçulmana, mas não mora num país muçulmano radical ou sequer o país em que mora é muçulmano.

O niqab é mais comum em países como o Irã, cuja vertente islâmica predominante é a xiita. É uma vestimenta preta, cobrindo o corpo, a cabeça o rosto, deixando os olhos do lado de fora. Como eu sempre digo, mulheres são mulheres, e elas aproveitam e pintam bem os olhos, tradicionalmente com khol negro, uma espécie de delineador. O niqab mantém a mulher bem mais escondida e dificilmente em países ocidentais é visto, mas não são tão incomuns também. Basta ter em mente que se você andar em Sampa, e eu nem falo o bairro da Liberdade, você tropeçará num japa com mais frequência do que aqui no Rio. O fato de você não ver não implica que não existam.

A dupatta seria mais ou menos como um meio termo entre o niqab e o hijab. É um véu (que pode ser bem ornado) que cobre a cabeça e parte do corpo, mas não necessariamente o rosto. É mais comum mais pro lado do Paquistão, Índia etc.

A burca ficou famosa e é muito usada por mulheres pros lados do Afeganistão, mas as migrações trouxeram a cultura de seu uso para outros países islâmicos. É uma vestimenta que fecha tudo, tudinho. Não fica nem os olhos de fora, o que não impede das mulheres, em eterna competição, de comprarem burcas mais chamativas e decoradas do que as outras. Tudo depende de quanta grana você pode gastar.

Por que usar isso?

Basicamente, é uma questão cultural e não religiosa per se. No Alcorão não é dito que as mulheres devem andar embrulhadas. Lá é dito que elas devem se vestir com  pudor.

Alcorão Sagrado 24:31 — ‘Dize às fiéis que recatem os seus olhares, conservem os seus pudores e não mostrem os seus atrativos, além dos que (normalmente) aparecem; que cubram o colo com seus véus e não mostrem os seus atrativos.

Mesmo porque, no próprio Alcorão é dito o porque das roupas (qualquer uma delas):

Alcorão Sagrado 7:26 — Ó filhos de Adão, enviamos-vos vestimentas, tanto para dissimulardes vossas vergonhas, como para o vosso aparato; porém, o pudor é preferível! Isso é um dos sinais de Deus, para que meditem.

De onde veio isso?

Antes de criticarmos algo, temos que analisar os contextos. Maomé escreveu o Alcorão no século VII da Era Comum. A Idade Media mal tinha acabado de iniciar, Roma tinha ido pra vala e o Oriente Médio… bem, aquilo continuava o que sempre fora: um bando de tribos saindo na porrada entre si por causa de um punhado de areia, para saberem que estava menos fodido. Judeus? Eles já estavam lá pela Europa, pois se cansaram de bancar babá de cabras.

Maomé conseguiu unificar várias tribos (e matando desavergonhadamente quem não se submetia, que nem aquela história de Constantino vendo uma cruz nas nuvens e os dizeres In hoc signo vinces). Fazem uma ideia do Oriente Médio no século VII? Vou dar uma pista: Quando acabar o petróleo no Oriente Médio, é o que aquela porcaria vai virar: Tudo de volta pra Idade Média! Até mesmo os ricaços ainda vivem sob um regime tribal, pessoas são obrigadas a sair de casa fugidas por causa de filho matando o cunhado do vizinho, o vizinho se vinga matando os padrinhos dos primeiros e por aí vai.

Como o Alcorão foi escrito em meio à porradaria, os códigos de conduta visavam aquelas pessoas e suas realidades. A mulher não anda atrás do homem por causa de subserviência, apenas, e sim por causa de um hábito do homem ir na frente, com a mão na espada, a fim de proteger a família. Muitos destes costumes perduram até hoje, e eu conheço muita gente que não passa embaixo de escada, enquanto mulheres andam igual uns mondrongos em vestidos esquisitos, como o pessoal que frequenta a igreja da Assembleia de Deus, mesmo quando andavam com as vergonhas de fora antes da conversão.

O interessante é que as mulheres não reclamam de usar tanto o hijab quanto o niqab ou a burca. Se elas não se incomodam, porque você irá se incomodar, hein?

Mimimi, machismo.

Vai caçar uma roupa pra lavar, filha. Vou repetir: as mulheres islâmicas não se importam. Na cultura deles, as mulheres têm que estar bonitas, cheirosas, maquiadas e gostosas pros maridos e não você, que recebe o maridão vestida igual faxineira que cobra deiz real Elas até acham esquisito porque as mulheres ocidentais se vestem para agradar os outros (na verdade, para competir com as outras), e isso me foi dito por uma muçulmana. Quem sou eu para criticar?

Mimimimi, mas o cara falou de botar uma burca num bebê.

So what? Até parece que isso é novidade. Mas, tudo bem, vou lhe apresentar algo que você nunca ouviu falar: se chama "Google": [1] e [2] Ah, sim! Também temos o YouTube!

Agora, criticar porque o cara falou que usar o hijab previne que as crianças sejam molestadas até poderia ter algum fundo de bom senso, mas quem fala isso nunca teve filha. Eu, por exemplo, recebi muito bem o namorado da minha filha na primeira vez que ele veio aqui em casa. Ele também se portou muito bem. Não sei se foi por minha amabilidade ou pelo fato de eu estar afiando um facão (não, não estou contando lorota) quando ele chegou. Aliás, o facão foi presente do meu pai quando minha filha nasceu.

Enquanto isso, eu vejo gente postando foto de filha vestida de Slave Leia, e ninguém acha nada demais. Bem, entre um simples véu e vestir sua filha de dançarina de Pole Dance [1] [2], o que você prefere?

Resumindo: o alvoroço todo é apenas mais do mesmo.

4 comentários em “Clérigo muçulmano diz que bebês devem usar burca, diz a imprensa. Melhor estudarem.

  1. Excelente texto André, como sempre. Porém no terceiro parágrafo de “De onde veio isso?” parece que há uns erros de edição: um na palavra hábito, e outro no contexto depois de “Muitos destes costumes perduram…”

    Adorei a idéia (foda-se o acordo) do facão, preciso comprar dois :)

  2. Fiquei imaginando o André afiando o facão e perguntando para o namorado da filha; “- Você acredita em Deus, meu rapaz?” hehehe. Parabéns pelo site.

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