E o RNA viu que era bom e ficou satisfeito…

O chato de dialogar com pessoas com baixa escolaridade é ter que explicar milhões de vezes a mesma coisa. É tentar dizer que massa é uma coisa e peso é outra. É tentar dizer que vidro é uma coisa e petróleo é outra. É tentar dizer que seres humanos são uma coisa e um punhado de barro é outra. E mesmo assim a criatura de baixa escolaridade e sinapses faltando irá tentar dizer que maçã é alface, pois ambas são legumes.

Origem da Vida não é a mesma coisa que Teoria da Evolução, mas quem estudou num colégio sabe disso. As pesquisas são diferentes e não pelos mesmos cientistas, pois é difícil você levar uma pesquisa à frente, quanto mais várias pesquisas díspares. Nisso, pesquisadores estudam a interação de moléculas de RNA como catalisadores, de forma que eles foram pontos fundamentais para o surgimento da vida. (sim, eu sei que isso abala convicções).

O dr. Niles Lehman é tão badass que tem um laboratório com o nome dele na Universidade de Portland. Eu que sou eu não tenho um laboratório com meu nome lá. Lehman foi o chefe de uma pesquisa que visava entender como aconteceu os primeiros momentos de moléculas auto-replicantes. Uma molécula auto-replicante é aquela que faz cópias de si mesma, gerando outra molécula igual. [In]felizmente, essa cópia é imperfeita, e de "imperfeição" a "imperfeição", num piscar de olhos (em termos cósmicos) estávamos aqui, destruindo o mundo.

A pesquisa do dr. Lehman e seus colaboradores estuda as atividades bioquímicas do RNA, onde ele coopera de formas diferentes de maneira a catalisar as reações. Catálise é o processo onde uma substância (oi catalisador) acelera ou mesmo permite que determinada reação química ocorra, diminuindo o pico de energia necessária para que esta reação aconteça, entre outros fatores. Maiores informações sobre catálise no Ensino Médio mais próximo de você.

Os pesquisadores publicaram um artigo que sugere que é bem possível ter havido uma população de moléculas de RNA distintos que podem cooperar para catalisar reações que aumentam a população. Misturando-os numa espécie de ensopado bioquímico, as moléculas de cooperação acabam tendo um resultado na replicação muito superior que moléculas que "trabalham" de modo separado.

‘Guenta aí! O que isso está acarretando? Evolução? Não estamos falando em Origens da Vida? Não são duas coisas diferentes?

Sim e não.

O que estamos vendo aqui é competição de recursos em níveis moleculares. As moléculas competem por recursos, mas quando eu digo isso ela não está à caça de alimentos como um leão e uma hiena saindo na porrada por causa de um búfalo. Simplesmente, as populações que operam de modo semelhante acabam tendo mais chances de seguir adiante, sem entrar em algum beco evolutivo (mas isso não é regra), do que uma molécula lá, isolada e sozinha. Se essa molécula der alguma bandeira e não conseguir condições de se auto-replicar, ela simplesmente deixará de existir. É Seleção Natural em microescala? Pode-se dizer que sim, mas não tem as inúmeras variáveis ambientais pelas quais todos os seres vivos passam.

Outrossim deve-se ter em mente que não temos uma espécie, pois não temos um ser vivo. Um pedaço de RNA não é ser vivo, e mesmo o conceito de ser vivo é passível de discussão. Então, o problema maior está na pergunta: quando um monte de substâncias não-vivas passam a ser algo vivo? A resposta mais honesta é "não se sabe ao certo". Claro que uma pedra é um ser bruto e jamais deixará de ser… bruto. Isso porque seus constituintes não são os mesmos de uma proteína. Um granito tem muitos componentes, mas nenhum deles é, em termos naturais, uma proteína ou aminoácido. O granito é formado por substâncias inorgânicas, como o silício, sódio, potássio, cloretos etc.

Então, temos um processo semelhante ao processo evolutivo nos seres vivos, mas não é a Evolução dos seres vivos, pois não há nenhum ali. O que temos é o fundamento bioquímico do que acontece em nível molecular, que em imensa escala é o que acontece com entidades biológicas, desde fungos até a baleia azul. É a Evolução sendo provada mais uma vez, apesar de isso já não ser mais novidade.

No estudo, os cientistas analisaram uma enzima, a ribozima, que atua como montadora de RNA, ajudando a molécula se auto-reparar e se remontar, criando cópias de si mesmas, como se eu desse um lego para uma criança de 2 anos e ela fosse juntando um no outro. A criança não é algo que poderíamos chamar de "projetista". Ela simplesmente liga uma peça na outra e tentará fazer algo igual. Claro que uma peça ou outras é ligada errado e o equivalente disso é uma mutação.

Lehman e sua equipe perceberam que, se você alterar a sequência de bases no sítio catalítico – onde toda a ação está acontecendo –, a ribozima pode começar a reparar rupturas em uma sequência de correspondência diferente, que é como a criança da analogia que usei acima. Como não há projeto inteligente nenhum, as coisas se dão de forma aleatória, onde a montagem poderá ou não ter condições de se manter, dependendo do meio circundante.

Com três conjuntos de moléculas partidas, elas acabaram surpreendendo, pois era mais fácil e com menor gasto de energia reparar o colega do lado do que depender de todo o processo para si mesma. No final, teremos 3 moléculas que ajudaram umas às outras a se remontar, criando cópias inteirinhas de si mesmas antes de terem sido quebradas, reforçando o conceito dos jogos cooperativos, que normalmente ignoramos ao jogar paintball. As moléculas são mais espertas que nós, mas não se divertem tanto quanto.

A pesquisa foi publicada no periódico Nature, e mostra que demos um passo à frente em saber como aconteceu os primórdios do primeiro ser vivo, bem como entender mais um pouco os meandros do processo evolutivo.

2 comentários em “E o RNA viu que era bom e ficou satisfeito…

  1. Em que ponto será que o genoma primordial deixou de ser RNa e foi transformado em DNA?

    Será que seria possível investigar tal acontecimento? Algumas coisas parece que nunca saberemos.

    Eu imagino que os vírus com código genético baseado em RNA são descendentes de proto-biontes que nunca evoluíram código genético baseado em DNA.

    1. @saguhh00, há uma corrente* entre os cientistas que acredita que as primeiras “reações auto-sustentáveis”, com capacidade de replicação, não eram RNAs.

      Lembro que li isso uma vez na Scientific American (era um especial sobre teorias de criação, de surgimento do universo, etc.**), de que não existia o tal mundo de RNA, de que o RNA/DNA teria surgido bem depois: como uma espécie de aumento de complexidade.

      O artigo fala sobre isso e também disserta sobre a definição de vida, que seria algo como “sistema auto-sustentável capaz de passar por evolução Darwiniana”, ou algo assim. Eu particularmente gostei da definição, pois pode representar muitos outros tipos de vida além dos quais a gente conhece.

      * weasel words, citation needed :-)
      ** não pode usar a palavra teoria, se não um criacionista pode aparecer aqui e falar “eu te disse!” :-)

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