Uma fofoca sobre a privacidade

O ser humano é peculiar em suas ambiguidades e contradições. Trazemos dentro de nós características que agem em conflito em termos lógicos, e nada é mais ilógico que um ser humano, Jim. Grosso modo, queremos algo para nós mas sem desejar que outros o tenham. A privacidade é uma delas e, recentemente, muitas pessoas andaram reclamando pelas interwebs sobre o fato do iOS (sistema operacional dos dispositivos móveis da Apple) guardar informações de seus donos. O Império contra-atacou dizendo que a empresa Google obtém muito mais informações e o próprio Facebook é um deleite para saber da vida alheia. Isso parece ter razão, mas se atentarmos para nosso modo de vida, veremos que é paranoia idiota; pois, se idiota não fosse, paranoia não seria.

A necessidade de saber das coisas, de ter informações, apareceu junto com as primeiras civilizações organizadas. Quando você é um capiau criando galinha e plantando seu milhozinho sossegado, pouco importa o que seu vizinho (outro capiau, mas morando a 100 km de você) faz ou deixa de fazer. Entretanto, quando você e seus amigos começam a se organizar em uma tribo, percebe que outros podem se reunir em uma tribo também. O detalhe (e o diabo sempre se esconde nos detalhes) é que a outra tribo pode ter interesses que entrem em conflito com os seus próprios interesses. Podemos levar em conta a necessidade de água, pois ela é a mola mestra de um desenvolvimento social, posto que é a base de qualquer logística para prover alimentos. Quem dominar melhores mananciais de água estará em maior vantagem e ninguém quer estar em desvantagem. Dessa forma, muitas guerras surgiram por causa de água, do fogo, da rainha de Esparta e da morte de 6 milhões de judeus e um palhaço.

Sun Tzu, em A Arte da guerra, já dava o maior valor à espionagem e como ter informações sobre o movimento dos inimigos era crucial para vencer uma guerra. Claro que espiões nunca eram (e ainda não são) bem vistos e a pena, invariavelmente, era uma morte bem feia. A atividade dos espiões é tão séria que fez até rainhas perderem a cabeça — e Mary da Escócia é um bom exemplo disso, quando sir Francis Walsingham interceptou todas as suas cartas, onde planejava passar — entre outras coisas — o rodo em Elizabeth I, tão impiedosa quanto feia.

Junto com a necessidade de saber o que se passa no reino vizinho, surgiu a necessidade de não deixar que os outros saibam nada. Daí, temos a contra-espionagem, coisa que os tommies mostraram ser superiores aos krauts, coletando e decifrando as mensagens sigilosas do Alto Comando Alemão. Um dos responsáveis por isso foi Allan Turing, cujo reconhecimento foi ser preso mais tarde por ser homossexual, sofrendo torturas psicológicas e acabou se suicidando, só sendo reconhecido décadas depois.

Do mesmo modo que fuxicaram a vida dos oficiais da SS, fizeram com Turing. Seus passos eram anotados e suas atividades pessoais eram monitoradas. Ninguém dava a mínima para um dos princípios mais fundamentais da psique humana: a privacidade. Desde oficiais do exército até mega (ou nem tanto) celebridades, todo mundo quer saber o que o vizinho faz, mas não quer que o mesmo vizinho saiba do que você faz. Ninguém quer ser vítima de fofoca, querem saber da fofoca alheia. A espionagem que Turing combateu foi a mesma que o condenou, só que vindo de sua própria pátria.

A vida é irônica… Terrivelmente irônica.

A existência de um senso de privacidade entre as culturas e épocas diferentes é, o mais das vezes, afirmado ou negado em quantidades próximas, mas não há muita coisa que evidencie um ou outro. A verdade é que só damos valor à privacidade porque nascemos num mundo de segredos e mexericos. Mesmo porque, não haveria mexericos se não houvessem segredos.

Usamos roupas, fechamos a porta de nossos quartos, usamos senhas de acesso, aplica-se maquiagem, chapéus, óculos escuros e outros subterfúgios idiotas para que as pessoas possam se esconder, sendo que o que queremos é justamente o contrário, pois todo mundo quer se esconder e se mostrar ao mesmo tempo. É meio como aquelas meninas que usam saias curtíssimas e ficam puxando-as pra baixo assim que alguém começa a olhar as suas pernas. Mas se não queriam que alguém olhasse para suas pernas, porque não usam calças compridas? O mesmo acontece com decotes, onde algumas senhoritas usam pequenos pedaços de tecido a fim de esconder o mínimo possível dentro das normas de retidão (e fugindo de serem presas por atentado ao pudor), onde seus belos (ou nem tanto) seios quase saltam para fora dizendo "HELLOOOOOOOO", mas ficam indignadas se alguém para mais do que 2 segundos para olhar para o cumprimento caloroso que suas partes hipodérmicas parecem nos dar. (não sei se isso acontece com os homens, não me preocupo em olhar para eles.)

Uma das maiores fontes de indignação nos Orkuts da vida é quando a pessoa coloca cadeado em suas fotos. Mas as fotos são para quem? Supõe-se que seria para você compartilhar com seus amigos e não dispô-las a olhos públicos, porque ninguém troca de roupa com a janela escancarada. Se bem que eu tive uma vizinha certa vez que… Bem, melhor deixar isso pra lá. O que se evidencia nesse caso é a necessidade de saber os segredos dos outros, mas zelando-se pela privacidade. Só que, conforme avança a tecnologia, o conceito de privacidade está perdendo o sentido. Há a preocupação que o Oráculo da Internet (aka Google) sabe de seus passos, quem são seus contatos (Orkut etc), onde você vai (Google Maps), quais são seus gostos (mediante pesquisa na Internet), com quem você fala via Gtalk, qual celular você usa (e se você usa com SO Android, piorou!) quais são suas preferências sexuais etc. Isso é preocupante? Não, você é que é um paranoico sem ter o que fazer.

Estudo de casos

1º Caso — Vá a um banco (ah, sim, eles sabem onde você tem conta, qual o número e possivelmente colocaram um keyloggger no seu micro e estão distribuindo as sex-tapes que você fez com sua faxineira de 100 quilos e 70 anos) e fique na fila. Em alguns minutos você estará conversando com alguém e fatalmente esta pessoa falará algo de sua vida pessoal. Se estiver de uniforme, saberá onde ela trabalha. Uma discreta olhada no cartão/conta etc dela e você saberá o nome completo, o que poderá retornar pesquisas interessantes, mas não usemos a Internet ainda. Entretanto, você pode não querer falar nada com ninguém, mas não será difícil escutar a conversa dos outros. Fique na fila do caixa eletrônico e veja que em determinado momento alguma velhinha lhe pedirá para ajudá-la com aquele monte de números. Pronto! Você saberá da conta dela, saldo, CPF e até poderá trocar pelo seu cartão afim de roubar a distinta coroa (a não ser que ela seja a Miss Marple. Daí você estará ferrado!)

2º Caso — Você está placidamente sentado na sala quando o telefone toca. É o banco XYZ lhe oferecendo muitas vantagens se você quiser um cartão de crédito. Você já parou para pensar COMO o telemarketineiro conseguiu o seu número de telefone? Ah, sim, pelo catálogo! Mas meu número não consta na lista, então seria impossível que soubessem meu nome completo e número de telefone. Aliás, foi muito divertido um dia eu bancar o irritado e querendo saber quem era o cara e como ele conseguira o número, além de dizer que meu telefone estava grampeado e terminando com DEVOLVA O MEU FILHO!!!!!!!!!!!!!!

3º Caso — Você já parou para pensar no seu imposto de renda? Ele passa pelas mãos (ou computador) de um monte de gente, inclusive algum zé ruela com Ensino Médio que escreve "mais" no lugar de "mas", participa da comunidade do Coringão no Orkut e finge trabalhar quando seu chefe está por perto (que nunca está por perto, posto que não está trabalhando também), e que corre pro MSN assim que a barra estiver limpa (desde que chega ao trabalho até a hora de ir embora).

4º Caso — Seu carteiro sabe seu endereço, as empresas de venda pela Internet sabem endereço, telefone, CPF, número do cartão, para quem você dá presente (incluindo aquela santa senhora que mora em um sobradinho, e que você esconde de sua mulher), nome da mãe, pai, antecedentes criminais e se você comprou uma lingerie sexy, mas só na época do carnaval onde sairá pulando que nem uma doida varrida, para depois seu médico saber que você ficou grávida, mas a mocinha jurará de pé junto que é a segunda vinda do Messias, posto que não conheceu homem nenhum. Seu jornaleiro sabe quais os jornais que você lê e as revistas que você compra. A menina do mercado sabe o que você costuma comer na sexta à noite e a caixa da farmácia sabe se você está naqueles dias ou pretende fazer uma festinha pro seu namorado.

Não há privacidade, não há segredos. O que existe é que você é tão desinteressante que ninguém se liga mais do que 2 segundos na sua vidinha insossa. Você não é BBB, não tá "pegando" nenhum(a) famoso(a), não se destacou em nada e é apenas mais um anônimo na multidão que não merece atenção nem da sua tia Carolina, quanto mais da vendedora da bombonière que pouco se lixa se você está triste e resolveu tomar uma overdose de chocolate. Você não é nada, não tem valor algum e pouco é de interesse ao flanelinha que tirou dinheiro de você. Você deu o dinheiro, ele esqueceu. Não deu, ele rasga seu pneu e ainda assim te esquecerá, posto que você é ridiculamente inócuo, com uma vidinha miserável que não tem razão de ser e ninguém dará a mínima se morrer hoje ou daqui a 20 anos.

Depressivo? Ué, mas vocês não queriam privacidade? Não queriam ser anônimos? Não, não queriam. O que querem é se destacar na multidão e é por isso que colocam tudo de suas vidas nas redes sociais, indicando onde comem, usam o Forsquare para que outros saibam que você foi ao cinema, coloca no Twitter que comeu lasanha ou que acordou naquele momento, muda o status do Facebook para que saibam que você está namorando fulaninha ou tomou um balão de fulaninho. Coloca suas fotos sensuais (ou nem tanto) para que se destaque e ficará putinho(a) se elas forem parar no Pérolas do Orkut, mas ainda assim estufará o peito sabendo que foi celebridade, pois é o máximo que chegará perto.

O jogo da privacidade é o controle onde você quer saber dos outros o máximo possível e mostrar de si mesmo o mínimo possível. Mas sem desestimular, então é aquele jogo da mini-saia ou do decotão que eu citei antes.

Se sempre conseguíssemos nos esconder, crimes seriam insolúveis e sempre conta-se com a indiscrição das pessoas para se chegar à verdade dos fatos. O preço da Liberdade é a eterna vigilância. No futuro, imagino, tudo isso será tão comum que ninguém perceberá. Só damos valor à privacidade (que não existe, conforme demonstrei acima), porque fomos criados nesse meio. Nossos filhos e netos nem perceberão e se andarmos por aí em uma cidade repleta de câmeras, com câmeras nos vigiando 24h por dia, 7 dias por semana, não será nada demais. Eles crescerão num meio que parece o pesadelo que os escritoes de ficção científica tanto temiam, mas é para lá que vamos, pois a tecnologia não pode ser desinventada. A natureza curiosa do ser humano não pode ser desfeita.

Será um admirável mundo novo com irmãos zelando uns aos outros, mesmo sabendo que alguns irmãos são mais iguais que os outros.

31 comentários em “Uma fofoca sobre a privacidade

  1. Ainda bem que sou daqueles que pouco se importa se souberem quem sou. Afinal, sou pobre, morador em outro país, a maior parte da família moram aqui… E… Estou cagando e andando pros outros. Não ganho nada com isso.

    Bem, querer saber da vida dos outros na atual sociedade é coisa de espectador de BBB ou coisa de adeptos da lei de Gerson.

  2. Pior que não ter privacidade, é o fato de que o dado que se expõe hj, certamente não poderá ser inibido no futuro. A informação que se despeja neste mundo “se perde”. Acha quem for capaz e a usa quem for esperto.

  3. Tenho essa neurose. Faço perfil em local xyz, tranco tudo e só aceito amigos. Minha maior extravagância foi um MySpace para ter contato com a cantora ANZA e a banda Head Phones President.

    Mas ainda quero entender o que leva tantas pessoas exporem-se sem qualquer limite pela internet. Sejam vídeos, sejam fotos, sejam textos, sejam perfis. Como pode a pessoa querer se expor tanto? Depois não sabe lidar com o apedrejamento e vira a “madalena” da questão. Ah vá.

    O bom é saber que isso não acontece só no Brasil. Quer dizer, estamos no top3, mas que bom que outros paises tenham a mesma vergonha. Shame on us together.

    Seu texto me lembrou tanto Orwell e 1984. E o final me trouxe saudade do Bola de Neve :/

    1. [quote]Será um admirável mundo novo com irmãos zelando uns aos outros, mesmo sabendo que alguns irmãos são mais iguais que os outros.[/quote]

      você quis dizer: China

      1. Não, não quis. Estava me referindo a todas as pessoas que tomam conta da sua vida e os funcionários de todos os órgãos públicos que têm acesso a seus dados. Ou vc acha que isso não existe aqui no Brasil?

        1. @André, Sim, verdade, mas lembrei-me de uma conversa que tive com alguem que frequenta o dito país. Lá é dever cada um bisbilhotar a vida alheia. Quanto a nós, estamos fazendo o dever de casa direitinho. Mas curiosamente todo dia eu sinto que alguem do controle de transito registra diariamente o percurso que faço com meu carro, ja que Volta Redonda está infestada de câmeras de vigilância da prefeitura e algum belo dia serei parado pra perguntarem o que significa aquele adesivo do FSM (Rámem) no para-brisa.

          1. ja que Volta Redonda está infestada de câmeras de vigilância da prefeitura e algum belo dia serei parado pra perguntarem o que significa aquele adesivo do FSM (Rámem) no para-brisa.

            Você quis dizer: Cingapura?

  4. Vale o velho ditado, quem não deve não teme. Mas como quase todo mundo deve….

    A maior de todas as invasões de privacidade, ao meu ver, é o deus pessoal. Que te espiona e vigia insistentemente. Que coisa mais horrível !!! Me lembro perfeitamente, quando eu ainda era criança, que a idéia de alguem vigiando meus atos 24 horas por dia era algo incrivelmente perturbador. Ainda mais quando queria fazer “coisas” escondido no banheiro. Achava até que meu falecido avó também podia me vigiar. Lógico, depois do que minha mãe me disse, que criança não ficaria com medo ???

    Com o tempo e estudo, percebemos (nem todos) que quem nos vigia é nossa própria consciência, nada mais.

  5. È igual aquele ditado que diz que mulher se enfeita para outras mulheres…, bom é para os “adivinhadores” que com um simples conhecimento virtual, podem continuar impressionando as pessoas, mas sou a favor da vigilância eletrônica nos grandes centros, privacidade eu considero dentro de minha casa, sem ligar internet e afins, no mas, o resto é lorota.

  6. Fofoca: as rações de chocolate da Mari e do Nihil são maiores que as de todos nós (primeiro mundo); Joseph K recebe um pouco menos; Renato Kistner, que é advogado, recebe o dele e mais um percentual do dos outros (sucumbência). André é o pica-pau, divide tudo certinho: ‘um prá vc, um prá mim; dois prá você, um, dois prá mim; três prá você, um, dois, três prá mim…’

    1. @Fátima,
      Segundo notícias do Ministério do Amor, em razão da Grande Guerra contra a pobreza, a ração de chocolate sofrerá nova diminuição.
      Fofoqueiros de plantão dizem que estamos perdendo a Guerra, mas isso é mentira, e a ração de vodca será aumentada de 10 para 8 unidades.

        1. @Nihil,
          Leite? Não, “gin Vitória”.
          Agora que a “Guerra Contra a Fome” está perto de ser vencida, com nossos exércitos alimentados pelo nosso Grande Irmão Governo Brasileiro, a ração de vodca será novamente aumentada de 8 para 7 unidades.

          1. @Nihil,
            1984 na veia. Duplipensar. Orwell. Melhor parar com o desvio, antes que sejamos atingidos por uma placa de “PARE”. ;-)

  7. “…até poderá trocar pelo seu cartão afim de roubar a distinta coroa (a não ser que ela seja a Miss Marple. Daí você estará ferrado!)”

    Não tem nada errado não?

  8. Estive pensando de novo neste assunto há alguns dias.
    Achei o texto divertido e me deleitei com ele.

    “Depressivo? Ué, mas vocês não queriam privacidade?”
    Eu ri mais com este parágrafo: essa conclusão é tão irônica e tão óbvia! :lol:
    É engraçado: eu não tenho orkut, facebook, blog… o máximo que tenho é e-mail. Mas eu admito que gosto de me comunicar por aqui. Já percebi que alguém tem que dar o braço a torcer e se expor primeiro… demostrar confiança, para que outros confiem e também se exponham. Sem isso, ainda assim pode haver comunicação, mas não vai ter lá muita graça, né?!… :cool:

    1. @Márcio, O que percebo sobre essas coisas de orkut, facebook e derivados é que as pessoas querem se expor “como pessoas legais”, querem comunicação, querem 15 minutos de fama, precisam de popularidade, quero um diario, etc. O problema é que o que foi legal fazer hoje pode pegar mal amanhã, mas seus rastros estão lá pra todos verem. Foi interessante ver um esporro que um colega tomou uma semana depois de ter quebrado uma cadeira aqui no trabalho; a secretária descobriu que o camarada participava de uma comunidade no orkut chamada “Eu adoro ficar rodando na cadeira do escritório”.

      1. Hahaha! Boa essa comunidade, não?
        Hoje em dia, se você é dado a certas brincadeiras, você tem que ficar esperto, pois qualquer um tem um celular com câmera e gravador e você pode virar um astro do ParTOBA da noite pro dia. Já eu tenho que tomar cuidado com a patrulha do politicamente correto… :twisted:

        Bons tempos em que a memória não era virtual e se podia apagar com álcool. :mrgreen:

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