Livro aponta compaixão abolicionista como fonte da teoria da evolução por seleção natural

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Por Marcelo Leite
Folha de São Paulo

Os 200 anos de nascimento de Charles Darwin forneceram ocasião para um frenesi editorial. Celebrou-se a efeméride sobre o único grande pensador do século 19 a atravessar o 20 incólume, ou bem adaptado, com dezenas de livros. Darwin foi exumado, de novo, para demonstrar o excelente estado de conservação do mito do cientista guiado apenas pelas luzes da razão e dos fatos.

Eis o homem cujo pensamento pôs a religião de joelhos. Aquele que expulsou os vendilhões de valores do templo do conhecimento objetivo. O profeta barbudo da teoria que tudo explicou e tudo explicará, muito além de Marx e Freud.

Felizmente há historiadores na praça, como Adrian Desmond e James Moore. Autora de uma já celebrada biografia de Darwin (“A Vida de um Naturalista Atormentado”, 1994), a dupla produziu aquele que poderá permanecer como o livro mais importante da safra de 2009, “A Causa Secreta de Darwin”. Uma tijolada de 485 páginas na vitrina de cientificismo em que se converteu boa parte da divulgação científica.

Leitura obrigatória, em especial para brasileiros. Desmond e Moore (D&M) põem no meio do salão vitoriano o preto que muitos nacionais ainda relutam em admitir no sofá da casa grande. A obra fundamenta a tese de que a senzala brasileira, afinal, pode ter sido tão importante para a teoria da evolução quanto as ilhas Galápagos. Na origem de tudo, a escravidão.

Os primeiros capítulos de D&M trazem uma detalhada reconstituição da militância abolicionista das famílias Darwin e Wedgwood, nas quais Charles cresceu e se casou (com a prima-irmã Emma). O tio Josiah Wedgwood, responsável por convencer Robert Darwin a permitir o embarque do filho no navio Beagle, candidatou-se ao Parlamento só para defender a causa.

Da fábrica de porcelanas Wedgwood saíra, já em 1787, por obra do avô de Darwin, um medalhão cuja venda angariava fundos para a abolição do tráfico de escravos. Trazia a inscrição “Não sou eu um homem e um irmão?” sobre a figura de um negro de joelhos, com as mãos acorrentadas. É a ilustração ideal do fulcro da tese de D&M: todo o pensamento de Darwin gira em torno da unidade da espécie humana, irmanada por um ancestral comum.

Esta convicção moral, para os autores, foi a matriz de “A Origem das Espécies”. Dela brotou a ideia de diversificação a partir do tronco único da Árvore da Vida. Era também a questão que galvanizava o debate entre abolicionistas, defensores da espécie humana única, e escravistas, adeptos da noção de espécies separadas.

Esse debate foi travado nas trincheiras da ciência. Uma lista impressionante de nomes nele se engajou. Darwin não raro estava no centro da controvérsia, conspirando ou altercando com boa parte deles: Charles Lyell, Alfred R. Wallace, Louis Agassiz, Thomas Huxley, Ernst Haeckel, Arthur de Gobineau, e por aí vai.

D&M compõem um panorama fascinante da cultura do século 19 anglo-saxão no momento em que se produzia o cisma entre antropologia física e cultural. Darwin participou com vigor, movido por uma indignação trazida do berço, mas reforçada com a experiência direta da crueldade da escravidão no Brasil. Na velhice, ainda se lembrava com desgosto dos gritos de um negro seviciado em Pernambuco e da separação de pais e filhos para a venda no mercado do Rio de Janeiro.

Valores

A tese central do livro já seria suficiente para adicionar um grão de sal ao credo ainda tão em voga de que não há lugar para valores na ciência natural. Calhou de Darwin estar certo, mas não por ter se orientado exclusivamente pela bússola das evidências naturais. Pintá-lo como o campeão da razão objetiva em combate contra a superstição religiosa resulta numa falsificação grosseira. O materialismo naturalista era seu método, não sua crença.

D&M vão além. Darwin seria movido não só por uma convicção abstrata, mas também por um sentimento mais visceral: compaixão. Esta subtese, pouco desenvolvida no livro, sugere que Darwin, mais até do que animalizar o homem, estendeu as raízes do humano em direção aos animais.

De um lado, Darwin buscou nas emoções baixas dos primatas, e mais atrás, as origens das elevadas faculdades humanas. De outro, explicou a existência de raças na espécie humana – talvez a sua maior dificuldade – como produto de instintos inferiores, pelo mecanismo da seleção sexual. Nada de essencial nos separaria das bestas.

“Dois assuntos que comoviam meu pai talvez mais profundamente do que quaisquer outros eram a crueldade com animais e a escravidão -sua ojeriza por ambos era intensa, e sua indignação era avassaladora em caso de qualquer leviandade ou falta de sentimento nessas matérias”, testemunhou o filho William em 1883, como destacam D&M no capítulo final de “A Causa Secreta”.

O biocientista pós-moderno, avesso a todo “sentimentalismo” e interferência de valores “ideológicos” na pesquisa, terá alguma dificuldade de reconciliar esse outro Darwin com seu mais celebrado herói.

“Darwin’s Sacred Cause. How a Hatred of Slavery Shaped Darwin’s Views on Human Evolution” (“A Causa Secreta de Darwin. Como o Ódio à Escravidão Conformou a Visão de Darwin sobre a Evolução Humana”) Adrian Desmond e James Moore. Houghton, Mifflin Harcourt, 485 págs., US$ 30,00.

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Sobre André Carvalho

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