Pesquisa mostra que Ômega-3 é muito bom pro cérebro, mas não é essa Coca-Cola toda que vendem

Sabe as pessoas que dizem que envelhecer é ótimo e que a vida começa aos 40? Pois, é: elas mentem. É legal envelhecer quando se é rico e a vida começa aos 40 para quem acabou de receber herança. Se você tem que levantar cedíssimo para ir trabalhar, Guess what, não vai ver nada de maneiro. Some-se a isso o que vendem de lindo, maravilhoso, incrível e cheiroso: aqueles produtos mágicos que prometem zilhões de coisas, prosperando no cruzamento entre o medo de envelhecer e a fé na embalagem: os suplementos para o cérebro.

O rei dessa corte é o óleo de peixe, aquela cápsula translúcida que mora no armário de milhões de pessoas com a promessa tácita de manter a memória onde a deixamos. Só nos Estados Unidos, o gasto com suplementos de ômega-3 passa de US$ 1 bilhão por ano. Promessa de rótulo e evidência clínica, porém, são primas distantes, e de vez em quando alguém tem a má educação de convidar as duas para o mesmo experimento.

Foi o que fez um grupo da Universidade do Sul da Califórnia. Os pesquisadores submeteram o óleo de peixe a um ensaio clínico randomizado, duplo-cego e controlado por placebo, para descobrir se doses altas de ômega-3 protegem o cérebro de idosos sob risco de Alzheimer. O óleo cumpriu a parte logística, mas a memória não foi buscar o presente.

O dr. Hussein Naji Yassine é endocrinologista da Keck Medicine da Universidade do Sul da Califórnia (ou Califórnia do Sul. Escolhe aí você) e diretor do Center for Personalized Brain Health. Ele divide o tempo entre atender pacientes hospital e investigar como o cérebro absorve e usa nutrientes como o ômega-3, e tenta achar algum uso real disso. O resultado não são animadores para que acha que isso é fantabulástico.

Vamos aos números, menos poéticos que a propaganda, porém mais honestos. A equipe recrutou 365 adultos de 55 a 80 anos que raramente comiam peixe (principal fonte dietética de ômega-3) e tinham risco elevado de Alzheimer. Quase metade, 47%, carregava a variante APOE4, o mais forte fator genético conhecido para a forma tardia da doença. Ter o gene não é sentença, é só um bilhete de loteria no qual ninguém queria ter apostado.

Os voluntários foram sorteados para receber, todos os dias, 2.000 mg de DHA, o que você conhece como “ômega-3” e que compõe as membranas dos neurônios e ajuda na comunicação entre eles, ou um placebo. Nem participantes nem cientistas sabiam quem tomava o quê, o que é a essência do duplo-cego e o jeito mais elegante de impedir que a esperança se passe por resultado.

Antes de perguntar se funcionava, convinha saber se o DHA chegava lá. A resposta veio do líquor, o fluido que envolve e protege cérebro e medula. Após seis meses, o DHA ali havia subido, em média, 17% entre quem tomava o suplemento. Entrega concluída, motoboy exemplar, 5 estrelinhas! O problema começa depois da portaria: nos testes de memória e raciocínio, aplicados no início e ao fim de dois anos, o grupo do óleo de peixe não foi melhor que o do placebo. E o hipocampo, região central para formar e organizar memórias e uma das primeiras vítimas do envelhecimento e do Alzheimer, encolheu do mesmo jeito.

Isso faz do ômega-3 uma fraude? Longe disso, e os autores fazem questão de dizer. O estudo mostra apenas que altas doses de DHA, tomadas isoladamente, não protegeram contra o declínio cognitivo nem contra a perda do hipocampo naquele grupo. Nutriente essencial não é sinônimo de nutriente protetor em megadose, a mesma lógica pela qual precisamos de ferro e ninguém sai mastigando prego atrás de superpoderes. Atribui-se a Hipócrates a ideia de que o alimento deve ser o remédio (a autoria é duvidosa, mas a ideia sobrevive).

Yassine e seu pessoal suspeitam que o ômega-3 funcione melhor dentro de um padrão alimentar completo, como a dieta mediterrânea, com peixe, vegetais, frutas, grãos integrais, leguminosas, nozes e azeite, associada a menor risco de Alzheimer. Lá os nutrientes chegam em sociedade, não em solitário. Os pesquisadores investigam agora como saúde geral, dieta, genética e idade alteram a capacidade do cérebro de aproveitar esses ácidos graxos e trabalham em medicamentos que o ajudem nisso.

A recomendação final não rende capa de revista: exercício regular, sono de qualidade e alimentação equilibrada. Yassine compara o cérebro a um carro, que perde desempenho quando a manutenção é negligenciada, e a ironia de falar em troca de óleo num estudo sobre óleo é deliciosa. Vale lembrar que esses hábitos não foram testados no ensaio, são a aposta mais promissora dos autores. A pílula que vira gênio continua sendo roteiro de Sem Limites, e a cápsula, por mais bem-intencionada que seja, não substitui uma vida bem vivida.

A pesquisa foi publicada no periódico eBioMedicine.

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