
Houve um tempo em que a pior coisa que uma bactéria podia fazer com você era destruir sua caravana de carroças em plena Oregon Trail, com aquela mensagem inesquecível avisando que alguém havia morrido de disenteria. A disenteria, aliás, sempre foi a grande negligenciada dos livros de história: em muitas guerras, matou mais soldados que as batalhas, só que sem direito a estátua equestre. Pois, é, né? A coitada nunca se aposentou e agora, segundo a imprensa internacional, ganhou um novo e delicado meio de transporte: diarreia sexualmente transmissível.
Eu, que julgava a idade adulta-pra-idosa incapaz de me oferecer novas surpresas desagradáveis, fui gentilmente tapeado que nem o Pica-pau! O assunto é a shigelose, doença que já mata mais de 200 mil pessoas por ano no mundo, não tem vacina licenciada e, a julgar pelos números, perdeu qualquer vestígio de timidez.
A drª Kate Baker é professora de Genômica Microbiana Aplicada no Departamento de Genética da Universidade de Cambridge. Veterinária de formação, ela atendeu como clínica antes de trocar o consultório pelo laboratório, passando pelo Instituto Sanger e por uma bolsa na Universidade de Liverpool. Hoje, a distinta cisntista estuda bactérias entéricas e sua resistência a antimicrobianos. Ela conta que se apaixonou pela Ciência no Ensino Médio, mas tenho poucas esperanças em achar que em algum momento de sua vida ela imaginou estuidar diarreia transmitida pelo vuco-vuco.
Ah, sim! A primeira autora é Julia Marshall, estagiária de luxo da Kate trabalhando em seu mestrado, e aqui temos um belo vislumbre do que um PhDeus pode jogar no seu colo (estou falando figurativamente… espero!).
Agora os dados, que a vida não perdoa. Em pares de isolados separados por até 2,5 anos de tempo evolutivo, a distância geográfica média foi de 117 km nos casos de transmissão sexual, contra 46 km nos demais casos domésticos. A bactéria acumula mais quilometragem que muito influenciador digital, e sem pedir patrocínio de companhia aérea. A intensidade também chama atenção: em áreas com o mesmo tamanho de população, havia cerca de cem cadeias de transmissão a mais nesse grupo, do tamanho estimado de 2,6% dos homens britânicos.
Isso é praticamente a versão epidemiológica de uma festa pequena com a fila maior do que a de show de rock. E as linhagens mais associadas a essas redes permaneceram distintas por até 15 anos, enquanto as dos demais casos domésticos se misturavam bem antes disso. Cada grupo tem, digamos, o seu próprio condomínio, e a bactéria circula nele com a tranquilidade de quem tem síndico. Londres e Manchester concentram a maior proporção desses casos, 44% contra 27% nas outras regiões. Kate Padeira e seu pessoal lembram que “presumido” é a palavra-chave: o grupo foi definido por critérios de idade, sexo e ausência de viagem de risco, e não por declaração de comportamento.
A eficiência tem explicação microbiológica. Bastam de dez a cem bactérias para adoecer alguém, enquanto a Salmonella exige mais de mil, o que a faz parecer aquele amigo que só sai de casa com festa de arromba, banda ao vivo e cerimonialista. A Shigella, por outro lado, aparece com dez colegas e uma mochila. O gênero homenageia o japonês Kiyoshi Shiga, que a descreveu em 1897, e a doença carrega no nome o grego dys (mau) e enteron (intestino), de modo que os antigos já resumiam o problema de forma “intestino fidaputa” (você leu primeiro aqui… provavelmente, só será aqui, mesmo).
A transmissão sexual envolve sobretudo contato oral-anal, e os conselhos clássicos de lavar as mãos e cuidar da comida servem, aqui, para quase nada. Boa parte das pessoas nem sabe que isso é possível, e a ignorância, como sempre, trabalha de graça para o microrganismo. Os próprios autores ressalvam que há associações com aplicativos de encontro e outras práticas, mas associação não é causa.
Agora, a parte que eu considero literariamente irresistível: a azitromicina.
Entre homens com presumida atividade sexual com outros homens, as cepas resistentes a esse antibiótico tinham crescimento relativo de 1,71, maior que nos demais casos domésticos e nos de viagem. A suspeita é de “resistência de espectador”: durante anos, o tratamento recomendado para a gonorreia incluía azitromicina, e a Shigella, que nada tinha a ver com a história, assistia à aula do vizinho e tirava nota máxima na prova que não era dela. Por volta de 2018, as diretrizes britânicas para a gonorreia deixaram de recomendar a terapia dupla com azitromicina, e a vantagem simplesmente evaporou.
Foi como retirar o ingresso e ver a fila sumir. Isso é evidência inequívoca de resistência de espectador causada por diretrizes de tratamento, e pedem que a gestão de antibióticos passe a pensar em várias infecções ao mesmo tempo, não uma por uma.
O elenco de resistências, aliás, é uma coleção de figurinhas. Entre os casos de transmissão sexual, 69,4% das amostras resistiam a ao menos um dos antibióticos de interesse (ciprofloxacino, azitromicina e ceftriaxona), contra 39,6% nos outros casos domésticos e 48,9% nos de viagem. Em uma análise à parte, de 468 isolados, os pesquisadores acompanharam uma linhagem internacional de resistência extensiva, que se expandiu com força justamente quando acrescentou a resistência à ceftriaxona às que já tinha.
É o tipo de enredo em que o vilão não precisa de superpoder, só de acúmulo de camadas, como cebola e orçamento de obra pública. Segundo Baker, a doença passou de relativamente tratável com remédios de prateleira a quase intratável em cerca de uma década, para quem ainda achava que o maior risco do fim de semana era a ressaca.
As recomendações são de uma sobriedade quase insultuosa diante do circo: quem passou por uma diarreia feia deve esperar para retomar a vida sexual (duas semanas depois que a diarreia acaba, no conselho americano; sete dias após o último sintoma, no da agência britânica), contar o histórico ao médico e pedir uma triagem completa.
Médicos, por sua vez, deveriam perguntar a pacientes com disenteria sobre o assunto, e a ideia de que isso precise ser dito em um artigo científico já é, por si só, um achado. A moral da história é que a bactéria não tem pudor nem preconceito, mas nós temos os dois, e é o silêncio, não o microrganismo, que faz o trabalho sujo.
A pesquisa foi publicada no periódico The Lancet Infectious Diseases
