Pug que escapou de virar almoço ganha concurso por ser feio

Pug é um troço muito feio. Mais feio que bater na mãe. Ninguém opta por bater na mãe mas optam por ter um pug, e por isso é um troço pra lá de feio. Não sei por que alguém teria um pug, exceto coreanos, e não é bem para ser pai de pet e sim cozinheiro que tem pets coo convidado principal (e não da forma muito maneira… pro pet).

A história de hoje é sobre Jinny Lu, uma pug de seis anos que nasceu nas montanhas da Coreia do Sul destinada ao comércio de carne canina, e hoje desfila por Nova York como celebridade por causa de duas organizações de resgate, a Pug Rescue of Korea e a Pug Hotel. Estas duas ONG decidiram que aquele focinho amassado merecia um destino mais glamouroso do que um prato.

Na sexta-feira, dia 14 de agosto, Jinny Lu foi coroada a Cadela Mais Feia do Mundo na tradicional Feira do Condado de Sonoma, em Santa Rosa. O prêmio: 5 mil dólares, um lugar cativo em latas de Mug Root Beer de edição limitada e uma viagem a Nova York para aparecer no programa Today, da NBC, além de, ao que consta, ingressos para a Broadway. Não é todo cão feio que assiste a um musical na Times Square, convenhamos.


Jinny Lu é a da direita

A trajetória até o trono tem sabor de novela mexicana com final feliz. Adotada há quatro anos pela americana Michelle Grady, moradora de Ukiah – uma cidadeca na Califória menor que um bairro pequeno no Rio –, Jinny Lu já tentou a coroa quatro vezes. Em 2025 ficou em segundo lugar, a eterna dama de honra da feiura, aquela que sorri educadamente enquanto outra leva o buquê. Descrita por seus resgatistas como “a garota tímida”, ela evoluiu para uma personalidade que Grady descreve como euforicamente extrovertida. Uma trajetória arco-narrativa digna de Rocky Balboa, só que com menos socos e mais babação.

O concurso, que este ano celebrou seu quinquagésimo aniversário, é uma instituição peculiar da cultura americana e, apesar do nome propositalmente cruel, não é exatamente sobre eleger o cão mais horrendo do planeta. É antes uma vitrine afetiva para animais resgatados, com deficiências, deformidades ou históricos de abandono, transformando aquilo que normalmente seria motivo de rejeição em espetáculo de celebração. A CEO da associação organizadora, Mandy Clendenen, resumiu o espírito do evento dizendo que ao longo de cinco décadas ele celebrou a singularidade de cada cão enquanto espalhava uma mensagem de compaixão, resgate e aceitação. Um Miss Universo às avessas, em que a beleza convencional é rebaixada e a sobrevivência vira o critério de julgamento.

A concorrência não foi fraca. Jinny Lu superou rivais vindos de tão longe quanto a Polônia, além de disputar o título com Chihuahuas, Chinese Cresteds e vira-latas de aparência igualmente questionável. A segunda colocada, Pinky, uma mistura albina de Chihuahua com Pomerania, levou 3 mil dólares, enquanto Otto, outro Chihuahua misto, ficou em terceiro. Entre os jurados estava o correspondente da NBC Gadi Schwartz, que aparentemente encarou os concorrentes olho no olho, literalmente, dado o tamanho de alguns competidores.

Vale lembrar que Jinny Lu sucede Petunia, apelidada Pinky, a bulldog careca campeã de 2025, resgatada de um criador de fundo de quintal e de uma casa de acumulação de animais, que nasceu com o palato alongado típico de bulldogs mal-criados e precisou de cirurgia para respirar direito. A linhagem de campeãs, portanto, não é feita de cães nascidos em berço de ouro, mas de sobreviventes.

Você deve ser fã de dorama coreano e está cansado de ver aqueles pratos coreanos todos; mas aquilo é tipo novela da Globo: nunca mostrando a realidade. O comércio de carne de cachorro na Coreia do Sul é uma daquelas tradições que sobreviveram muito além de qualquer justificativa razoável, sustentada mais por inércia cultural e crença em benefícios de saúde nunca comprovados do que por apetite genuíno das novas gerações. O prato mais associado ao hábito é o bosintang, um ensopado de carne canina que ganhou fama de restaurador de vigor, sobretudo entre os mais velhos. Você viu isso nos doramas da Studio Dragon? Não, né?

Embora pesquisas recentes mostrem que mais de 90% dos coreanos hoje digam que jamais comeriam o prato (os outros 10% não são mentirosos), e quase 95% afirmem não tê-lo provado no último ano (aham!), o costume ganhou escala industrial a partir dos anos 1960, o que desmonta um pouco o discurso de “tradição milenar” tão repetido por quem defende sua continuidade.

Por trás da narrativa folclórica havia, na prática, milhares de fazendas de criação em condições precárias e um comércio associado a maus-tratos sistemáticos, com animais mantidos em gaiolas apertadas até o abate, muitas vezes sem qualquer fiscalização sanitária ou de bem-estar animal. Lembrando que 90% dos entrevistados juraram de pés juntinhos que jamais transformariam o Rex em almoço.

Em janeiro de 2024, o parlamento sul-coreano aprovou, por unanimidade, uma lei proibindo a criação, o abate, a distribuição e a venda de cães para consumo humano. A norma prevê um período de transição de três anos e entra em vigor plenamente em fevereiro de 2027, com penas de até três anos de prisão ou multas de 30 milhões de wones (cerca de 23 mil dólares) para quem insistir no ramo depois disso. Ironicamente, comer carne de cachorro em si não se tornou crime, apenas produzi-la e vendê-la, uma sutileza jurídica que resolve o problema pela ponta da oferta.

O governo estima existir cerca de 1.200 fazendas registradas (especialistas acham que o número real pode ser duas a três vezes maior), e o fechamento gradual já deixou dezenas de milhares de cães à procura de novos lares, um contingente que organizações como as que resgataram Jinny Lu têm tentado absorver, uma pug de cada vez, num apagão logístico de proporções consideráveis. É nesse contexto de lei ainda em transição, mercado agonizante e milhares de animais órfãos de destino que histórias como a dela deixam de ser anedota fofa e passam a ser, também, estatística de uma mudança histórica em curso.

Voltando ao assunto do concurso da cadela mais feia do mundo, ironicamente, é um dos eventos mais bonitos do calendário americano. Celebra-se ali não a estética, mas a segunda chance, e há algo profundamente justo em uma cadela que escapou de virar refeição e hoje aparece em latas de refrigerante e programas matinais de TV. Se a beleza é passageira, a gratidão de um cão resgatado, ao que tudo indica, rende mais engajamento.

Péra, André. Você fez um artigo só por causa de concurso de um cachorro feio que dói?

Sim. Não gostou, me processe ou me mande dinheiros para eu ir pra NY e ver se tem concurso de blogueiro feio. Garanto que eu ganho (acho).


Fonte: Tabloide Murica Fuck Yeah!

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