O hábito não faz o monge, mas ajuda o golpista

Estamos em época de exacerbar o empreendedorismo. Há muitas formas,  mas tem uma  que dispensa CNPJ, plano de negócios e qualquer traço detectável de vergonha na face; não, não estou falando de tráfico de drogas, e sim ter uma batina, uma expressão de quem conversa diretamente com o Altíssimo em grupo de WhatsApp e um QR Code estrategicamente escondido na manga. É o Capitalismo da fé em sua forma mais pura, onde Deus entra com a aura, o Espírito Santo com a legitimidade e o fiel entra com o saldo da conta corrente, feliz da vida por ter contribuído com a obra divina.

Pequenas Igrejas Grandes Negócios, e alguns resolveram encurtar o caminho para a riqueza.

Marcos Rodrigues Fontana, um sujeito que avaliou a questão e concluiu que estudar sete anos de Teologia era, convenhamos, um investimento de baixíssimo retorno sobre o capital aplicado, foi direto ao ponto: enquanto seminaristas madrugavam sobre o Concílio de Trento e a Suma Teológica de Santo Tomás de Aquino, Marcos descolou a fantasia certa, ensaiou o semblante de beatitude e saiu para o mercado. O resultado foi uma carreira de estelionato litúrgico tão eficiente que qualquer consultor de startups apontaria como case de sucesso, não fosse o detalhe menor de ser crime.

Marquinhos não era um padre comum, não senhor. Nada de padre de bairro, de missa das sete da manhã, de batismo de criança chorando na pia. Não, senhor! Ele se apresentava como monsenhor, que para o leigo médio soa como algo entre “embaixador plenipotenciário do Vaticano” e “gerente regional do Divino Espírito Santo, responsável pela carteira São Paulo Interior”. O título é real: monsenhor é uma distinção honorífica concedida pelo papa a padres de mérito excepcional. Detalhe: pressupõe ter sido ordenado padre antes, mas Marcos pulou essa etapa. Era uma questão de otimização de processos.

O homem circulava por famílias tradicionais paulistenses com a desenvoltura de quem pertence àquele ambiente por direito canônico. Participava de ritos, aceitava convites, sentava à mesa certa, dizia as coisas certas com o tom certo e ia, aos poucos, construindo aquela arquitetura invisível que todo bom golpista ergue antes de apresentar a conta: a confiança. Porque dinheiro, sozinho, ninguém entrega a um desconhecido. Mas à autoridade espiritual de quem frequenta sua casa, conhece seus mortos e abençoou seus filhos? Aí é outra conversa. Aí a carteira se abre com a suavidade de quem sente que está fazendo uma boa ação.

E claro que o roteiro precisava do elemento infalível, o combustível supremo do golpe emocional bem construído: crianças. Criancinhas é sempre um bom ativo gerencial e propaganda: colocou criancinhas no meio, a grana jorra. No caso em questão, um orfanato que existia numa dimensão paralela, acessível apenas à fé e ao comprovante de transferência. Criancinha é uma ótima forma de tirar dinheiro de otários.

A artista plástica Elisa Stecca foi uma das vítimas que topou com esse roteiro. Contribuiu, doou, ajudou com recorrência. E em um momento de generosidade sincera, transferiu mais de cinco mil reais de uma vez. Um gesto genuinamente bonito, diga-se de passagem. Claro, ela não ajuda pobre na rua. São pobrinhos; muito melhor é doar para o monsenhor bem arrumado e cheirando a perfume Lancaster paraguaio.

O descascamento do golpe começou quando Elisa fez a coisa mais subversiva que alguém pode fazer diante de uma narrativa de apelo emocional: pediu para ver a bagaça e ir visitar o tal orfanato. E aí, como numa peça de teatro ruim quando a cenografia cai, a realidade apareceu. Ou melhor: não apareceu. Não havia endereço, não havia documentos e não havia crianças. O abrigo era tão real quanto a vocação sacerdotal do seu responsável, isto é, existia exclusivamente como ficção útil.

O “monsenhor”, surpreendido pela ousadia de alguém que quis checar a narrativa, recorreu ao kit básico do golpista em apuros: alegou problemas de saúde, disse ter se afastado da direção da instituição e produziu a quantidade de informação necessária para encerrar a conversa sem produzir nenhuma informação útil. É uma técnica clássica que os sociólogos chamam de “enrolar”, os investigados chamam de “estratégia de comunicação” e a polícia chama de “conta outra, mermão”. A família, que claramente não tinha nascido ontem, foi investigar. O que encontrou estava longe de ser surpreendente e muito perto de ser deprimente: registros de Marcos cobrando por missas e abordando fiéis em cemitérios, o que tem, admita-se, uma poesia sombria muito sua.

Confrontado com as evidências, ele finalmente confessou que o orfanato não existia, num momento de honestidade provavelmente involuntária. E então, num movimento que merece menção honrosa no hall da audácia criminal brasileira, revelou que pertencia à Igreja Vétero Católica, um movimento cristão independente que o Vaticano não reconhece e do qual ninguém tinha ouvido falar até aquele instante. Traduzindo: ao ser desmascarado como padre falso de uma Igreja verdadeira, sua defesa foi revelar que era padre verdadeiro de uma Igreja que os padres verdadeiros consideram uma invenção. É o tipo de saída que, se fosse numa peça de Ionesco, renderia aplausos. Na delegacia, rendeu inquérito.

O caso foi parar no 36º Distrito Policial de Sum Pólo, onde provavelmente será tratado com toda a seriedade que merece. O que o inquérito dificilmente vai capturar é o dado histórico mais relevante: em 2009, Marcos já havia sido condenado por estelionato exatamente pelo mesmo tipo de celebração ilegal. A pena foi convertida em serviços comunitários e multa. A Justiça, com aquela generosidade que às vezes se confunde com desatenção, lhe deu uma segunda chance, ele a usou com afinco para refinar a metodologia, ampliar o alcance e escolher vítimas com saldo mais confortável. Aprende-se com a experiência, dizem os mestres.

O que impressiona, portanto, não é a criatividade do fraudador. Golpistas criativos são recurso renovável neste país. O que impressiona é a perenidade do mecanismo. Século XXI, Internet no bolso, Google disponível 24/7 para checar qualquer coisa, incluindo se uma Igreja Vétero Católica existe e o que ela é, e ainda assim basta o figurino certo e o tom de voz adequado para o senso crítico dar uma saída rápida para tomar um ar e não voltar por tempo indeterminado.

As vítimas reuniram comprovantes e foram à polícia. Bom. Mas a parte mais desconfortável de toda essa história não é o homem que vestiu a batina sem ter estudado para isso. É a infraestrutura coletiva de confiança não questionada que transforma qualquer pessoa com roupa adequada e discurso ensaiado em autoridade moral por tempo suficiente para esvaziar algumas contas bancárias. O falso monsenhor é o sintoma. A disposição de não perguntar é a doença.

Amém, irmãos, e confiram o comprovante antes de fechar o aplicativo.


Fonte: Foia

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