
Eu sempre digo que nossos avós eram o máximo. Vocês podem dizer “ain, é bom viver no futuro”. Nossos avós CONSTRUÍRAM o futuro. Os caras eram capazes de maravilhas, e isso porque eram arrogantes e queriam fazer o impossível, só que não sabiam que o que estavam fazendo era impossível, por isso fizeram. Um exemplo disso se deu em outubro de 1930, quando 600 funcionários chegaram ao trabalho num edifício, fizeram o que tinham que fazer, foram embora, no final do expediente, com o mesmo edifício estando Ok, só que estava em outro lugar. Literalmente.
O prédio tinha se mudado durante o dia. Não metaforicamente, não em sentido figurado para alguma tese de teoria organizacional. O edifício de concreto, tijolo e aço de 11 mil toneladas tinha percorrido dezenas de metros e girado 90 graus (!), enquanto lá dentro as telefonistas continuavam atendendo chamadas, a água saía das torneiras e o gás aquecia os radiadores. Um dos funcionários relatou, anos depois, que sequer percebeu o movimento. Bom trabalho, 1930. Bom trabalho.
Para entender como chegamos a esse ponto de absoluto desrespeito à Física e ao bom senso, é preciso voltar algumas décadas. Em 1888, dois arquitetos germano-americanos, Bernard Vonnegut (avô do menino Kurt, que gostava de escrever) e Arthur Bohn, fundaram em Indianapolis o escritório Vonnegut, Bohn & Mueller. Em 1907, o escritório projetou para a Central Union Telephone Company , um edifício Art Deco de oito andares em Indianapolis, que ficaria conhecido como Indiana Bell Building. O prédio era tão representativo da identidade arquitetônica da cidade, com seu repertório de imigrantes alemães, que seria incluído no Registro Nacional de Lugares Históricos dos Estados Unidos em 1982. Mas isso é outra história, e acontece 52 anos depois.
Em 1929, a Indiana Bell Telephone Company comprou a Central Union e herdou, junto com as operações, o belo prédio de 22 anos que os sócios Vonnegut e Bohn tinham erguido. O problema é que a Indiana Bell crescera consideravelmente, o pessoal era numeroso, as operações se expandiam, e o edifício existente não comportava mais nem o staff nem a demanda crescente por serviços telefônicos. A solução óbvia, segundo o manual padrão da época, era simples: derrubar tudo e construir algo maior no mesmo terreno. O escritório Vonnegut, Bohn & Mueller foi contratado justamente para isso.
Acontece que derrubar um prédio onde funcionava uma central telefônica operada manualmente por centenas de telefonistas não era exatamente uma tarefa de fim de semana com cavaletes e tinta. Significava interromper todas as chamadas da região. Naquele tempo, as ligações não eram diretas e cada ligação dependia de uma operadora humana que plugava fisicamente os fios no painel. Botar a prédio na chón equivalia a cortar as comunicações de toda uma cidade. Era o equivalente moderno de matar o Wi-Fi durante uma videoconferência, só que multiplicado por cem mil e sem a opção de reiniciar o roteador.
Foi então que Kurt Vonnegut Sr., filho de Bernard (sim, pai dele), que já trabalhava no escritório da família, apresentou uma proposta que deve ter causado um silêncio constrangedor na sala de reuniões: “E se a gente não demolir nada, mas mover o prédio inteiro? Sim, com todos dentro”.
Silêncio sepulcral. Até que alguém se lembra da diferença entre Ciência e Engenharia;
-
Ciência: Por quê?
-
Engenharia: Por que não?
A proposta foi aprovada, os engenheiros responsáveis pelo planejamento foram mobilizados, e a empreiteira John Eichleay Company ficou responsável pela execução. Durante 34 dias, entre outubro e meados de novembro de 1930, o processo foi conduzido com uma meticulosidade que envergonharia qualquer projeto de engenharia contemporânea cheio de softwares de simulação e reuniões de alinhamento.
O método era ao mesmo tempo sofisticado e quase artesanal na sua lógica. Primeiro, o edifício foi erguido por macacos hidráulicos, aquelas prensas de alta pressão que qualquer um já viu levantando automóveis no posto de gasolina, só que aqui levantando um prédio de oito andares, um pequeno escalonamento, coo podem ver. Embaixo da estrutura foram posicionadas vigas de abeto com capacidade de suportar 75 toneladas cada, que serviam de trilho para rolos hidráulicos sobre uma superfície de concreto preparada especialmente para o percurso.

Os trabalhadores posicionavam um rolo, o edifício avançava sobre ele, e então colocavam o próximo. Um rolo de cada vez, como uma fila infinita de troncos embaixo da Grande Pirâmide, só que com engenharia do século XX e bem mais café envolvido (talvez outros alcaloides, principalmente por parte de quem teve a ideia). O avanço era de 40 centímetros por hora, velocidade que rivaliza com a de qualquer burocracia municipal, mas que, neste caso, era proposital e precisa.
O percurso total não foi uma linha reta simples: o edifício foi deslocado primeiro para o sul, depois para o oeste, acumulando ao longo do processo um total de cerca de 47 metros de deslocamento combinado e uma rotação de 90 graus. Para que os 600 funcionários pudessem entrar e sair normalmente durante toda a operação, foi instalada uma passarela de entrada articulada, que acompanhava o movimento do edifício e mantinha o acesso operacional em tempo integral. Água, gás e eletricidade permaneceram conectados por sistemas flexíveis. As telefonistas continuaram atendendo; as ligações continuaram sendo completadas. A cidade não percebeu nada.

O edifício, reposicionado na esquina das ruas Meridian e New York, ficou em seu novo endereço intacto, funcional, e provavelmente bastante orgulhoso de si mesmo, se prédios tivessem personalidade. O Indiana Bell Building funcionou em sua nova posição até o final dos anos 1950, quando os mesmos imperativos de expansão que tinham motivado a façanha de 1930 voltaram à cena, e desta vez não havia para onde ir.

O prédio foi demolido em 1963 para dar lugar a instalações maiores. Hoje, no mesmo terreno, funciona um complexo de 22 andares da AT&T que mantém referências ao estilo Art Deco original, como uma homenagem decorativa ao que um dia veio antes.

O Indiana Bell Building não foi o único prédio da história a ser transportado em vez de demolido, mas certamente foi um dos pioneiros e, por muito tempo, o mais impressionante em termos de escala e logística. O Teatro Shubert em Minneapolis, o farol Belle Tout em Sussex, na Inglaterra, e o Empire Theater em Nova York são outros exemplos de estruturas que um dia resolveram mudar de endereço sem pedir licença ao senso comum.
A moral da história é reconfortante para qualquer pessoa que já enfrentou uma mudança de apartamento e concluiu que seria mais fácil simplesmente desistir: se em 1930 era possível mover um prédio de 11 mil toneladas, girá-lo 90 graus e deslocá-lo dezenas de metros, com 600 funcionários trabalhando lá dentro, sem cortar uma única ligação telefônica, então provavelmente seu problema com a geladeira que não cabe na porta de saída tem solução.
“Ah, é ótimo viver no futuro.”
Você vive no passado de nossos avós, isso sim.
