Cliente exageradamente fofinho faz funerária pegar fogo

Existe uma espécie de contrato tácito entre vivos e mortos. Nós organizamos o velório, escolhemos a música constrangedora que alguém da família insistiu em colocar e garantimos que a despedida ocorra dentro dos padrões mínimos de civilização. Em troca, espera-se que o falecido colabore ficando quieto, manejável e, sobretudo, dimensionalmente compatível com o equipamento.

Não é pedir muito. É literalmente o último favor.

Na terça-feira última, 24 de fevereiro, na Cidade do México, esse acordo milenar foi atropelado sem cerimônia. Um cadáver de 140 kg decidiu que não sairia discretamente de cena. Decidiu sair da vida e passar para a História do Churrasco, já que o forno crematório… bem, pegou fogo, o que seria de se esperar de um forno crematório, mas a coisa saiu do controle.

O episódio ocorreu na Casa Funerária García López, empresa tradicionalíssima, daquelas que provavelmente têm mais protocolos que um aeroporto internacional. Não é qualquer estabelecimento: a companhia opera oito dos apenas 22 crematórios de toda a Cidade do México e realiza entre 12 e 13 mil serviços funerários por ano. Ou seja, gente experiente. Profissionais calejados. Veteranos da despedida definitiva.

Até terça passada.

Segundo o Corpo de Bombeiros, o problema teve a sofisticação técnica de um tijolo. O corpo era grande demais para a câmara de cremação. Os 140 kg do falecido simplesmente impediram o fechamento adequado da porta. E quando você está lidando com um equipamento que opera entre 980 e 1.150 graus Celsius, descobrir isso tarde demais é o tipo de erro que transforma rotina em episódio de investigação. Vocês sabem, o calor é uma entidade profundamente ressentida. Se você não o mantém confinado, ele sai para socializar. E foi exatamente o que aconteceu. O forno vazou calor como político vaza promessa, e o resultado foi um incêndio que se espalhou pelas dependências da funerária com a naturalidade de quem já estava convidado.

Os bombeiros chegaram rápido e controlaram as chamas sem registro de feridos, o que, sejamos honestos, já é um pequeno milagre operacional. Mas o prédio sofreu danos relevantes e a câmara de cremação foi oficialmente promovida a sucata cara. Terá de ser substituída integralmente, e não, isso não se resolve com um técnico e um “desliga e liga de novo”. Estamos falando de equipamento industrial de alta precisão, com controle térmico rigoroso e sistemas de filtragem que custam o preço de alguns sonhos de classe média. Não é o tipo de compra que você resolve no cartão corporativo depois do almoço.

A identidade do falecido não foi divulgada, e talvez seja o último ato de misericórdia institucional possível. A família já tem material suficiente para lidar sem precisar ver o sobrenome virar meme. Mas, como toda boa tragédia moderna, essa história não vive só do absurdo imediato. Ela vem com contexto, e o contexto é daqueles que fazem qualquer estatístico pedir um chá de camomila.

O México enfrenta uma das mais sérias crises de obesidade do planeta. Cerca de 37% dos adultos vivem com obesidade, número que coloca o país no pelotão de elite de um ranking que ninguém quer emoldurar. Em 2025, o governo mexicano aprovou uma lei proibindo a venda e a publicidade de alimentos ultraprocessados e bebidas açucaradas dentro das escolas, numa tentativa de frear a obesidade infantil, que já atinge aproximadamente um terço das crianças em idade escolar.

Traduzindo: o problema não está chegando. Já chegou, sentou-se no sofá e pediu um combo ultra mega power da hamburgueria “Boizão Feliz”.

Claro, algum chato vai reclamar que não se pode falar do coitado que está em forma… forma mastodôntica, algo na linha rolha de baleia, e chupeta de poço (ou algo nesse sentido). Podem reclamar o quanto quiserem, mas fingir que não existe um descompasso crescente entre corpos reais e estruturas físicas é um exercício de negação que já está, literalmente, pegando fogo.

No setor funerário, aliás, isso não é surpresa. Profissionais da área sabem há anos que a cremação de corpos com sobrepeso exige cuidados adicionais. Corpos maiores demoram mais para cremar, consomem mais combustível e idealmente deveriam ser processados em câmaras de maior capacidade. Ou seja, não foi exatamente um fenômeno quântico imprevisível.

O que aparentemente faltou na García López foi o velho e revolucionário conceito de… conferir antes. Porque uma câmara de cremação que não fecha é o tipo de detalhe que deveria acender alarmes antes de acender o forno. É quase um princípio filosófico aplicável à vida: se a porta não fecha, talvez não seja a melhor hora de liberar mil graus Celsius no ambiente.

Mas seguimos.

Como manda o manual não escrito da Internet Moderna, a história explodiu nas redes sociais mexicanas depois que o jornalista Carlos Jiménez publicou imagens do estrago. A legenda mencionava que o forno havia pegado fogo “pelo gordinho”, e a rede reagiu com a delicadeza emocional de sempre: humor negro, indignação seletiva e debates sérios todos misturados no mesmo caldeirão moral.

No fim das contas, sobram os fatos nus, crus e levemente chamuscados. Um prédio danificado. Um equipamento destruído. Um prejuízo considerável. E uma notícia que rodou o mundo não por causa da morte, mas pelo espetáculo térmico que veio depois. A Casa Funerária García López agora terá de investir numa nova câmara, provavelmente maior, mais robusta e mais alinhada com a realidade física da população que atende. O falecido, por sua vez, chegou ao destino final. Com atraso, com custo extra e quase levando o prédio junto, mas chegou.

Eficiência não foi. Memorável, infelizmente, foi.

Se Shakespeare estivesse vivo, provavelmente escreveria uma tragédia sobre isso. Se estivesse tomando o horrível café do meu trabalho que eu tomei hoje, escreveria uma comédia sombria e pediria demissão da humanidade no terceiro ato.

E, sinceramente, seria difícil culpá-lo.


Fonte: Daily Star

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