
A quinta-feira tá uma bosta, o café está ruim, meu pagamento já virou fumaça faz tempo, mas, pelo menos, o dia ainda não mia, não rosna nem late. É um consolo modesto, porém relevante, considerando o estado atual da civilização, que, aparentemente, atingiu o fundo do poço e resolveu cavar mais um pouco. Você acorda, abre o noticiário esperando o pacote padrão de desgraças humanas e encontra algo que não é trágico o suficiente pra ser sério, nem inteligente o suficiente pra ser tolerável. Pilotos comerciais, adultos pagos pra carregar centenas de vidas, decidiram transformar a frequência internacional de emergência da aviação num zoológico amador ao vivo.
Não é sátira. É só a realidade operando sem coleira.
Existe uma frequência chamada 121,5 MHz. Na aviação, ela atende pelo nome de “guard”. É o canal de emergência global. Se algo deu muito errado lá em cima, é ali que se pede socorro. Todo mundo escuta. Todo mundo leva a sério. É o equivalente aéreo de gritar “fogo!” no meio de um teatro lotado. Pois, bem,, nos céus de Washington, alguém resolveu que o momento perfeito pra virar bicho de estimação era exatamente esse. Um piloto solta um “miau, miau, miau” no rádio. O piloto de outra aeronave responde com latidos dignos de vira-lata caramelo animado fuçando lixo.
E não, não foi interferência, nem erro técnico e é muito improvável que um gato tenha aprendido a pilotar. Foram seres humanos (talvez) que passaram anos estudando, acumulando horas de voo e sendo considerados aptos pra operar máquinas de centenas de toneladas… latindo em frequência de emergência em meio a uma insurgência sem a devida deferência.
E tudo isso acontecendo sobre o Ronald Reagan Washington National Airport. Um dos espaços aéreos mais sensíveis dos Estados Unidos, onde qualquer erro vira investigação, relatório e, dependendo do dia, matéria de jornal com foto de avião destruído. Mas aparentemente nada disso compete com a necessidade urgente de fazer um dueto de gato e cachorro, como se o céu fosse um grupo de WhatsApp particularmente retardado.
Em algum ponto, uma voz ainda ligada ao planeta Terra interveio: “Vocês precisam ser pilotos profissionais.” É uma frase correta. Também é uma frase trágica, porque ela só existe quando algo já deu muito errado. É o tipo de coisa que você diz pra alguém que claramente não deveria precisar ouvir isso; é tipo lembrar um cirurgião que faca não é brinquedo.
A resposta? Mais miados e latidos. Persistência é importante, dizem. Aqui ela só reforça o tamanho do vexame desta ópera-bufa.
Só quando alguém resolve atingir o único órgão funcional restante (não esse; o ego!) é que a coisa para. “É por isso que você ainda voa num regional.” Pronto, acabou o zoológico! Não foi consciência. Não foi responsabilidade. Foi o clássico “você me chamou de pobre de voo”. A humilhação hierárquica funcionou melhor que qualquer protocolo de segurança da FAA (Federal Aviation Administration).
A FAA abriu investigação, porque essa é a parte fácil. Difícil é aceitar que isso precisa ser investigado. A agência lembrou, com a paciência de quem já enterrou a esperança há anos, que comunicações devem ser profissionais e voltadas à segurança, num claro lampejo do óbvio, como quem fala com uma criança obtusa que enfiar o dedo na tomada dá dodói. É uma orientação que parece óbvia. E ainda assim, pelo visto, não é para certas pessoas dotadas com QI similar à temperatura ambiente.
E não, isso não é um evento isolado. Gente da própria aviação admite que esse tipo de palhaçada aparece de tempos em tempos. Miados ocasionais, piadas internas, pequenos surtos de infantilidade em alta altitude. A diferença é que dessa vez alguém gravou. E quando a realidade é gravada, ela deixa de ser “brincadeira de piloto” e vira prova de que o fundo do poço continua em expansão; e com wi-fi!
As companhias aéreas, como manda o figurino corporativo, estão “cientes e investigando”. Traduzindo: estão tentando descobrir quem foi pra ter o RH uma conversinha que começa com “meu amigo, isso não pode acontecer” e termina com “por favor, não faça isso de novo na frente de todo mundo, seus idiotas!”, entremeado com a cartinha de dispensa.
A humanidade construiu aeronaves capazes de cruzar oceanos, sistemas que calculam rotas com precisão absurda, protocolos que salvam vidas todos os dias. E ainda assim precisa lembrar pilotos que eles não são animais de estimação.
A moral da história é inútil, mas inevitável: Se um dia você precisar de ajuda a 10 mil metros de altitude, torça pra que do outro lado do rádio exista um profissional. Porque, pelo visto, isso já virou roleta-russa com coleira e miado.
