Política precisa ter filtro, mas alguns candidatos interpretaram isso errado

Há uma tradição respeitável entre políticos do mundo inteiro: mentir. É quase um requisito da profissão, está implícito no contrato não escrito que o eleitor assina ao depositar seu voto na urna. Mas mentir com a própria cara, literalmente, usando inteligência artificial para substituir a sua fisionomia por outra pessoa trinta anos mais jovem e depois insistir, diante de provas fotográficas, que aquilo é você? Isso já ultrapassa os limites do cinismo convencional e adentra um território novo: o da desfaçatez estética com pretensão ontológica.

Patricia Reichman, vereadora eleita para representar um bairro de Rotterdam, na Holanda, foi expulsa do seu partido depois que a foto oficial de sua candidatura viralizou na internet pelas razões erradas. A imagem a mostrava como a mais jovem e fotogênica senhora de 59 anos que os Países Baixos já produziram desde que Vermeer parou de pintar. O problema, pequeno detalhe, é que a pessoa na foto não era exatamente ela… pelo menos não a versão que respira, envelhece e aparece nas câmeras de segurança da Câmara Municipal.

A explicação oferecida foi uma obra-prima da retórica do desespero. Segundo ela, a foto original estava em baixa resolução, então ela a passou por uma ferramenta online “para aumentar os pixels”. A IA, sempre prestativa, aproveitou a oportunidade para também eliminar rugas, redefinir contornos e esculpir uma versão da candidata que nunca existiu fora de um servidor em nuvem. Reichman manteve a narrativa: estava diferente “por causa de uma medicação que estou tomando. Em breve vou parar com ela.”

Sim, em todo lugar do mundo sacam a carta “estou tomando remedim”. A medicação em questão, ao que parece, tem o curioso efeito colateral de mexer com as rugas do rosto. Patty ainda completou dizendo: “Quando saio com meu filho, as pessoas acham que sou a namorada dele.” A internet colocou as duas fotos lado a lado (essas aí de cima).

Acho que não convenceu, porque o partido Leefbaar Rotterdam pediu a cabeça dela (a com rugas, a gostosa acho que querem manter). Patty recusou e desfaçatez pelo visto dá cartão vermelho lá. A nota de expulsão foi digna de um obituário:

Quando as informações fornecidas durante o processo seletivo não correspondem à realidade, não há base de confiança para continuar trabalhando juntos.

Mandando a real, sem eufemismo: você nos entregou uma foto de outra pessoa e ficou defendendo que era você. A porta da serventia é a rua da casa (ou algo assim).

Não é que o fenômeno seja exatamente novo. Em 2018, a senadora brasileira Kátia Motosserra Abreu protagonizou um episódio digno de nota no hall da fama do Photoshop político nacional. A foto oficial de campanha com Ciro Gomes a mostrava vinte anos mais jovem e vários quilos mais leve, gerando memes na base “Moça, tem um pouco de rosto no seu Photoshop”.

Kátia, ao menos, teve a elegância de entrar na brincadeira, reconhecer o exagero e publicar fotos sem retoques nas redes, acrescentando com humor que havia perdido sete quilos e pedindo que o eleitorado levasse o fato em consideração. Uma abordagem infinitamente mais saudável do que fingir que a versão da IA correspondia à realidade.

A diferença entre as duas histórias diz muito sobre temperamento político. Kátia errou, riu, se desculpou à sua maneira e seguiu, porque aqui política é zoneada mesmo. Reichman errou, insistiu, errou de novo ao insistir e perdeu o mandato, se esquecendo que não estava em shithole de terceiro mundo. Há uma lição aristotélica aqui sobre a virtude da humildade, embora Aristóteles provavelmente não tivesse previsto que ela seria necessária para lidar com filtros de IA em selfies de campanha. Não que Aristóteles também fosse humilde, mas divago.

Como em todo caso envolvendo políticos mentirosos, Patricia Reichman foi expulsa não porque usou IA, mas porque foi descoberta usando IA.

FIKA DIKA: se você for usar inteligência artificial para melhorar sua imagem pública, certifique-se de que a imagem resultante ainda seja reconhecível por você mesma no espelho. Caso contrário, é a IA que está concorrendo ao cargo, e ela, por enquanto, ainda não tem direito a voto.

Infelizmente.

Fonte: NDTV

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