O professor que virou um crocodilo corredor

Existe uma imagem que o mundo ocidental tem do crocodilo: aquele matusquela cabisbaixo nas margens lamacentas de um rio africano, imóvel como um tronco mal-humorado, esperando pacientemente que algum gnu distraído chegue perto o suficiente para se arrepender. Pois bem, essa imagem tem lá seus 200 milhões de anos de atraso. Porque antes que a preguiça se tornasse a filosofia oficial do grupo, houve quem corresse. E RÁPIDO!

Pesquisadores identificaram uma nova espécie de crocodilomorfo do período Triássico, encontrada em Gloucester, no sudoeste da Inglaterra, com cerca de 215 milhões de anos de existência e uma silhueta que não tem absolutamente nada a ver com o que imaginamos hoje quando pensamos em crocodilo. O bicho tinha pernas longas e esguias, corpo leve e uma constituição física adaptada para a velocidade em terra firme. Não vivia na água, nem ficava como um Zé Ruela esperando a presa. O serzão malvadão caçava.

O sinistrão corria atrás de lagartos, anfíbios e dos primeiros mamíferos que, coitados, ainda não tinham aprendido a se preocupar com crocodilos. O ambiente da época era uma planície quente e árida, uma paisagem que, se existisse hoje, provavelmente atrairia turistas com câmeras e pouca noção de risco.

O responsável pela descoberta e descrição da nova espécie é Ewan Bodenham, um jovem pesquisador de 29 anos, galês de Cardigan, atualmente doutorando conjunto da University College London e do Museu de História Natural de Londres. Bodenham integra o grupo de Paleontologia de Vertebrados da UCL, onde sua pesquisa investiga as relações evolutivas e a diversificação ecológica dos crocodilorformes primitivos.

O fóssil em questão não era exatamente novo nas prateleiras. Foi escavado em Gloucestershire em 1969 e desde então dormia nas coleções do MHN, aguardando alguém com olhos suficientemente atentos para perceber que ali não estava apenas mais um exemplar de Terrestrisuchus, a espécie de crocodilomorfo já conhecida das mesmas jazidas. Esses depósitos de fissura, espalhados nas duas margens do Canal de Bristol, formaram-se de maneira cinematográfica: animais que morriam na superfície eram arrastados pelas chuvas para cavidades subterrâneas e lá iam sendo gradualmente soterrados por sedimentos, conservados como cápsulas do tempo num arquivo geológico que nenhum bibliotecário humano conseguiria superar em paciência.

Bodenham e outros estagiários conduziram uma descrição anatômica minuciosa do espécime, comparando-o com outros crocodilorformes primitivos. Encontraram 13 diferenças estruturais consistentes o suficiente para justificar a criação de uma nova espécie. É o tipo de trabalho que parece árido de fora e se revela um detetivesco de ossos por dentro: cada vértebra, cada proporção, cada curvatura do esqueleto vai sendo interrogada até revelar sua identidade. A conclusão foi inequívoca. O animal era inédito para a ciência.

O nome escolhido é uma obra de referências em camadas. O gênero, Galahadosuchus, combina “Galahad” (o cavaleiro arturiano famoso por sua postura moral impecável e, não por coincidência, por sua postura literalmente ereta) com “suchus”, o sufixo greco-egípcio para crocodilo. A postura ereta do animal, com pernas posicionadas diretamente sob o corpo (ao contrário das pernas abertas dos crocodilos modernos, que lembram alguém tentando fazer splits com má vontade), justificava plenamente o cavaleiro como patrono. O epíteto específico, jonesi, é a parte que transforma uma publicação científica numa história de gratidão improvável.

David Rhys Jones era professor de Física na Ysgol Uwchradd Aberteifi, escola secundária de Cardigan, e foi quem despertou no jovem Bodenham a curiosidade pela Ciência. O detalhe cômico da história é que Jones era professor de Física, e Bodenham foi para a Biologia. Jones, esportivamente, chama a Biologia de “ciência mais suave”, o que, vindo de um homem que acabou de ter um crocodilo triássico batizado em sua homenagem, soa mais como elogio disfarçado do que crítica.

Do ponto de vista científico, o Galahadosuchus jonesi não é apenas um nome bonito numa lista de espécies. Sua descoberta contribui para um quadro cada vez mais rico da biodiversidade do Triássico tardio nessa região, um período que antecede a extinção em massa do limite Triássico-Jurássico, evento ligado a intenso vulcanismo e à desestabilização climática. Estudar o que havia antes da catástrofe e como os diferentes grupos responderam a ela é uma forma de entender os mecanismos profundos da resiliência e da extinção, tema que, convenhamos, nunca esteve tão atual quanto hoje.

No fim das contas, o que essa história tem de mais bonito não é o crocodilo que corria como galgo, nem o fóssil que dormiu meio século numa gaveta, nem mesmo o nome em latim que o tornará imortal nas revistas científicas. É o fato de que um professor de escola pública do País de Gales, por fazer bem o seu trabalho, por ser curioso e honesto e engraçado e exigente na medida certa, acabou gravado na memória de um aluno com a permanência que só a rocha e a Ciência podem conferir. Qual professor não gostaria de ter o seu nome num crocodilo?

A pesquisa foi publicada no periódico The Anatomical Record

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