
Segunda-feira. O dia em que a humanidade retorna ao trabalho com a mesma energia de um gato sendo empurrado para dentro de uma banheira com água gelada. Café do trabalho horrível, porque o pó é vagabundo, a cafeteira tá suja e a Tia do Café odeia todo mundo. Some-se a isso boletos acumulados e aquela suspeita persistente de que a civilização inteira é um grande projeto que saiu do controle, feito por algum débil mental, mas ninguém teve coragem de cancelar. Então, você abre o noticiário esperando algum escândalo político ou desastre geopolítico de bom nível… e descobre que, no interior da Índia, agricultores estão combatendo macacos vestindo fantasias de urso. A semana mal começou e a espécie humana já entrou em modo experimental.
A cena ocorre… Onde? Onde? Onde? Acertou quem disse Uttar Pradesh, local em que a magia da insânia é corriqueira e onde agricultores enfrentam uma tropa de mais de cem macacos que decidiu transformar plantações de batata e morango num restaurante self-service. Chegam, comem, bagunçam, vão embora. Não pagam conta, não deixam gorjeta e, pior de tudo, nem sequer escrevem avaliação online. É o Capitalismo Agrícola confrontando o Socialismo Primata.
Como qualquer cidadão integrado à sociedade, os agricultores fizeram o procedimento padrão: pediram ajuda ao governo. E o governo respondeu com a eficiência burocrática universal, prometendo estudar o caso, analisar alternativas e, com sorte, talvez criar um comitê para discutir a possibilidade de pensar sobre o problema em algum momento entre agora e o próximo eclipse solar.
Diante dessa avalanche administrativa de nada, os agricultores do vilarejo de Firozpur tomaram uma decisão revolucionária. Compraram uma fantasia de urso.
Nada de drones, ou sensores ou cercas elétricas de última geração. Uma fantasia de Zé Colmeia genérico feita de poliéster, provavelmente fabricada na mesma linha de produção que faz roupas de mascote escolar e pijamas infantis. O plano operacional é simples: um homem veste o traje, sai caminhando pela plantação e tenta convencer cem macacos de que a natureza resolveu reinstalar um predador no bairro.
Até eu fiquei com vontade de fugir dessa merda, mas por vergonha alheia.
O mais alarmante de toda essa história é que funciona. A macacada meteu 20 no veado e meteram o pé fugindo de um Zé ruela suado dentro de uma roupa de urso sintético comprado na Aliexpress ou em algum site merda nesse sentido. O agricultor Dharambir explicou a estratégia com a tranquilidade de quem já passou por todas as fases do desespero e chegou à iluminação zen:
Os macacos fazem bagunça e comem nossas batatas e morangos. Devem ser mais de 100. Eles fogem quando nos veem assim. Dois ou três de nós estão fazendo isso.
A frase final merece contemplação. Dois ou três de nós. Não um programa nacional. Não um departamento ambiental. Dois ou três sujeitos vestindo urso em regime de escala, como se isso fosse um cargo público informal que ninguém percebeu existir. E isso não e um caso isolado. Em vários locais estão comprando esta fantasia e saciando suas fantasias macaquescas.
Enquanto isso, as autoridades garantem que pretendem capturar os macacos e soltá-los em áreas de floresta… algum dia. Essa promessa pertence à mesma categoria de declarações institucionais que “vamos reduzir a burocracia” e “o transporte público vai melhorar em breve”. Todos reconhecem o ritual. Ninguém espera o resultado.
Há ainda um pequeno detalhe cultural: na tradição hindu, o deus-macaco Hanuman, herói da epopeia Ramayana, é amplamente venerado. Em muitas cidades, macacos circulam por templos e mercados com algo próximo de imunidade religiosa. O agricultor, portanto, vive num paradoxo magnífico: não pode eliminar o macaco, o governo não remove o macaco, e o macaco – completamente alheio ao debate teológico – continua comendo morango.
E assim chegamos ao retrato perfeito da civilização em 2026. A espécie que construiu telescópios espaciais, aceleradores de partículas e vacinas de RNA depende agora de um homem andando num campo vestido de urso de poliéster para proteger batatas na terra que praticamente criou a Matemática que temos hoje, a começar pelos números.
Enquanto isso, uma centena de macacos observa tudo à distância com a expressão típica de quem sabe exatamente o que está acontecendo. Eles sabem que aquilo não é um urso. Sabem que é um homem com fantasia barata.
