Como dinossauros viraram múmias de 66 milhões de anos

Imagine morrer de sede no meio de um leito de rio seco, seu corpo ficar ali torrando no sol do Cretáceo por uma ou duas semanas, e então – ÇURPRAISE, MODAFÓCA! – uma enchente repentina te enterra sob toneladas de sedimento. Parece o roteiro do tipo Premonição, com aquelas mortes desagradáveis, certo? Pois bem, para alguns sortudos Edmontosaurus annectens, um dinossauro do tamanho de um ônibus e com bico de pato, essa sequência trágica de eventos acabou sendo o bilhete dourado para a imortalidade científica. E agora, 66 milhões de anos depois, paleontólogos da Universidade de Chicago estão usando esses cadáveres mumificados para finalmente responder àquela pergunta que você nunca soube que tinha: como eram realmente os dinossauros quando estavam vivos, com toda sua carne, pele escamosa e… cascos?

A história começa em 1908, quando Charles Sternberg encontrou em Wyoming esqueletos de dinossauros cobertos por grandes áreas de pele escamosa. Ele e o paleontólogo H.F. Osborn começaram a chamar esses fósseis de “múmias de dinossauros”. O termo pegou, mas gerou uma confusão monumental. Porque quando você fala “múmia”, todo mundo pensa em uns egípcios embalados em trapos, órgãos em vasos canópicos e no Brendan Fraser.

Só que as múmias de dinossauros não têm absolutamente nada a ver com isso. O que o dr. Paul Sereno e sua equipe descobriram, depois de anos de análise usando tomografias, microscopia eletrônica e espectroscopia de raios-X, é algo simultaneamente mais mundano e mais extraordinário: uma máscara de argila fininha (com menos de um milímetro de espessura) que se formou sobre o corpo em decomposição e capturou cada escama, cada ruga, cada detalhe anatômico antes de tudo apodrecer completamente.

É como se a natureza tivesse inventado uma impressora 3D de argila 66 milhões de anos antes de nós. O processo é fascinante: quando o Edmontosaurus morria de desidratação, seu corpo secava ao sol. Então, veio a enchente que enterrava a carcaça rapidamente. À medida que o corpo se decompunha, bactérias formavam um biofilme sobre a pele. Esse biofilme tinha uma propriedade eletrostática que atraía partículas de argila do sedimento, que se depositavam como um molde perfeito. Quando todos os tecidos moles finalmente desapareceram, ficou apenas essa película finíssima, um negativo perfeito da anatomia externa do animal.

Os pesquisadores chamam isso de “máscara de argila”, e embora o processo já fosse conhecido em ambientes marinhos, ninguém imaginava que pudesse funcionar em um ambiente terrestre bem oxigenado. Mas aconteceu. E aconteceu repetidas vezes em uma área minúscula que os cientistas apelidaram de “zona das múmias”, isto é, um círculo de menos de 10 km de diâmetro no Wyoming que produziu pelo menos meia dúzia de espécimes extraordinariamente preservados. A Geologia ajuda a explicar: a região estava afundando rapidamente, acumulando sedimentos depressa. Combine isso com o clima de monções (seca extrema seguida de enchentes), e você tem a receita perfeita para enterrar dinossauros antes que predadores os destruíssem.

A equipe trabalhou com dois espécimes principais: um juvenil de cerca de dois anos e um adulto jovem entre cinco e oito anos. O juvenil preservou seu perfil carnudo completo, incluindo uma crista carnuda no pescoço e nas costas. O adulto preservou algo ainda mais espetacular: uma fileira de espinhos sobre os quadris e a cauda, e – aqui vem a parte que fez todo paleontólogo cuspir o café – cascos cobrindo os dedos das patas traseiras.

Este é o primeiro réptil com cascos já documentado, e também o exemplo mais antigo de casco em qualquer vertebrado terrestre conhecido. Os cascos eram em forma de cunha, achatados como os de um cavalo, e cobriam as pontas dos três dedos das patas traseiras. O interessante é que elas tocavam o chão apenas com essas pontas endurecidas, enquanto as patas traseiras tinham uma almofada carnuda atrás dos cascos. Uma anatomia bizarra que os pesquisadores ainda estão tentando entender completamente.

Para confirmar a interpretação, fizeram algo engenhoso: pegaram uma pegada fossilizada de dinossauro de bico de pato encontrada no Canadá (aparentemente abandonada em uma prateleira de museu) e criaram uma versão digital do pé reconstruído. Encaixe perfeito. A pegada até mostrava as escamas na sola do pé. Juntos, pé e pegada geraram a primeira visão completa de um pé carnudo de dinossauro de bico de pato, resolvendo um mistério de mais de um século.

Os cientistas também documentaram que a pele era coberta por escamas pequenas e delicadas, com padrões que variavam conforme a região do corpo. A fileira de espinhos sobre a cauda revelou que o “couro” desse animal era muito mais complexo do que qualquer reconstrução histórica imaginou. Adeus, dinossauros lisinhos dos livros antigos. Olá, criatura com arquitetura dérmica elaborada.

E aqui está a parte ligeiramente apreensiva: a área continua produzindo fósseis excepcionais. Além dos dois Edmontosaurus “múmias”, a mesma região rendeu um Triceratops com grandes áreas de pele preservada e um T. rex articulado com contorno sedimentológico do corpo. É como se houvesse algo naquele cantinho específico do Wyoming que transformava dinossauros mortos em cápsulas do tempo anatômicas.

Há algo profundamente poético aqui. Durante mais de 100 anos, esses fósseis guardaram seus segredos sob camadas de interpretações equivocadas. Todo mundo achava que eram impressões de pele, talvez vestígios de tecido original. Mas não. Era argila comum que, por um acaso extraordinário de química e timing perfeito, capturou a aparência de uma criatura que morreu 66 milhões de anos atrás com fidelidade que nenhum artista jamais conseguiu reproduzir.

É o tipo de descoberta que nos lembra por que a Paleontologia continua empolgante. Não se trata apenas de desenterrar ossos velhos. Trata-se de olhar para uma película de argila mais fina que papel e enxergar nela o retrato definitivo de um animal que ninguém vivo jamais viu. E graças a esse capricho geológico, agora sabemos que pelo menos um dinossauro tinha cascos, usava uma crista carnuda estilosa e ostentava espinhos na cauda.

O Edmontosaurus annectens foi finalmente renderizado em sua glória carnuda completa, provando que a realidade pré-histórica era ainda mais estranha e maravilhosa do que qualquer reconstrução jamais imaginou.

Esta pesquisa foi publicada no periódico Science.

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