Os horripilantes casos de enterros prematuros

Algo de errado no ar. A respiração está difícil, pesada, a poeira entra pelas narinas. Um mexer das mãos bate com um som surdo. Madeira. A tentativa de mexer as pernas é infrutífera; não há espaço! Olhos se abrem, mas o que se vê é a escuridão aterradora, o corpo tenta se sacudir, mas a única coisa que se pode perceber é que está preso dentro de uma caixa. O grito de horror finalmente sai da garganta e é horrível, mesmo para a única pessoa capaz de ouvir: a mesma que gritou. O destino está selado… selado dentro de um caixão! E a desafortunada pessoa jazia ali, enterrada viva, e seus próximos minutos serão de uma agonia atroz enquanto cada molécula de oxigênio é consumida e a morte virá por asfixia.

Você já se perguntou do porquê de haver velórios? Não apenas pelo inveterado sadismo do Cristianismo, os velórios vieram por causa de um medo patológico: as pessoas serem enterradas vivas. Isso tem até um nome: Tafofobia.

Isso virou uma febre, ainda mais por causa dos relatos que circulavam. Por exemplo, no século XIV já havia relatos de pessoas sendo enterradas vivas, entre eles o filósofo John Duns Scotus (1266 – 1308). Segundo reza a lenda (não se sabe se ocorreu ou não, ok?) que quando seu túmulo foi aberto, o corpo do ilustríssimo erudito, seu corpo fora encontrado fora de seu caixão, com as mãos rasgadas de uma maneira que sugere que ele já tentou se libertar. Claro, não há nenhuma prova ou relato fidedigno disso, apenas uma lenda que povoou a mente de muitas pessoas nos anos subsequentes.

O século XVIII teve como alvorecer de muitas coisas, desde a Revolução Industrial até uma histeria coletiva trazendo um pavor horrendo de ser enterrado prematuramente. A Medicina, obviamente, não era como hoje e o conceito de morte cerebral não existia muito bem, já que não havia equipamentos. Houve uma correria para a Ciência desenvolver técnicas para saber se uma pessoa está morta realmente, ou em algum tipo de sono profundo. Outra correria que houve foi o de ganhar dinheiro com engenhocas que servissem de alarme para o caso da pessoa acordar do sono que supostamente seria eterno.

Isso é um tema tão assustador que muitos escritores de suspense e terror se atiraram como gatos aos bofes para escrever sua história a respeito. Stephen King tem o Sala de Autópsia nº 4, em que o cara é picado por uma cobra, entra em coma, é dado como morto e é levado para um necrotério. Lá, ele acorda, mas não consegue se mover, enquanto os legistas se preparam para abri-lo e fazer a autópsia, para horror do pobre coitado.

Edgar Allan Poe tem o seu conto Enterro Prematuro, narrando uma história de alguém que foi enterrado prematuramente (óbvio). É nesse livro que ele usa o termo “catalepsia”, termo esse adotado imediatamente pelos médicos e usado até hoje.

No caso da Medicina, muitos médicos desenvolveram técnicas de curiosas a questionáveis para determinar se uma pessoa estaria viva ou morta. Colocar um espelho sob as narinas para ver se embaçava, derramar vinagre e/ou pimenta na boca do cadáver, espetar com um ferro em brasa os pés ou o reto do suposto defunto, e daí para pior!

Voltando ao século XVII, há o caso bem documentado que ocorreu na Inglaterra, em que uma mulher com o nome de Alice Blunden foi enterrada viva. Não se sabe muito sobre ela a não ser que era uma pessoa horrível, o que pode explicar por que fizeram o que fizeram. A única descrição detalhada sobre o que aconteceu com ela apareceu em um tratado publicado em 1675, sendo que ela morrera um ano antes, mais precisamente em 15 de julho de 1674.

Segundo a história, Alice ficou tão chapadaça depois de tomar uma grande quantidade de chá de papoula que caiu dura. As pessoas acharam que o momento final dela tinha chegado e chamaram um médico. O preclaro facultativo, ao segurar um espelho sob o nariz e a boca da pobre Alice, viu que estava mortinha da Silva… ou pelo menos a declarou assim. O chá feito com a papoula estava que nem a cara de quem fez, e lotado de morfina e codeína, sendo praticamente um chá que passarinho não bebe.

A família de Alice tratou logo de cuidar do seu enterro, o que era um tantinho complicado, já que era uma mulher muito grande; com isso, seus familiares tiveram que colocá-la em seu caixão empurrando seus braços e pernas para baixo com uma vara enquanto o selavam. Só isso já garante uma cena dantesca e capaz de causar pesadelos.

Mas dois dias depois que ela foi enterrada, crianças brincando perto de seu túmulo ouviram barulhos e, claro, picaram a mula dali. O diretor da escola foi verificar o túmulo por si mesmo e ficou aterrorizado com o que ouviu: barulhos como se algo estivesse lutando para sair dali. Bem, só podia ser Alice. O problema é que o diretor não podia cavar o túmulo ou teria sérios problemas se fosse pego e denunciado como violador de sepulturas. Caso isso acontecesse, ele seria outro a precisar de uma sepultura, porque isso era passível de pena de morte.

Tá bizarro o suficiente? Pois piora. Quando abriram a sepultura a desafortunada srª Blunden saltou de onde ela havia sido empurrada com tanta força. Pessoal entrou em pânico e sentaram a porrada nela e a deixaram lá, ensanguentada, à beira da morte. Com isso, acharam melhor deixar ela lá no túmulo mesmo para ver se morria de vez; e para terem certeza, colocaram alguém pra vigiar, só que, devido ao mau tempo naquela noite, o guarda decidiu que preferia estar no pub local, abandonando o túmulo. Na manhã seguinte, voltaram até o túmulo e ficaram chocados mais uma vez. Alice Blunden havia rasgado as roupas, arranhado o corpo e o rosto e estava coberta de sangue, e quando a encontraram, já estava morta.

No início da década de 1790, o duque Ferdinand de Brunswick encomendou o que pode ter sido o primeiro caixão de segurança do mundo. Tinha uma janela para deixar a luz entrar, um tubo que liberava ar fresco e uma tampa que se fechava com um cadeado em vez de pregos. No bolso de uma mortalha a ser usada por Brunswick havia duas chaves, uma para a tampa e outra para a porta do túmulo.

Em 1798, um certo padre alemão chamado P.G. Pessler, que depois de revirar a Internet não descobrir o nome todo, já que todo mundo cita assim (provavelmente, alguém que não tinha este nome, mas você não lerá outro dizendo isso) sugeriu que todos os caixões possuíssem um tubo, a partir do qual uma corda sairia e chegaria até os sinos da igreja mais próxima. Ao acordar do sono que não deveria acordar, era só puxar a cordinha.

Em 1822, o Dr. Adolf Gutsmuth partiu para vencer sua tafefobia, entregando-se a um “caixão de segurança” que ele havia projetado. Por horas, ele permaneceu no subsolo, durante o qual consumiu sopa, salsichas e cerveja, entregues através de um tubo de alimentação embutido no caixão.

Os alemães, como sempre, foram particularmente engenhosos ao patentear mais de 30 designs diferentes no século XIX. O mais conhecido foi a ideia do dr. Johann Gottfried Taberger, que incluía um sistema de cordas que prendia as mãos, pés e cabeça do cadáver a um sino acima do solo para alertar um vigia noturno do cemitério.

O caixão de segurança projetado por Taberger em 1829 se diferenciava de outros similares, porque os demais podiam ser acionados por animais ou o vento, dando uma espécie de falso positivo, ou assustar pessoas que pensariam que zumbis estavam se levantando da tumba, como este diagrama aqui embaixo, cuja foto real abre o artigo.

No design do bom doutor, o sino ficava protegido num alojamento, que não só evitava o tocar acidental como impedia que a água da chuva molhasse o “cadáver”, além de ter uma malha para impedir os insetos. No caso de o sino soar, quem fosse socorrer iria se valer de um segundo tubo que ia até os pés do caixão e bombear ar por meio de um fole. Engenhoso, não?

Em 1895, o médico J. C. Ouseley afirmou que cerca de 2,7 mil pessoas foram enterradas prematuramente a cada ano na Inglaterra e no País de Gales, embora outros estimaram que o número seria mais próximo de oitocentas. A histeria coletiva com essas ocorrências (que não foram provadas) levou a invenções de todo tipo, devidamente patenteadas.

Se interessou? Bem, em 2016 lançaram um caixão premium, com internet wi-fi de alta velocidade, PlayStation e uma tela de TV com som surround de alta definição.

Da Terra nada se leva, mas o problema é quando nem você é levado, e ficar esperando é um saco!

5 comentários em “Os horripilantes casos de enterros prematuros

  1. Eu fiquei o tempo todo pensando no conto Solfieri, do Álvares de Azevedo (quem mais, né?). A tal da moça no caixão tinha tido catalepsia, mas pelo que eu me lembre ela estava numa capela, talvez esperando mesmo um tempo pra verem se ela tinha morrido – isso faz bastante sentido agora que li o seu texto. Solfieri acabou “salvando” a moçoila só pra ela morrer dois dias depois – e nem queira saber o que ele fez com ela antes que ela acordasse.

    1. Se fosse hoje em dia; aqui no Brasil não daria certo , os craqueiros levam todo alumínio e cobre dos cemitérios… iam surrupiar esse sino facilmente.

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