Analisando séries e filmes de super-heróis IX

SHAZAM!, um filme de natal fora da época de natal

SHAZAM! (2019) foi um excelente filme, mas flopou vergonhosamente, arrecadando no total quase 366 milhões de dólares, tendo custado 100 milhões na sua produção. Afinal, qual o problema do filme? De novo, há quem jure que o filme é ruim, e como eu já falei várias vezes nesta série, nunca dizem o POR QUÊ o filme é ruim. Ok, até dizem e irei explorar isso. Mas será mesmo que isso significa que o filme é ruim e ninguém quis ver?

O Capitão Marvel começou nos quadrinhos antes da Capitã Marvel e do Capitão Marvel (what?).  Pois é. O Shazam começou sua carreira com o nome de Capitão Marvel em 1940, criado por C. C. Beck e Bill Parker para uma editora chamada Fawcett Comics, que publicou na revista Whiz Comics #2 sua primeira história.

Billy Batson encontra o mago Shazam e este lhe dá o segredo de ser um campeão da Justiça, usando a palavra mágica do nome, que é o acrônimo de grandes heróis da Antiguidade. Billy ao pronunciar a palavra mágica, Billy se transforma naquele que tem a sabedoria de Salomão, a força de Hércules, a invulnerabilidade de Atlas, o poder de Zeus, a agilidade de Aquiles e a velocidade de Mercúrio (dane-se se está misturando personagens gregos, romanos e um rei hebraico. É uma história em quadrinhos!). Um ano depois, a Republic Pictures lança uma série feita para cinema (TV era raro, ainda). E olhem que para 80 anos, os efeitos visuais eram melhores que muita porcaria que temos hoje:

Voltando aos quadrinhos, eu sei que vocês adoraram a capa. Sim, eu também achei maneiríssima. O problema é que algumas pessoas de mau-humor não gostaram. Sei lá, acho que deve ser porque em 1938, dois anos antes, saiu uma revista com esta capa

Pois é. Uma certa empresa chamada National Publications não gostou nadinha de ter um super-herói com capa tendo super-força, super-velocidade, super-tudo. Meteu a Fawcet no pau e ganhou em 1953, com a Fawcett tendo sido obrigada a cancelar todos os títulos da Família Marvel e pagar uma multa de US$ 400 mil, o que equivaleria hoje a 3,88 milhões de dólares à National Publications. Esta editora iria se chamar no futuro DC Comics.

O nome Capitão Marvel ficou no limbo. Em 1966, a M.F. Enterprises lançou um Capitão Marvel, mas que não tinha nada a ver com o herói criado pela Fawcet. Este Capitão Marvel era um andróide com poderes de soltar peças do seu corpo (não essa peça. Mas não ponho minha mão no fogo).


Capitão Marvel Robô

O criador deste herói foi o artista Carl Burgos, que entre outros personagens criou o Dr. Fu Manchu, tendo até feito alguns desenhos do Capitão América, além de outro notório trabalho: o Tocha Humana. Não, não é o Tocha Humana do Quarteto Fantástico. O Tocha Humana original era um andróide com capacidade de se cobrir de chamas. Ele até aparece na maravilhosa série Marvels, de Alex Ross.


Tocha Humana original

O único problema é que um sujeito tinha (cof cof cof) se baseado neste personagem para criar um garoto que adquiriu poderes de se cobrir de chamas. O garoto era Johnny Storm e o (cof cof cof) criador foi Stan Lee e Jack Kirby, com Stan ganhando todo o crédito como sempre. Burgos não gostou nada e processou a Marvel, ganhando. Até o fim da vida ele gostava tanto de Stan Lee quanto eu adoro um tratamento de canal. Stan era muito camarada, principalmente com as criações alheias e usava toda sua influência na Marvel para resolver alguns… probleminhas. Que o diga Steve Ditko.

Quando a Marvel viu o nome Capitão Marvel quicando, ela comprou os direitos. A DC poderia ter ficado, mas a chance de ter um Capitão DC na Marvel era praticamente menos que nula, então, por que ter um Capitão Marvel na DC Comics? Não fazia sentido. DC, então, pegou a palavra mágica que o personagem gritava e fez disso o nome do herói. Quanto à Marvel, inventou que o herói era um Kree chamado Mar-Vell e ganhou uma patente, para depois fazerem uma mudança de personagem. Em contrapartida, a família do Shazam continuou sendo a família Marvel, e a Marvel (editora) ficou bolada mas não podia fazer nada. Quem se importa com os chiliques da Marvel quando ela apenas pegou a rebarba?

O Capitão Marvel/Shazam inovou num detalhe. Enquanto quase todos os heróis tinham sidekicks adolescentes, de forma a trazer as crianças e jovens para se identificarem e participarem das aventuras num mundo de imaginação. No caso do Capitão Marvel, ele já é um adolescente, com uma visão de um adolescente da época, indo para um mundo de otimismo ao invés de ser aquelas tristezas amarguradas marvelianas que marvetes tanto adoram, mas que criticam se aparece nos filmes da DC. Só o Peter Parker pode ser um fodido. Com o tempo (e vários, reboots, temos uma nova roupagem do Shazam.


Eu prefiro a simplicidade da roupa antiga

Na atual versão de Shazam, Billy Batson é uma criança que foi enxotada pela mãe, passando a morar de lar em lar adotivo, normalmente fugindo. Ele não se adapta, mesmo quando tem pais amorosos, pois ele quer voltar pra mãe. Como todo aborrecente, ele acha que sabe das coisas e o que é melhor pra ele, e como todo aborrecente, ele faz um monte de merda. Pronto, taí o herói dramático que tanto queriam, certo? Bem, ele vai parar numa família multiétnica, conhece o mago Shazam.

Diferente do Peter Parker, Billy Batson não tem um tio Bem explicando sobre poderes e responsabilidades, daí, realisticamente faz o que todo aborrecente costuma fazer sem poderes, ainda mais COM poderes: merda. Ele não sabe os poderes que tem, não sabe usar os poderes que tem e quando se junta a seu irmão emprestado fanático por personagens de quadrinhos, Freddy, Billy vai testar os seus poderes e tentar combater o crime. Mas visando o bem maior e aqueles ideais que todo super-herói tem… na mente de um moleque que sempre viveu fugindo de todo mundo e se virando para sobreviver. Sim, Billy cobra pelos seus serviços.

Ué? você achou que eu estava falando do filme? Ah, sim, você está com dificuldade de entender, mas é verdade: o filme segue igualzinho ao Shazam Volume 1, dos Novos 52. É interessante o pessoal que é fã de quadrinhos dizer que o filme é ruim, porque são fãs de quadrinhos que não gostaram de um filme de super-herói que segue a história dos quadrinhos. Então, chega o momento que eu adoro: perguntar sobre o que é a história. Sim, porque se gostou ou não gostou tem um motivo e este motivo tem que ser pautado em como a história foi contada primariamente, e como é sua execução, certo?

Se você não sabe, vou lhe dizer: Shazam é um filme sobre uma criança abandonada, uma criança desprezada pelos pais, uma criança com raiva de tudo e de todos, que nutre uma raiva interna e precisa extravasar, e isso só é feito com vingança. A história é sobre uma criança que tem um vislumbre de poder e pode tirar proveito disso, uma criança que tem a chance de realizar tudo o que sempre quis: se vingar do mundo inteiro, pois não existe nenhuma outra pessoa em seu universo a não ser ela mesma, pois passou a vida inteira praticamente sozinha.

A história é sobre o dr. Silvana (ou Sivana, no original em inglês).

O dr. Silvana no início era um cientista maluco que criava coisa loucas para dominar o mundo. O tipo de coisa que foi debochada pelo Megamente. Sofreu algumas reescritas até que nos Novos 52 ele é um empresário e cientista que tenta salvar sua família, e quando a ciência falha ele parte para a mágica.

Este Silvana é diferente do anterior, que não tinha uma origem muito certa. O atual é filho de um pai dominador que pouco se interessa pelo filho, e quando o próprio Silvana tenta usar a ciência e esta não consegue lhe dar o que precisa, sua raiva intensa explode ao perceber que Billy Batson ganhou os poderes do mago Shazam, e não ele, já que ele, o poderoso e magnífico Silvana não foi considerado digno de tais poderes. O que mais irrita Silvana é que Billy tem tudo o que ele, Thadeus Silvana (vou manter a versão aportuguesada), sempre sonhou: uma família e poderes mágicos. Billy conseguiu os dois e não sabe nem se interessa em fazer bom uso. Para o dr. Silvana, Billy não é digno.

Mas os princípios primordiais são mais do que isso. Billy apenas foi endurecido e não queria se dignar a receber amor por medo de perder. Ele ainda esperava que sua mãe o recebesse de volta, mas ela meteu o louco e o rechaçou. A família adotiva, principalmente a amorosa Darla, quebram essa dureza. Fazem de Billy uma pessoa mais humana, e ele entende o seu lugar no seio da família e com os poderes mágicos, ele consegue vencer Silvana, que é puro ódio.

Não por acaso, a história (mesmo na HQ) se passa no Natal, então temos dor, abandono e ódio se juntando aos 7 Pecados Capitais (princípios de onde Silvana está tirando superpoderes para poder enfrentar o Shazam) sendo vencidos não pela Sabedoria de Salomão e os poderes Antigos. O que vence é a família, a união de mais 6 pessoas: os irmãos adotivos de Billy, formando a Família Marvel (danem-se, sou velho e continuarei chamando de Família Marvel. Me processem!).

Todos os atores do filme, a começar pelo Zachary Levi imitando um garoto de 14 anos, são ótimos, e as pontas de humor não ficaram forçadas como em Esquadrão Suicida pr ser justamente parte do filme e não algo enfiado de qualquer jeito, com os créditos mais divertidos dos filmes da DC. Shazam se mostrou em toda plenitude um perfeito filme de Natal, mas a Warner como sempre não soube fazer as coisas direito. Lançou no primeiro semestre de 2019, junto com outro filminho simples que ninguém daria a menor pelota: Vingadores Ultimato.

Não que as pessoas não poderiam ver os dois filmes. Dizem que não, mas poderiam. O problema é que não houve o apelo. Shazam, o Filme, deveria ter sido lançado num Natal, que reinaria sozinho nas bilheterias. Um erro de marketing brutal, mas em nenhum momento isso faz dele um filme ruim. Reclamaram que o filme era colorido demais. Quem reclamou disso também reclamou que os filmes do Snyder são cinzentos e sombrios. Reclamaram que o filme era bobo. Porra, você com 14 anos tendo super-poderes iria discutir Nietzsche? Os “defeitos” que tentaram imputar no filme não se aplicam, e os que adoraram o filme não viram na data e a Warner lançou em home video um mês depois.

Como todo filme, há problemas a serem resolvidos e o diretor e sua equipe tentam resolvê-lo na pós-produção. Neste vídeo vemos o diretor David F. Sandberg explicando como ele e sua equipe resolveram alguns problemas de continuidade do filme. Fantástico!

O que deu errado no Shazam? Nada a não ser os executivos da Warner fazendo merda, como (não) colocar o Super-Homem no filme, em que o rosto não aparece porque… eu sei lá. Acho que com as técnicas de deepfake que temos hoje, ou apenas 5 minutos de gravação seriam mais que suficientes para colocar o Henry Cavill lá. Mas isso é muito diferente de dizer “o filme é ruim”. Você pode repetir isso até amanhã, mas não vai convencer nem a si mesmo. Se você insistir que não gostou porque o filme é ruim, admita que você acha que o filme é ruim unicamente porque não gosta dos personagens ou da própria DC. Será honesto, sabe?

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