Analisando séries e filmes de super-heróis XVI

Stan Lee não é isso tudo, e sim; você foi enganado!

Ok. Você gosta do Stan Lee. Todo mundo gosta do velho Stan, ainda mais por causa das pontas que ele sempre fez nos filmes e séries, já aparecendo no seriado do Hulk com o Lou Ferrigno. Cada filme do MCU é mais concorrido no Onde Está Stan Lee do que o Wally. Obviamente, muitos acham que sem Stan Lee, os quadrinhos não seriam o que são, mas não estão muito errados…

Embora estejam errados.

Eu já sei, você não vai gostar do que eu vou dizer, mas a verdade é que Stan Lee sempre foi melhor marketeiro do que criador de quadrinhos. A bem da verdade, o que ele era bom mesmo era em criar hypes de personagens, mas os personagens bons mesmo não foram criação sua; e os que ele “criou”, ele ou kibou de personagens já existentes ou apenas tinha uma vaga ideia do que queria e mandava a bola pros outros. Pois é, é a verdade.

Não vou começar com a biografia do Stan Lee, só vou dar um pequeno detalhe que vai explicar muito das atitudes dele: Ele era de uma família pobre do Bronx. Isso mexeu tanto com ele que ele achava que todos os heróis tinham que ser fodidos, com maiores preocupações como o preço das compras do mês do que com algum inimigo perverso. Não raro, seus personagens são um bando de cuzões, ou os que não eram cuzões, Stan Lee fez de tudo para que fossem.

Vamos pegar o exemplo do Homem-Aranha, um dos carros-chefe da Marvel. Pois é, o Teioso não foi criação do Stan Lee. Ele vem de muito antes, quando Jack Oleck, C.C. Beck e Joe Simon tinham criado um personagem baseado nos poderes de uma aranha. Por sinal, estes três criaram outro personagem magnífico: Capitão Marvel, que depois virou Shazam. Oleck, Beck e Simon chamaram Jack Kirby num canto para falarem com ele sobre o personagem. A época? Década de 1950. Juntos, eles criaram o Homem-Mosca, o qual seria publicado em 1959.

Stan Lee teve uma ideia parecida. Nada demais nisso. Ele pensou em um super-herói baseado nos poderes de uma aranha. Sim, essa foi a sua “grande” criação do Homem-Aranha “Jack, my boy, preciso de um super-herói aracnídeo”. Jack Kirby foi trabalhar e fez um. O problema é que Stan Lee viu o trabalho e detestou, odiou mesmo. Segundo ele, o super-herói de Kirby era… bem, era um super-herói, e Stan Lee tinha aquela idiossincrasia que todo personagem de quadrinhos tinha que ser um fodido, não podia ser heróico. Até mesmo o Quarteto fantástico (já vamos falar sobre eles), parecia uma família de fodidos. Pessoal se identifica com losers, provavelmente. Por isso Stan não gostava de personagens como o Super-Homem e Batman. Eles eram heróicos, como uma lanterna de esperança e um desejo de Justiça, ainda que estes tenham seus conflitos pessoais, eles não eram o centro, nos personagens de Stan Lee, o egocentrismo sempre reinou na base de “oh, olhem como eu sofro”. VOCÊ ESCALA PAREDES E TEM SUPER-FORÇA, CARAMBA!!! Enquanto personagens da DC servem de inspiração, os personagens de Lee são para ficar se lamuriando sem querer fazer nada para sair daquilo.

No caso do Aranha, o trabalho foi mandado para Steve Ditko, que assim como Jack Kirby foi outro gênio dos quadrinhos. Percebam que até agora Stan Lee não deu a menor indicação de como seria o Cabeça-de-Teia além de um adolescente ferrado na vida com poderes de aranha. Steve Ditko criou tudo. Ele partiu do ponto que o Aranha era um acrobata, já que tinha que escalar paredes, pular de prédio em prédio, se balançar em teias etc. sendo assim, escolheu um uniforme justo, com sapatilhas no lugar de botas pesadas e os incríveis lançadores de teias.

O design de Steve Ditko era e é tão perfeito em elegância e funcionalidade que é usado até hoje, com mínimas variações. E não apenas o uniforme do Teioso, como os lançadores de teias no pulso com o movimento de acionamento ainda são o mesmo, com uma explicação bem elaborada e funcional, coisa que Stan Lee nunca foi capaz de conceber.

O toque de Stan Lee foi que esse magnífico lançador de teias, com as referidas foram criadas por Peter Parker, um moleque gênio da ciência que não consegue entrar em nenhuma faculdade decente, não fez um curso técnico para ter um emprego que preste e não usa seu intelecto para faturar algum dinheiro, vivendo na pindaíba e trabalhando como freela, vendendo fotos escolhidas a dedo por um sujeito mão-de-vaca, dono de jornaleco. Na visão de Stan Lee, este era o certo mandando um recado pros jovens “não importa as suas capacidades, você vai ser sempre um ferrado na vida”.

Essas decisões de Stan Lee interferindo no roteiro ia deixando Steve Ditko cada vez mais irritado. Ditko escrevia o roteiro, fazia os desenhos, enchia as bordas com explicações do que estava acontecendo e Stan Lee só colocava os diálogos, e muitas vezes alterava a história. Isso gerou várias brigas, a ponto de Lee e Ditko pararem de se falar, com Ditko mandando as artes e o roteiro por mensageiro pra Stan Lee. Um desses pontos de discórdia seria a identidade do Duende Verde. Ditko defendia que tinha que ser alguém de fora, uma solução inesperada, alguém que odiava o Aranha por um motivo a ser revelado, mas baseado num conceito do que o Homem_Aranha representava, e não apenas uma picuinha com alguém por baixo da máscara. Já Stan Lee deu a incrível ideia de ser Norman Osborn, prontamente descartado por Ditko, que achou que isso seria uma solução tosca digna de folhetim de quinta categoria. A discussão acabou com Ditko saindo (demitido) da Marvel e Stan Lee continuando.

Se Ditko foi quem fez o Aranha, por que Stan Lee sempre ganhou os créditos? Pelo mesmo motivo que ele ganhou os créditos por tudo: ele era um falastrão, especialista em marketing pessoal. Ditko era um introvertido, ficando no seu mundinho de prancheta e desenhos, sem ir para os holofotes. Stan Lee era o Sr. Excelsior. E isso ficou demonstrado em outras obras, como o Capitão América, uma ideia que não partiu de Stan Lee, ele sequer chegou perto disso.

A ideia original do Capitão América partiu de Martin Goodman, um editor que em 1939 dirigia a Red Circle, especializada em aventuras de ficção científica e aventura. Nada muito perto do tema de super-heróis. Só que Goodman tinha visão e quando ele viu as histórias do Super-Homem e Batman fazendo sucesso, ele resolveu que queria uma fatia do bolo. Goodman lançou o selo e Timely e foi atrás de artistas e roteiristas capazes de dar conta da sua empreitada. Estava surgindo o Tocha Humana (que não é o do Quarteto Fantástico, mas um androide que pegava fogo), Namor – o Príncipe Submarino e tantos outros; mas isso não bastava!

A Segunda Guerra Mundial tinha explodido e Goodman achou que tinha que fazer algo que inspirasse os jovens a servirem o seu país, e a linguagem dos quadrinhos era excelente para isso. Goodman chamou um excelente artista na época: Joe Simon, e o arte-finalista foi Jack, The King, Kirby. Nascia assim o Capitão América, cuja única participação de Stan Lee no personagem foi ter sugerido que o escudo tivesse o formato redondo de forma que pudesse ser lançado como um frisbee, sendo uma arma defensiva-ofensiva. Capitão América é diametralmente diferente de todas as ideias de Stan Lee sobre um super-herói. Primeiro, ele era heróico (nem mesmo Stan Lee iria mexer com os brios de patriotismo dos americanos), segundo, sem crises existenciais. Nas mãos de John Byrne, Steve Rogers até tinha uma namorada e uma vida fora de ser soldado, mas sem os dilemas existenciais dos personagens idealizados por Lee; ainda assim, o nome de Stan Lee aparece nos créditos do Capitão América e Thor.

Thor foi uma roubadinha, digamos assim, da mitologia nórdica. Com isso, Stan Lee “criou” um deus do trovão que fora arrogante o suficiente para Odin ficar irritado e expulsá-lo para a Terra até que aprendesse lições de humildade. Thor desmemoriado assume a vida do médico com deficiência chamado Donald Blake, que ao encontrar um martelo mágico, adquire novamente os poderes de Thor, o Deus do Trovão. O irmão de Stan Lee, Larry Lieber, chamou o martelo de Thor de “Uru Hammer”, unicamente porque não sabia nada sobre mitologia nórdica, basicamente fazendo uma pesquisa de duas páginas incompletas em alguma revista, pelo visto. Só mais tarde, o escritor Roy Thomas mudou o nome do martelo para o nome mitologicamente correto, “Mjolnir” e usou o nome “Uru” para nomear o metal do qual o Mjolnir seria feito. Hoje em dia o Mjolnir tem até personalidade própria, mas não vamos perder tempo com as loucuras da Marvel.

Agora vamos para outra obra-prima de Stan Lee: o Quarteto fantástico, a história familiar de desbravadores rumo ao desconhecido. Stan Teve a ideia de fazer um grupo de super-heróis que se unia para combater as forças do Mal. De novo, isso foi ridiculamente kibado de uma obra anterior


Familiar, não é mesmo?

Ainda assim, o Quarteto Fantástico recebeu vários pitacos, apesar do próprio Stan Lee ter admitido que Jack Kirby trabalhava sozinho e construiu tudo do zero sozinho, com Lee apenas intervindo em algumas partes, partes essas que Jack Kirby simplesmente ignorava, fato esse apontado pelo John Romita sênior. Hoje, o Quarteto Fantástico só virou sinônimo de péssimos filmes pois seguiram a linha Stan Lee “o principal são os draminhas pessoais” ao invés de uma ficção científica foda. Praticamente o mesmo que levou Stan Lee a criar o Hulk, que segundo ele seria uma versão Dr. Jeckyl/Mr. Hyde da Era Atômica (tudo era radioativo, a aranha do Homaranha, a radiação gama do Hulk, a nuvem radioativa do Quarteto Fantástico etc.). Lee nunca foi bom em desenvolver histórias e isso, como o próprio Jack Kirby falou uma vez, se devia ao fato que ele mesmo nunca tinha visto Stan Lee escrever nada; que não era possível para um homem como Stan Lee inventar coisas novas, ou mesmo velhas, aliás. Stan Lee não era um cara que lia ou contava histórias. Stan Lee, ainda segundo Kirby, um sujeito que sabia onde estavam os jornais ou quem iria visitá-los num determinado dia. Stan Lee era um bom marketeiro. Os artistas eram freelas, não funcionários registrados. Encomendavam-lhe as artes e as histórias e eles entregavam. Lee era o empresário, a cara da Marvel, e foi a cara da Marvel até o fim da vida, com todo mundo esperando sua aparição nas pontas.

Mas… o Stan Lee fez algo de positivo?

Sim. Primeiro de tudo, ele era um empresário e investiu nos quadrinhos, ele realmente amava os quadrinhos, apesar das rusgas com a DC, embora ele visse a importância da DC e outras editoras para manter a indústria de quadrinhos de pé. Isso ajudou a manter essa indústria viva. Sendo bom de marketing, ele divulgava melhor os trabalhos. Isso tem a sua importância. Mas, mais que tudo, apesar de Smillin’ Stan ser péssimo em escrever histórias, ele era um bom criador de personagens. Os Mutantes vieram de uma ideia de colocar em discussão a luta pelos direitos civis dos EUA em plena década de 60. Os então mutantes eram párias, figuras perseguidas unicamente por serem diferentes, sequer sendo vistas como humanos. Isso gerou dois lados. O pacifista Charles Xavier, inspirado em Martin Luther King Jr., e o Magneto, uma alegoria para Malcolm X. Enquanto Martin Luther King era um pacifista, querendo maior entendimento entre brancos e negros, Malcolm X era mais belicista e achava que os negros tinham que se revoltar contra os brancos. Só muito mais tarde Malcolm X entendeu que isso não era um caminho aceitável.

Ainda assim, tanto Martin Luther King e Malcolm X buscavam o mesmo fim, ainda que por modos diferentes, o que foi transcrito pros quadrinhos, para hoje algum millenial idiota relinchar que não tem negros suficientemente, quando são transparentes a qualquer metáfora, num mundo de idiotas que só sabem ser literais.

No tocante à obra, o editor achou que “Os Mutantes” não seria um nome adequado. Aqueles conceitos de mutações, genes etc. não seriam bem compreendidos pelos leitores. Stan Lee pensou e viu o X de Xavier e mudou o título para X-Men, e o editor adorou, para diversão do próprio Stan Lee que apontou que não havia muita diferença de entendimento, mas se gostou, para ele estava ótimo.

Não apenas isso, quando os índices de alcoolismo estavam alarmantes, pediram ao Stan Lee se ele podia dar uma ajuda. Ele passou a bola pro John Romita Sr. E dali saiu o arco O Demônio da Garrafa. Ali fazia sentido Tony Stark sofredor, enfrentando a si mesmo, não um sofrimento gratuito do Quarteto Fantástico, sempre ferrados sem dinheiro e com dramas familiares e DR para todo lado.

Aqui podemos ver o brilhantismo de Stan Lee: a criação de personagens, não em como lidar com eles. Na série Stan Lee: Imagine, em que ele revisita heróis da DC, saiu uma tristeza como o Batman sendo um atleta negro que realmente se veste com morcego, com cara de morcego, quase bebendo sangue das pessoas. Pombas, Stan!

Ainda assim, Stan Lee foi uma face no mundo dos quadrinhos e por mais que eu tenha escrito tudo isso acima, ainda gosto do velho. Ele era um cuzão com quem trabalhava pra ele, mas sabia vender seu peixe e eu adoraria um HQ com o autógrafo dele, foi um rosto numa indústria e isso a fez melhor aos olhos do público,. tal qual foi Steve Jobs na Apple. Apesar das grandes criações não terem sido dele e ter sido um chefe detestável e um ser humano deplorável, Jobs fazia suas apresentações e trazia calor a uma indústria que tinha tudo para ser fria perante o mundo dos bytes. Todo mundo sabia quem era Steve Jobs e o que ele trazia, assim como Stan Lee. COmo pessoas em seus mundos particulares, nada de muito bom pode ser dito, mas isso ficava longe dos consumidores

É preciso que a verdade seja dita, entretanto. A família de Jack Kirby briga na justiça até hoje pelo reconhecimento do Rei, como criador (ou que seja um co-criador) de personagens maravilhosos. Ditko também. Não é certo se apropriar de tudo como sendo o único criador, como um gênio intocável. Sim, Stan Lee é um deus com pés de barro e devemos ver isso. Não para desmerece-lo, mas para dar os créditos a quem tem nos trazidos estes personagens maravilhosos com histórias fantásticas. Marketing é excelente, mas melhor ainda quando o produto é de extrema qualidade, e temos que reconhecer os méritos embaçados e relegados para as coxias, enquanto o apresentador diz ao respeitável público o que ele iria mostrar ali.

EXCELSIOR!

3 comentários em “Analisando séries e filmes de super-heróis XVI

  1. Esse uniforme do homem aranha com teia de baixo do suvaco do Steve Ditko é o meu preferido, poxa o cara fica pulando pelos prédios, ele precisa de uma boa aerodinâmica!

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