Devemos ser intolerantes com a intolerância? (LEIA ANTES DE COMENTAR)

Com toda a onda de maníacos saindo em passeada divulgando ideias neo-nazistas pelas ruas de Charlottesville, cantando hinos, tremulando bandeiras e fazendo Sieg Heil, questionou-se por que permitiram fazer isso. A questão é que a Primeira Emenda da Constituição dos EUA permite qualquer manifestação de pensamento, resguardada pela lei dos Direitos Civis, que não tem nenhuma ressalva sobre o que você pode exprimir, diferente do Brasil, que tem lei federal que proíbe expressamente divulgação de ideologia nazista.

Daí, alguns espertões de Wikipédia resgataram um trecho de um livro do filósofo Karl Popper, o qual estabelecia um argumento do porque não tolerarmos a intolerância alheia, e a isso ficou conhecido como Paradoxo da Intolerância, que como toda proposição filosófica tem probleminhas se você não pesquisa nem pára para pensar (*construção frasal ruim, mas estou com preguiça).


Clica que aumenta

Gostou do cartoon? Lindinho, né? Infelizmente, esta bobagem está errada. Ela foi trada do livro A Sociedade Aberta E Seus Inimigos, mais especificamente na página 289, cujo scan vem:

Popper não estava falando que devemos impedir qualquer discurso de intolerância. Ele defende que primeiramente deve-se permitir a manifestação quando há diálogo racional entre as partes, quando um diálogo nunca é para convencer o outro lado (que já tem suas ideias bem ordenadas), mas para o restante da população que está acompanhando. Ele não conclui com o absoluto “Não devemos tolerar os intolerantes”, pois só Siths lidam com absolutos. Churchill advertiu no Parlamento que Hitler ia acabar fazendo merda, mas também de nada adiantaria tomarem alguma atitude mais séria, ou teriam antecipado a guerra. Teria sido melhor? Teria sido pior? Para isso os elfos não têm resposta, e não se pode depender do que poderia ter acontecido e sim o que efetivamente aconteceu.

Isso, claro, não faz com que eu concorde com o ponto de vista alheio, só porque eu acho que ele deva ter seu lugar de fala. Permitir a chance de fala é diferente de concordar com o que foi dito, e é por isso que a Marcha da Maconha é um direito de expressão. Se tem gente que quer fumar um baseado e, para tanto, solicitam a descriminalização da droga, é um direito de eles pleitearem isso, pois está nos conformes da lei (brasileira). Diferente de você defender tráfico de drogas, o que é apologia ao crime.

Mas seria certo de tolerarmos qualquer intolerância? O problema é que isso não é bem um paradoxo, é sim um dilema. Um dilema em que você é levado a ter dois comportamentos que parecem contraditórios, como o dilema do bonde. Se você desvia para um lugar, morre uma pessoa. Se desvia pro outro, morrem 5. Quem tem mais direito de viver? Você salvando uma é efetivamente bondoso ou um assassino de 5 pessoas? Mas e se o único cara é um cientista e os outros 5 são bandidos? Qual é o valor da vida de alguém?

Da mesma maneira, qual é o valor da opinião de alguém? Porque uma opinião fatalmente irá de encontro a outra, seja qual for. Mal menor, bem maior, cerceia-se uma liberdade de pensamento, e uma liberdade de pensamento que você decide qual terá liberdade para ser exprimida, ou não, não é liberdade de pensamento.

O Estado permite uma passeata pela moral e bons costumes da família tradicional brasileira. Isso pode ser considerado uma afronta a casais homossexuais. Para certos grupos, casais homossexuais são tão família como qualquer outra, mas alguns grupos religiosos discordam. Entretanto, se você impedir esses grupos religiosos de se manifestarem viola a Constituição, e achar que gays não podem ser considerados como família por parte do Estado não é crime. Dizer que estes grupos não podem ter esta visão pode acabar sendo tido como preconceito religioso e censura. É um dilema. Você pode achar o que quiser, só não pode atacar virulentamente. Mas onde é o limite?

É diferente uma passeata dizendo abertamente que gays não podem constituir família. viola direitos civis, é preconceito etc. Não vou nem pelo lado da homofobia, pelo simples motivo que eu acho que não faz sentido, pois, já se está violando um direito individual (querer constituir família com quem vc quiser, nas conformidades da lei, isto é, nada de menores ou animais).

O Estado também permite uma parada gay. Beleza, tudo bem. eles não podem, contudo, falar mal da religião de alguém, mas se esse alguém acha que uma simples parada com homossexuais está indo contra a religião dele, bem, ema… ema… ema…

Tentar inibir qualquer manifestação por esta manifestação ir contra um status quo numa determinada situação acaba tendo efeitos bem desastrosos, pois, isso implicaria que os discursos de Martin Luther King também seriam proibidos, bem como os de Malcolm X, e olhem que este segundo não era nada gentil em seus comícios, diferentes do dr. King. Seria o mesmo que impedir o comício pela Diretas Já. Seria o mesmo que impedir quaisquer manifestações, passeatas, comícios etc.

E antes que vocês venham me xingar, claro que não estou colocando em pé de igualdade o TEOR dos comícios com um bando de idiotas que ainda acha que vivemos antes da Guerra de Secessão. O que eu acho é que, nas conformidades da Lei, o que não é proibido, é permitido, pois é este o princípio da legalidade, em que o artigo 5º, inciso II, da Constituição Federal diz que ninguém será obrigado a fazer nada a não ser por efeito de lei; um princípio que democracias têm em seu cerne, e como lá nos EUA não há lei contra alguém sair vestido neonazi, gritando palavras de ordem – e de forma que não violem leis, como ameaçar o Presidente, o que só vai garantir a visitinha de dois indivíduos de óculos escuros e cantos da boca virados pra baixo –, não há motivo justo para simplesmente proibir isso, ou estaríamos indo contra a própria visão de Martin Luther King do diálogo acima de tudo.

Porque, no final das contas, em qualquer dilema filosófico não há resposta clara ou certa. Nós lidamos o melhor que podermos. para isso temos leis, para nos guiarmos, para controlar quando tivermos péssimas ideias, para refrear uma sociedade que fatalmente iria se autodestruir na primeira oportunidade. Eu não sou aquele capaz de legislar sobre tudo e todos, nem julgar o que é melhor para toda uma sociedade, pois, infelizmente, ainda não me elegeram Imperador do Universo. Se não sou eu a dizer o que pode e o que não pode ser tido como o que pode e o que não pode, com um sistema aleatório de decisão, dependendo só do meu humor, quem seria capaz disso? Você?

Quando estivermos simplesmente proibindo coisas com as quais simplesmente não gostamos ou não concordamos, por puro capricho, devemos ter em conta que isso vale para ambos os lados, terminando por um cinema tirar a exibição de E O Vento Levou, porque algumas pessoas se sentiam ressentidas pelo racismo que aparece no filme (que se passa na Guerra Civil dos EUA).

Juvenal avisou.

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