Grandes Nomes da Ciência: Jonas Salk

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O pai olha desolado o que tem à sua frente. A mãe está virada para o marido, com o rosto em seu peito. Lágrimas escorrem e molham o terno. Não há muito o que fazer. Sua criança está enferma. É o ano de 1916 e a cidade de Nova York caiu. Caiu por causa de uma invasão, de um ataque em massa; não de chitauris, não do Apocalipse e, não, o Antimonitor não teve nada a ver com isso, nem mesmo um simples ataque do Duende Verde. Quem colocou Nova York de joelhos foi um vírus, mas não vindo de Raccoon City. Vindo do seu intestino, mesmo. O vírus da poliomielite.

A poliomielite (ou pólio, para encurtar) é uma doença infecto-contagiosa. Foi cognominada “paralisia infantil” porque, embora atinja pessoas de mais idade, a prevalência é entre crianças menores de quatro anos. Seu período de incubação varia de dois a trinta dias sendo, em geral, de sete a doze dias e praticamente apresenta poucos sintomas, mas é comum também não nenhum sintoma, podendo ser confundida com infecções respiratórias como resfriados, já que pode apresentar febre e dor de garganta, ou também com infecções gastrintestinais, pois pode apresentar náusea, vômito, prisão de ventre, dor abdominal e, raramente, diarreia. Mas não apresentar sintoma nenhum logo no início não é nada incomum e é aí que mora o perigo.

Quando eu era garoto, lá pela década e 1970, tinha um colega de colégio que teve pólio, o que afetou as suas pernas e ele precisava de muletas para andar. Cerca de 1% dos infectados podem desenvolver a forma paralítica, que não afeta só as pernas, mas sequelas permanentes como insuficiência respiratória e, em alguns casos, levar à morte. Para quem, como no caso de meu amigo, foi afetado apenas nas pernas, o que aconteceu foi a perda da força muscular e dos reflexos.

O casal no início de nossa história sofreu, pois viu seu filhinho morrer por causa de parada respiratória. Esforços no mundo todo buscavam um modo de conter a sombra da Morte vagar pelos leitos das crianças. No início da década de 1920, o engenheiro químico Phillip Dinker (tinha que ser!) foi contratado para ensinar a Iluminação Industrial e Ventilação na Faculdade de Medicina de Harvard, tendo se especializado mais tarde em Higiene Industrial. Por causa do envenenamento por gases em minas de carvão, Drinker foi chamado para trabalhar na Consolidated Gas Company of New York, onde pesquisou uma forma de salvar a vida dos mineiros.

O aparelho criado por Drinker e seus colaboradores tratava-se de uma câmara cilíndrica feita de aço, selada por uma porta que permite o movimento da cabeça e pescoço. Este aparelho faz com que no seu interior haja uma pressão atmosférica inferior à pressão do ar nos pulmões. Isso faz com que sus pulmões se inflem, de forma a que as pressões se equilibrem e isso força a entrada de ar pelas vias respiratórias, aumentando a pressão, o pulmão se contrai, fazendo com que o ar saia e o processo é repetido. Genial, não?

Isso não só salvou a vida de muitos mineiros, mas a vida das vítimas da pólio que estavam paralisadas a ponto do diafragma não se mover.

E só para encerrar as menções do grande dr. Drinker, ele dirigiu o programa de Higiene Industrial para a Comissão Marítima dos Estados Unidos e após a Segunda Guerra Mundial, ele foi conselheiro da Comissão de Energia Atômica.

Mas o pulmão de aço, apesar de salvar a vida de muita gente, fazia com que a pessoa passasse o resto da vida naquele aparelho, olhando as pessoas apenas por um espelho. Enquanto isso, a pólio fazia as suas vítimas. De 1916 a 1955, foram infectadas em média 38.000 pessoas por ano, sendo que em 1952 chegou-se a alarmante taxa de infecção de 35 em cada 100.000 habitantes. Em 1937, Franklin Roosevelt criou a Fundação Nacional contra a Paralisia Infantil, mesmo porque ele tinha sido vítima dela. Pesquisadores tinha verba e locais de trabalho. Mãos à obra.


Clica aí. Foi disso que seus filhos se livraram

Jonas Edward Salk nasceu em 28 de outubro de 1914 em New York, New York, a cidade que nunc dorme. Ele cursou Faculdade de Medicina da Universidade de Nova York, depois optou por fazer pesquisas médicas em vez de se tornar um médico praticante. Em 1939, Salk começou um estágio como médico cientista no Monte Sinai Hospital. Dois anos mais tarde foi admitido na Universidade de Michigan, onde estudaria vírus da gripe. A corrida para combater o polivírus da poliomielite já tinha começado. Quando um presidente manda pesquisar uma doença que o deixou aleijado, claro, um monte de gente vai se atirar sobre o problema como gatos ao bofe.

Em 1947, Salk aceitou uma nomeação para a Faculdade de Medicina da Universidade de Pittsburgh, e como os EUA não era o Brasil que paga para gente ir em banheiro saciar seus desejos lascivos, Salk montou um projeto financiado pela Fundação Nacional para Paralisia Infantil para determinar o número de diferentes tipos de vírus da poliomielite (não, não. Nada de DNA ainda. DNA ainda era coisa de ficção científica).

Salk montou uma equipe bem qualificada e meteu a cara por sete anos. Por sua instrução, um imenso teste de campo foi criado para testar a vacina que Salk e seu pessoal vinham desenvolvendo. Foi o mais ambicioso e elaborado projeto do tipo na História, envolvendo 20.000 médicos e oficiais de saúde pública, 64.000 funcionários da escola e 220.000 voluntários”. Mais de 1.800.000 alunos de colégios participaram. Naquela época, Andrew Wakefield, aquele desgraçado, ainda sequer tinha nascido. Ninguém ficou com frescura de autismo, ninguém teve piti sobre a Big Pharma. As pessoas estavam com filhos doentes e imploravam por uma vacina, um remédio, qualquer coisa, já que Jesus estava meio surdo e não ouvia o pedido de ajuda.

Mas a Ciência, sim.

O dia de hoje, 12 de abril, do magnífico ano de 1955, 7 meses antes de um DeLorean aparecer em Hill Valley, marca o dia que a vacina Salk, como ficou conhecida, como um sucesso absoluto e seu criador, Jonas Edward Salk, um dos Grandes Nomes da Ciência foi saudado como um “Trabalhador do Miracle”. Em todo o mundo, começou a correr imediatamente a vacinação, com países como Canadá, Suécia, Dinamarca, Noruega, Alemanha Ocidental, Holanda, Suíça e Bélgica planejando iniciar campanhas de vacinação contra a pólio usando a vacina Salk. O Brasil começou a vacinação em massa em 1971, usando a vacina Sabin, uma versão adaptada para ser aplicada de forma oral, ao invés de injetável.

Em 1960, Salk fundou o Instituto Salk para Estudos Biológicos em La Jolla, Califórnia. Ele mesmo nunca ganhou um prêmio Nobel, mas de seu instituto saíram 5 Nobels e isso o deixou satisfeito até seus últimos dias. Para vocês terem uma ideia do impacto, abaixo tem um gráfico mostrando o índice de mortes por causa da pólio antes e depois de 1955. Use-o bem para esfregar na cara de qualquer um que diz que a Big Pharma não deixa que remédios que curam doenças sejam inventados.


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Em 1977, o então presidente Jimmy Carter agraciou Salk com a Medalha Presidencial da Liberdade. Em 1996 a March of Dimes Foundation criou um fundo para premiar os mais destacados biólogos em homenagem ao dr. Salk. Em 2007, o governa-exterminador da Califórnia Arnold Schwarzenegger incluiu o nome de Jonas Salk na Calçada da Fama. Em 2012, o dia 24 de outubro passou a ser reconhecido como o Dia Mundial de Combate à Pólio.

Mas o dr. Salk não viu nada disso.

Aos 23 dias de junho de 1995, Jonas Salk morre deixando um legado. Ele não parou suas pesquisas, estudando câncer, tumores e até mesmo o vírus HIV, doença que ele perseguiu para encontrar uma vacina.

Cada criança que você vê hoje pulando, correndo e brincando alegremente é um tributo ao trabalho do dr. Jonas Salk, homem reconhecido e cumprimentado por todos, pois era a época que as pessoas não odiavam Ciência, nem menosprezavam cientistas.

Não importa que o comitê do prêmio Nobel não tenha se lembrado do senhor, doutor. Cada pessoa agraciada com o prêmio pôde fazê-lo porque estavam imunizados mediante seu trabalho. Cada herói e vilão, ditador, rei e plebeu, cada pessoa que está hoje na Terra, chilicando contra cientistas deve a vida ao senhor e a muitos de seus colegas de trabalho.

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Sobre André Carvalho

και γνωσεσθε την αληθειαν και η αληθεια ελευθερωσει υμας

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  • Lucas Monteiro

    É só minha impressão ou esta parte em que você diz : “Cada herói e vilão, ditador, rei e plebeu, cada pessoa que está hoje na Terra[..].” você pegou de uma das frases do Carl Sagan em que ele explicava sobre o cosmos ? Se for, só deixa o texto melhor ainda.

  • cloverfield

    A única coisa ruim dessa série de artigos é que quando acabo de ler me sinto um completo imbecil por não conhecer a história dessas pessoas tão importantes no mundo.

    E olha que eu leio muitos livros…

    kenji respondeu:

    Isso é infinitamente melhor que pensar que sabe tudo.

    Lucas Monteiro respondeu:

    Eu já conhecia a história do doutor Jonas Salk por que gosto de ficar estudando diversos assuntos. Eu acho que uma das vantagens de ter curiosidade sobre tudo, é isso, você acaba sabendo pelo menos um pouco de tudo, ou até mesmo se aprofunda mais em alguns tópicos.

    Mas é impossível saber de tudo, e simplesmente tolice pensar que você sabe de tudo, melhor é, saber se reconhecer como ignorante. Como já dizia Sócrates : “Sábio é aquele que conhece os limites da própria ignorância.”.

  • Gui

    Não se preocupem pessoal. Atualmente há gente empenhada em trazer os bons e velhos tempos do pulmão-de-ferro de volta. ‘Member?