O segredo das plantas em dentes esquecidos

Megafauna é o nome dado aos grandes animais, normalmente mamíferos, que existiram bem depois dos dinossauros. Na verdade, a maioria dos dinossauros nem era gigante, só alguns. O terrível velociraptor era pouco maior que uma galinha gigante. Muitas espécies dessa megafauna se perderam para nunca mais voltar, mas sempre temos seus parentes mais próximos, normalmente, herbívoros, e é por isso que são chamados “megaherbívoros”. Esses animais nos contam muitas histórias, não só sobre si mesmos, como sobre plantas das quais se alimentavam e como isso afetou parte do clima das regiões onde moraram.

Agora, pesquisadores que estudam megaherbívoros para extrair partes dessas informações. E, para isso, apenas olhando seus dentes.

A drª Kendra Chritz é química (com ela a oração e a paz). Mais especificamente, uma geoquímica que termina seu pós-doutorado na Universidade de Utah, EUA. A drª Chritz, que tem Twitter, é muito interessada em grandes animais e nas informações sobre o mundo em que viveram, podendo assim traçar um panorama das mudanças do ecossistema em escalas de tempo geológicas. Não só isso, o principal interesse é saber como nós, seres humanos, temos alterado o clima em larga escala. A chave para essa pesquisa é estudar nada mais, nada menos que dentes. Sim, dentes! E de hipopótamos.

Chritz estudou isótopos radioativos nos esmaltes de dentes de hipopótamos. A finalidade disso era encontrar uma mudança na dieta dos bichões ao longo de uma década. Seus bichinhos estudados eram hipopótamos do Queen Elizabeth National Park, localizado na Uganda.

Isso mesmo! Ela ralou peito pra África para estudar dente de hipopótamo.

A ideia de Chritz era reconstruir o modo como as vegetações dos parques nacionais da África foram mudando com o passar do tempo. Assim, ficou-se sabendo que gramíneas tropicais baixas produziam uma enzima capaz de processar dióxido de carbono em açúcares durante a fotossíntese. Estas plantas são chamadas C4, assim como o milho e a cana de açúcar. Entretanto, algumas plantas classificadas como C3 usam uma enzima totalmente diferente. Entre essas plantas estão árvores, arbustos, plantas com flores e ervas.

Não, gente. As plantas não fazem fotossíntese da mesma forma. Não basta ter água, Sol, gás carbônico, sais minerais e clorofila. Isso foi o que você aprendeu no colégio, mas fotossíntese é muito mais complicado. Enzimas existem para acelerar e propiciar reações químicas. São catalisadores naturais. S[ó que a Seleção Natural deu de presente para alguns grupos de plantas enzimas que outros grupos de plantas não possuem. Ninguém aqui nunca disse que tudo era certinho e padronizado.

A partir de 1990, estudos mostraram o aumento de áreas lenhosas – que vinham abandonadas desde 1971, quando o ditador Idi Amin assumiu, e madeiras e marfim eram vendidos de qualquer jeito para financiar seu exército – estavam crescendo. O Queen Elizabeth National Park acabou se tornando um imenso laboratório natural em que pesquisadores puderam estudar as mudanças de vegetação por meio dos dentes de hipopótamos. Como as vegetações C4 e C3 faziam uso de enzimas diferentes, sua assinatura radioquímica também era diferente. Assim, era fácil ver quando a dieta mudava.

Ou quase!

O problema é que dentes de hipopótamos são raros. A sorte é que um colaborador da drª Kendra, o dr. Hans Klingel, do Instituto de Zoologia da Universidade Braunschweig, na Alemanha, tinha feito uma pesquisa importante sobre o comportamento dos hipopótamos no Queen Elizabeth National Park entre as décadas de 1980 e 90. Com isso, ele pôde ceder alguns dentes de hipopótamos de 1960, antes de virarem artigo de luxo para caçadores

As análises dos dentes mostraram que hipopótamos da década de 1960 comiam aproximadamente 80% de plantas da categoria C4, mas a percentagem de plantas C4 na alimentação dos hipopótamos posteriores havia caído para cerca de 65%. Isso mostrou que, dentro de um prazo de apenas algumas décadas, houve um aumento de plantas da categoria C3 na dieta desses animais, o que só pode comprovar uma maior abundância desses vegetais.

A conclusão de Chritz é que a perda de elefantes, hipopótamos e outros megaherbívoros pode levar a uma rápida mudança ambiental e ecológica, com plantas de outras espécies tomando o lugar das primeiras. Seleção Natural não fica paradinha como achamos que fica. E se há mudança de animais e plantas, claro, acaba afetando outros nichos, inclusive com mudanças no microclima da região.

Obviamente, você quer mais detalhes da pesquisa, certo? Então que tal acessar o periódico Scientific Reports, que traz a pesquisa inteirinha digrátis?

Deixe um comentário, mas lembre-se que ele precisa ser aprovado para aparecer.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s