A tecnologia que vingou CSI

Eu gosto muito das séries que mostram laboratórios forenses, como a coletânea CSI, Bones, Body of Proof etc. Me divirto não só com o roteiro como com as soluções mirabolantes que nunca passariam num tribunal por serem, no mais das vezes, provas circunstanciais (não que provas circunstanciais não mandem pessoas pra cadeia, independente se são culpadas. Ganha quem tiver o melhor advogado). às vezes inventam tecnologias que não existem ou processos sem o menor embasamento científico ou como se usar um espectrofotômetro de massa ou um RMN fosse a coisa mais trivial do mundo.

Não raro, sempre se deparam com alguma câmera de vigilância ou foto tirada por celular de 1,99, mas acabam obtendo detalhes límpidos e claros, que levam à prisão do meliante. Ficção? Mais ou menos, pois um grupo de pesquisadores parece que conseguiu o que parecia algo risível nas séries: reconhecimento facial de rostos que apareceram refletidos em pupilas que tinham sido fotografadas.

A parada chega a ser bizarra! E o autor disso é o dr. Rob Jenkins, psicólogo cognitivo do Departamento de Psicologia da Universidade de York, na Escócia. Ele já tinha um trabalho sobre eficácia de reconhecimento facial publicado na Science. Juntamente com Christie Kerr, da Escola de Psicologia da Universidade de Glasgow (e tão inexpressiva que não parece ter site, apesar de ser homônima de jogadoras de Golf), Jenkins conduziu a pesquisa em que foram capazes de recuperar os rostos de transeuntes a partir de reflexos nos olhos de algumas pessoas. As imagens recuperadas puderam ser identificados com precisão pelos pesquisadores, apesar de sua baixa resolução. Mas como conseguiram isso?

Primeiro de tudo, sejamos honestos e vamos enfrentar a realidade que o cara não mandou fotografar com uma xereta ou uma mavica (se você sabe o que são elas, sem Google, expôs a sua idade). Os pesquisadores empregaram oito voluntários (3 mulheres e 5 homens, com idade média de 23,5 anos), formando dois grupos de quatro. Cada voluntário serviu, portanto, como objeto a ser fotografado e como um espectador em três outras fotografias. Os indivíduos foram fotografados a partir de uma distância de cerca de 1 metro, usando uma câmera fotográfica digital Hasselblad H2D de 39 megapixel (ISO 50, abertura f8, com obturador regulado para 1/250 segundo, foco manual e lente macro de com 120 milímetros). Ok, não é a mais moderna das câmeras, ainda mais se você prestou atenção na data do link acima; mas também não é lixona. É algo respeitável, na mão de quem sabia o que estava fazendo.

O quarto tinha flash, rebatedores e os “modelos” estavam a uma distância bem definida da câmera. Maiores detalhes? PloS ONE é seu amigo.

Os resultados seriam excelentemente perfeitos… se fosse essa a intenção de Jenkins, que não estava estudando a qualidade das imagens ou tecnologia de vigilância ou para policiais identificarem quem foi o desgraçado que escreveu “Me Lava, seu porco!” no para-brisa do meu carro. O que Jenkins e seus colaboradores estavam estudando era o percentual de acerto do reconhecimento facial por parte das pessoas. As “cobaias” que não estavam familiarizadas com o pessoal da fotografia tiveram um percentual de acerto da ordem de 71%, enquanto que os participantes que estavam familiarizados com os rostos tiveram a margem de acerto de 84%. Nada mal!

O que Jenkins estava tetando não era tecnologias de imagens e sim como ajudar a polícia a ter testemunhos confiáveis. Imagens de pessoas recuperadas de câmeras apreendidas como provas durante as investigações criminais são a coisa mais comum que existe (lá, e não aqui, onde mesmo que você leve o bandido pra delegacia, é bem capaz de ele ser liberado mesmo assim).

Não é que eu seja ludita, mas ficar como muitos que ficaram abismados com as imagens é simplesmente ignorar a pesquisa do dr. Jenins. É o mesmo que Galileu identificar as luas de Júpiter e todo mundo ficar “Caraca, maluco! Aquele pedaço de vidro aumenta imagens! Maneirão isso!”

Eu ainda prefiro dar crédito ao cientista, não só pela técnica usada, mas pelo real alvo de sua pesquisa. Me processem.

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