O boato da Guerra dos Mundos de Orson Welles

Amanhã é dia 30 de outubro e será celebrado… bem, será celebrada muita coisa que eu mesmo não faço ideia do que seja, já que Samhain só chamará os seus no dia 1º de novembro. Entretanto, há 75 anos, o caos varreu os EUA. Quando Orson Welles, resolveu transmitir a Guerra dos Mundos de H. G. Wells, escritor que, curiosamente, só escreveu alguns contos de ficção científica, preferindo se especializar em História. Tirando O Homem Invisível, a Máquina do Tempo e Guerra dos Mundos, você se lembra de mais alguma história de ficção científica dele? Pois é.

Mesmo avisando que aquilo era uma rádio-novela, as pessoas surtaram e saíram às ruas totalmente ensandecidas… Bem, é o que costumam dizer, mas isso é boato.

Existe capítulo de boatos no Livro dos Porquês? Se não tiver, crio agora.

Senhoras e senhores, aqui é Carl Phillips, mais uma vez, na fazenda Wilmuth, Grovers Mill, Nova Jersey… Bem, eu… nem sei por onde começar para trazer para você uma descrição da cena estranha ante aos meus olhos, como algo saído de um moderno 1001 Noites. Bem, eu acabei de chegar. Ainda não tive a chance de olhar em volta ainda. Acho que é isso. Sim, eu acho que é a coisa…, em frente de mim, meio enterrado em um grande buraco. Deve ter batido com força terrível. O chão é coberto com lascas de uma árvore que deve ter sido atingida em seu caminho. O que eu posso ver do… objeto em si não parece muito bem com um meteoro; pelo menos, não os meteoros que eu vi. parece mais um enorme cilindro…

Depois disso, entrou o astrônomo dando informações. Era o próprio Orson Welles em sua magnífica interpretação. Foi assim que começou a transmissão de uma dramatização da rádio CBS, na véspera do Halloween, nas vésperas da Segunda Guerra Mundial. Welles encenou várias obras, como Drácula, o Conde de Monte Cristo entre outros. Particularmente, eu gostaria MUITO de ter ouvido Drácula na voz de Welles, só com o poder do rádio, sem efeitos visuais, apenas sons e interpretação. O rádio sempre foi mágico por causa disso; e se você pensa que novelas de rádio encontraram seu fim com o advento da TV, melhor rever seus conceitos: The Archers é a mais longa novela de rádio que AINDA HOJE é transmitida pela BBC. Fora Dr. Who, quem mais durou tanto assim? (nota mental: eu adoraria uma reedição do Twilight Zone ou Além da Imaginação, mas nos moldes antigos)

Voltando ao assunto, de tempos em tempos, tio Orson avisava que estava encenando A Guerra dos Mundos, obra que descreve uma invasão marciana, em que alienígenas saíam destruindo tudo e o esforço de cientistas e até mesmo do exército foi inútil. O que acabou com os marcianos foi um vírus de gripe comum. Sim, é spoiler, a droga do livro tem 115 anos, já que foi publicado em 1898! Quer outro spoiler? A Bíblia: um livrinho interessante, mas o mocinho morre no final. Estraguei seu dia? Posso continuar?

A ideia de fazer a transmissão como uma notícia recorrente nem era tão novidade, já que em 1926, a Inglaterra tinha feito isso e Orson resolveu fazer a mesma coisa, mesmo sem o Chacrinha ter cunhado sua famosa frase ainda. Copiar sempre foi algo recorrente nas mídias. Então veio o mito falando sobre milhões de pessoas nos EUA surtando, fugindo da terrível desgraça, já que os extraterrestres tinham atacado Nova York. Sim, já na época de H. G. Wells, tudo que tem que dar merda acontece primeiro em Nova York.

Já pararam para pensar "Por que Marte?". A ideia de marcianos é tão forte que tudo uqe era alienígena vinha de Marte. Eles só passaram a ser chamados de extraterrestres depois de ET, o filme de Steven Spielberg, para depois ser "aliens" com o filme do Riddley Scott. Mais curioso ainda é que ET veio depois de Alien.

Continuando, o mito diz que apesar de 4 inserções ao longo da transmissão dizendo que aquilo era uma dramatização, ouve histeria generalizada. Houve mesmo? Curioso, pois só se sabe dessa "histeria" na base do "ouvi dizer". Nenhuma testemunha ocular estava lá na hora dizendo "Caraca, maluco, tava a maior zona, ó!"

Sim, teve gente que levou a sério, fazendo barricada em casa, mas a estimativa é que apenas 20% dos ouvintes levaram a sério. Entre levar a sério e a pessoa surtar, tem muita diferença. E desses 20%… c’mon, a população de Nova York em 1940 era de cerca de 7 milhões de pessoas. Não há relatos diretos sobre ter havido uma histeria em massa. Então, de onde veio o boato?

Dos arquirrivais das rádios: os jornais, como esta matéria do The New York Times

Jornalista sempre é um primor para ter notícia… nem que invente algumas. Eles perdiam muito para as rádios, dada a dinâmica que estas possuem em noticiar e entreter. Quando você volta pra casa de carro, você não vai lendo jornal. Ler e escrever coisas enquanto dirige um carro só veio muito depois, com aparelhos celulares (e não deu em coisa boa). Os jornais publicaram que houve uma imensa histeria em massa, na ideia de responsabilizar as rádios de seu incrível mal e falta de seriedade. Era a vingança definitiva dos jornais contra as rádios e que isso as colocaria nos seus devidos lugares.

Pelo visto, não funcionou muito.

Ainda hoje esta história é contada. Algumas versões dizem que o próprio Orson Welles fez uma aposta como poderia causar pânico generalizado e isso até meio que inspirou Isaac Asimov no conto Homo Sol, onde induzem pânico em larga escala numa cidade dos EUA para depois enviar "emissários". Mas o fato de terem avisado por quatro vezes que era uma simples dramatização, faz isso cair por terra. nunca fora intenção de Welles que o pessoal agisse feito idiota. Isso já é natural do ser humano.

Eu considero a transmissão de A Guerra dos Mundos por Orson Welles como uma obra prima. Talvez não pela vasta quantidade de suicidas que preferiram morrer do que perder a vida pros ETs/Aliens/Marcianos, nem pra histeria nas ruas, nos saques e qualquer coisa que digam que aconteceu. A obra de arte sobreviveu, o fato será narrado, tal qual o caso da maçã de Isaac Newton.

Ainda assim é interessante lembrar que mesmo algumas poucas pessoas podem ser convencidas de qualquer coisa. Mesmo quando não há a intenção de convencê-las de nada. As pessoas realmente são fascinantes.

9 comentários em “O boato da Guerra dos Mundos de Orson Welles

  1. Também eu achava que o pânico foi generalizado.

    Quanto aos marcianos sempre que ouço alguém dizendo que a Nasa não revela a existência de vida extraterrestre para não causar pânico eu lembro que durante muito tempo se achou que Marte fosse habitada e a humanidade nem se preocupava com o fato de que o planeta vizinho estivesse ocupado.

  2. “A Ilha do Dr. Moreau” e “Os Primeiros Homens na Lua” são outros exemplos de obras-mestras de Sci-Fi criadas por Wells, e duas de minhas favoritas, especialmente a última, principalmente por causa daquele filme dos anos 60 com efeitos especiais do reçém-falecido Mestre dos Monstros, Ray Harryhausen.
    Wells estava mais preocupado com a sociedade e a evolução da humanidade do que com technogadgets, mas acabou por criar obras que influenciaram e ainda influenciam a pesquisa tecnlógica e científica. Vide as recurrentes missões atrás de vida em Marte e as incansáveis teorias visando viagens espaço-temporais.

    1. Wells estava mais preocupado com a sociedade e a evolução da humanidade do que com technogadgets

      Qq escritor de ficção científica decente faz isso. A tecnologia e “futuro” é apenas parte da ambientação.

      1. @André,
        E qualquer leitor decente de ficção científica sabe disso. O ponto é que Wells não tinha a menor preocupação com a viabilidade ou não de viagens no tempo, invisibilidade, marcianos com TPM ou substâncias anti-gravitacionais, ao passo que autores como Júlio Verne defendiam a necessidade dos argumentos serem científicamente plausíveis ou ao menos parecerem assim. Arthur C. Clarke, formado em física e matemática, era igualmente um defensor desse ponto de vista, sendo, como a maioria dos leitores de FC sabe, o proponente do uso de satélites geoestacionários para telecomunicações. Já Philip K. Dick partilhava um ponto de vista semelhante ao de Wells, principalmente no que se refere a distopias e ausência de explicações científicamente embasadas para seus argumentos. A maioria dos escritores decentes de ficção científica oscila entre esses dois extremos.
        Não obstante, Wells é seminal entre os cientistas, provocando, ainda que de um ponto de vista teórico, diversas pesquisas e hipóteses baseadas em seus argumentos literários. Como exemplo, ele ajudou a construir uma visão de Marte que permeia as mentes das pessoas até hoje, influenciando as insistentes pesquisas em busca de vida marciana, passada ou ainda presente, muito embora todas as evidências acumuladas até agora indiquem que o planeta não passa de uma bola de barro basáltico estéril. Estéril e esterilizante.
        Isso remete a um trabalho dos anos 70, “Marte e a Mente do Homem”, contendo debates entre Arthur Clarke, Ray Bradbury, Carl Sagan e outros. A conclusão básica é que costumamos ver em Marte aquele planeta visto pela fantasia, não aquele que ele é na realidade.

  3. Ei!!! Como assim a história da maçã de Newton não existe? E como assim não houve histeria em massa na narração de A Guerra dos Mundos? Foi uma conspiração? Você está destruindo o meu mundo, sabia?!
    … brinks!
    bom…segundo Freud, brincadeiras não existem.
    Até alguns minutos atrás eu acreditava que ocorreu a histeria em massa, pois o livro que li na faculdade e minha professora afirmaram tal fato, ou “fato”. Por hora, não sei.
    O fato é que nós somos iludidos o tempo todo.
    E por nada trocaria aquelas maravilhosas horas de leituras de Drácula pela narrativa, do mesmo, por Orson Welles. Jamais! ;-)
    Até.

      1. Nossa, que argumentação adulta! Eu falo de um artista que viveu a época e você só focou em “HQ”.

  4. Por falar em quadrinhos, você sabia que a aldeia gaulesa que resistiu bravamente ao invasor romano existiu mesmo?. Mas, sei lá, eu desconfio que eles não deveriam tomar poção mágica. Existe um recurso chamado “Baseado em uma história real” (fato real é pleonasmo).
    Não estou a fim de brigar.Um abraço e tudo de bom pra você.

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