Injeta ou engole? Nanopartículas ajudam a criar “comprimidos de insulina”

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Terra: este imenso acelerador de partículas

Todo mundo tem amigo de tudo que é jeito, e sempre os evocamos para alguma coisa, nem que seja postagem de blog. No caso são diabéticos, daqueles bem hardcore que precisam suplemento externo de insulina, graças a injeções, afinal a Natureza é perfeita, e sempre mostra isso quando o DNA faz merda. Adultos já nem acham nada demais injetar insulina, mas isso não é algo que você queira pro seu filho, aliás, você pode ter se conformado, mas bem que gostaria de uma maneira mais simples de não ter que tomar espetadela todos os dias.

Mas dentro de laboratórios claros feito o dia, com um zunir de equipamentos, olhos atentos espreitam seu inimigo. Podemos não ter ainda como aniquilar de vez a necessidade de aplicar insulina em alguns diabéticos, mas podemos facilitar a assimilação dela, nem que seja por via oral. Sim, uma pílula de insulina seria o máximo!

A drª Edith Mathiowitz é professora do Departamento de Farmacologia Molecular, Fisiologia e Biotecnologia da Universidade Brown. Como lá eles não ficam com pires na mão implorando por verba para terem um litro de álcool, Edith pode usar todo o seu intelecto em pesquisa, já que lá Ciência é levada a sério. A drª Mathiowitz vem trabalhando há mais de uma década para desenvolver revestimentos poliméricos bioadesivos que possuem nanopartículas capazes de levar para o organismo quaisquer substâncias que sejam necessárias.

Se você não matou as aulas de aparelho digestório no Ensino Fundamental, sabe que o estômago só serve para uma e apenas uma coisa: fazer a comidinha deliciosa que mamãe fez em um bolo alimentar facilmente absorvível pelo organismo. Carne assada com batata é legal, mas não se dá muito bem se for parar dentro de uma artéria. Depois da primeira quebra mecânica (dentes) e ação da primeira quebra química (ação da saliva que contém amilase salivar, ou ptialina, quebrando o amido em maltose), o alimento desce pelo esôfago, onde o poderoso suco gástrico, composto de ácido clorídrico e uma enzima chamada pepsina agem sobre o alimento. Depois de digerido, o bolo alimentar segue para o intestino, onde se dá a absorção de água e nutrientes.

O problema neste processo se dá quando você ingere um remédio por via oral, que terá que ser revestido de forma que seus componentes não sejam destroçados durante a digestão, ainda mais se for proteínas, que são facilmente atacadas e desnaturadas por simples abaixamento de pH (também por aumento, mas se o pH de seu estômago está básico, a não absorção de um comprimido é o menor dos seus problemas).

A insulina é um hormônio produzido no pâncreas e é um composto conhecido como "polipeptídio". Polipeptídios são polímeros formados por vários aminoácidos (iguais ou não). Ácidos fortes como o do suco gástrico atacam as ligações peptídicas dos polipeptídios facilmente, desnaturando-os. Em linguagem mais simples: colocou um pouco de ácido e seu hormônio e/ou proteína vão pra vala. No caso das proteínas, isso nem é tanto problema assim, já que não precisamos da proteína per se e sim dos aminoácidos. Nós só precisamos deles para montar as proteínas que precisamos. Assim, pode se encher de comprimido de colágeno para sua cútis ficar "mara", mas não vai adiantar de nada. Já no caso dos hormônios, não. PRECISAMOS daquela bagaça inteirinha, e é aí que entram os pesquisadores para impedir que o corpo faça caca e destrua o remédio do qual precisamos.

Normalmente, suplementação hormonal se dá por via injetável, mas, convenhamos, ficar tomando (injeção) na bunda não é algo que faça a alegria de ninguém… Se bem que há casos de… bem, deixa pra lá.

A ideia, da equipe da drª Mathiowitz é levar o hormônio para corrente sanguínea mais protegido que o Papa indo pra favela. No caso, o BOPE bioquímico a ser usado são nanopartículas que protegem a insulina de forma que passe ilesa pela boca, esôfago e estômago. Estas nanopartículas se grudariam nas paredes do intestino, abririam espaço entre as mucosas, transferindo a insulina solitária para a corrente sanguínea.

Como não encontrei nenhuma entrevista ou reportagem em video com a drª Mathiowitz, fiquem com o vídeo feito pela drª Maria Dul, pesquisadora da Faculdade de Farmácia da Trinity College Dublin, que também desenvolve uma pesquisa usando nanopartículas para levar insulina para o sangue:

A pesquisa foi publicada no periódico Journal of Controlled Release e mostra como os pesquisadores desenvolveram métodos seguros e reprodutíveis de encapsular proteínas em minúsculas nanopartículas sem comprometer a sua atividade biológica.

A pesquisa pode parecer lenta, mas cientistas só desenvolvem antídotos, técnicas, remédios, injeções e programas-espiões rapidamente apenas em filmes. Mas é a promessa de diminuir o sofrimento desnecessário, até que arrumemos um modo mais efetivo de combater um mal que chega a milhões de pessoas aqui no Brasil (dados sobre Diabetes Mellitus no Brasil num PDF que você pode baixar DAQUI).


PS. Este artigo foi escrito ao som de The William Tell Overture, de Giachino Rossini. Não sou responsável se você imaginar a insulina cavalgando com arreios de prata e usando máscara.

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Sobre André Carvalho

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