Corais são ameaçados por bactérias de fezes humanas

Pois, é. Mais uma daquelas notícias em que uma interjeição da linha "que merda!" é mais do que acertada. Você pode sequer desconfiar, mas o ato de fazer o "número 2" pode ser um ato assassino, onde os defensores dos animais – os éticos vegans – gritam (O Horror! O Horror!) até que são silenciados subitamente. E tudo isso por causa de uma coisa que não existe: a Evolução por Seleção Natural, onde micro-organismos que estavam felizes e plenamente adaptados ao seu habitat preferido (no saco, o seu cocô), acabam adquirindo a capacidade de viver em outro ambiente. E nem sempre isso é legal com os moradores antigos.

O coral elkhorn (Acropora rotumana) é considerado um dos mais importantes corais que vivem no Caribe, mesmo sem ser pirata. Como puderam ver na imagem de abertura (o que vocês esperavam que eu colocasse lá?), seu crescimento peculiar cria estruturas complexas, como "galhos", por assim dizer; é por causa dessa "galhada" que o A. rotumana recebeu o nome de "elkhorn", por sua alusão ao chifre do veado canadense (me refiro ao cervídeo) . Não é demais lembrar que aquilo lá NÃO É o coral em si, o qual não passa de um animal microscópico. As estruturas são esqueletos feitos de calcário, que muitos animais usam para abrigo ou recolher alimento. Quando temos uma longa cadeia dessas estruturas, temos os chamados "recifes de coral".

O coral elkhorn já foi a mais comum no Caribe, mas suas populações foram reduzidas em quase 90% nos últimos 15 anos; só há pouco tempo os cientistas acharam exemplares desta espécie no Oceano Pacífico e agora enfrenta "risco extremamente elevado de extinção na natureza", segundo a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN). Apesar das colônias do coral elkhorn possuírem crescimento rápido, a acidificação dos oceanos acabam, por causar problemas, pois interfere no equilíbrio químico, dissolvendo o carbonato de cálcio e produzindo CO2, o que não é tão ruim se você for uma planta e nem ser expressivo em termos de eliminação de dióxido de carbono na atmosfera. O problema é que, além de alterar o pH da água e alterar o equilíbrio físico-químico do local, isso reduz o tamanho dos recifes (goteje vinagre em sonrisal e você entenderá porque), o que altera a topografia submarina da região, alterando o formato das ondas, os animais ficam sem abrigo e o próprio coral morre.

Calma que ainda não dei as más notícias.

Como desgraça pouca é bobagem e queijo em francês é fromage (não fui eu quem inventou o ditado), O Deus do Impossível decidiu que coral é o cacete e resolveu cantar pro menino subir que nem em sessão de desencapetamento. Agora, surge uma doença que afeta seriamente os as populações de corais, abalando geral desde Florida Keys até o mar do Caribe. O nome da assassina é Serratia marcescens, e se você não sabe o que é isso fique sabendo que deveria, pois ela faz parte de você. É uma bactéria que vive em fezes humanas. Sim, eu deixo você correr pro banheiro com nojo.

O dr. James Porter (não, não sei se ele tem um filho chamado Harold), professor de ecologia da Universidade da Georgia, estuda a doença que tem acometido os pobres corais, levando-os a passarem desta pra melhor, possivelmente encontrando com seus ancestrais em Nosso Recife, em outra esfera dimensional. A equipe do dr. Cole James Porter teve a magnífica tarefa de testar os esgotos despejados no mar em Florida Keys e os micro-organismos encontrados nos corais, assim como analisou os dejetos de aves marinhas, caracóis etc. Depois dizem que vida de cientista é moleza. Vai lá você ficar examinando cocô de gaivota, vai!

A análise genética mostrou que apenas a cepa encontrada em esgotos humanos e caracóis combinava com o que foi encontrado no coral. A pesquisa foi publicada na revista científica de acesso aberto PLoS One.

Mas, espere aí! Como assim uma bactéria que causa septicemia em humanos (aka, se ela entrar em contato com eu sangue, você está ferrado) pode fazer mal aos corais? Não somos espécies totalmente distintas?

Sim… quer dizer, não… quer dizer, mais ou menos.

Lembram-se da gripe aviária e da gripe suína? O que houve foi um processo evolutivo onde houve um salto interespécies, isto é – no caso da gripe – o vírus fidamãe sofreu mutação e passou a infectar seres humanos (o modelo chave-fechadura, e é tudo culpa das enzimas); mas, entretanto, todavia, no entanto, contudo, depois daquela cepa em específico ter sofrido mutação e passado a infectar nós, pobres mortais, ela deixou de infectar seus hospedeiros originais. Da mesma forma, a cepa da S. marcescens que passou a atacar os corais não é a mesma que está presente no nosso cocozinho de todo dia.

Originalmente, a Serratia marcescens prefere viver no estômago humano, que é quente e rico em nutrientes. Assim que ela acabou num habitat similar (quente, húmido e cheio de nutrientes) começou a se reproduzir, mas nesse ponto começou a figura malévola da Seleção Natural. Boa parte das cepas morreram, mas considerando sua alta taxa de reprodução, não tardou que algumas apresentassem mutações. As que apresentaram mutações benéficas para aquele ambiente (o oceano, no caso), ganhou uma vantagem evolutiva sobre as demais. E o resto vocês, que estão acostumados a ler os artigos do Cet.net, já sabem.

A solução para isso é sugerida no próprio estudo e facílima de implantar: basta tratar os esgotos de forma adequada, de forma que dejetos humanos não interfiram (muito) no ambiente. Claro que isso é mais fácil falar do que fazer, pois estamos no mundo real e custos sempre aparecem, assim como burocratas que pouco se importam em como se livrar dos problemas. No final, a diferença entre a origem da S. marcescens e estes burocratas é praticamente nula.


Fonte: PBS.org

4 comentários em “Corais são ameaçados por bactérias de fezes humanas

  1. As fezes humanas são uma merda e agora vemos que ela pode ser pior do que imaginamos. Impressionante como ela pode ser útil como fertilizante em terra mas mortal no mar.

  2. O próximo passo agora deveria ser investigar a origem dessa contaminação excessiva. Mesmo que tal bactéria tenha um índice de reprodução alto, não justifica a contaminação no mar do Caribe. Trabalho no setor de saneamento no Brasil e tenho conhecimento dos setores internacionais, e sinceramente, o saneamento na américa-central é próximo ou pouco mais precário que o nosso, assim como os parâmetros, então acredito que por lá haja um excessivo despejo clandestino ou não-tratado de efluentes contaminados. Não é uma causa mundial, mas sim da comunidade ao redor do Caribe, ou as autoridades de lá resolvem tratar esse problema de saúde pública ou logo o elkhorn será mais uma espécie a ilustrar páginas de enciclopédias, apenas.

    Mas pensando que a américa-central hoje tem mais problemas com os quais se preocupar (tipo assim, o México vai continuar como está ou vão por ordem no local?), não vejo muito futuro para os recifes :/

  3. Difícil é convencer as otoridades da necessidade de implantar tratamento de esgoto nas cidades (especialmente as litorâneas). O Máximo que fazem são aqueles emissários submarinos, que o máximo que fazem é jogar a sujeira mais longe das praias, quando o ideal seria fazer o tratamento do esgoto.

    Em muitas cidades do litoral de sampa o que se vê é o esgoto sendo jogado a céu aberto diretamente na praia (nem emissários usam).

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