Da beleza que nós conseguimos ver

A plateia está em silêncio, exceto alguns comentários sussurrados aqui e ali. A atenção é voltada para o homem de casaca que acaba de subir ao palco, trazendo seu instrumento. O pianista está esperando e se levanta para cumprimentá-lo. O músico retribui seu cumprimento e vai para o centro do palco com seu violino. Silêncio. As notas começam a fluir de seu violino, acompanhado pelo piano bem afinado. As notas fazem parte da música Sad Romance, composta pelo músico vietnamita Thao? Nguyen Xanh.

Uma vez vi uma pichação que dizia "Somente o ser humano é capaz de fazer arte!". Isso é profundamente irônico, se levarmos em questão que era uma pichação feia e com erros de português (Somente o ser umanu é capaz de faser arte). Eu altero um pouquinho a frase e digo "Somente o ser humano é capaz de reconhecer arte". Para qualquer abelha, uma flor é apenas um supermercado e o belíssimo trinado dos pássaros é apenas um modo de eles chamarem outro pra porrada enquanto chamam a fêmea de gostosa (creio que foi o Átila, do Rainha Vermelha, quem falou isso. Não lembro).

A beleza das coisas está apenas nos nossos processos cerebrais; elas não existem enquanto coisas belas. Elas são o que são. Mas como isso acontece?

Para alguns, "catinga de bode é cheiro". Isso fica evidenciado quando vemos um bando de idiotas achando estas batidas infernais que chamam de "funk" (em inglês, mau cheiro) podem se comparar com um concerto para piano nº 20 K466 de Mozart. Bem, existe gosto e mau gosto para tudo. Mas o que um manezinho apreciador de Tati Quebra Barraco e um admirador de música de verdade como eu podem ter em comum? (muito pouco, espero). A resposta está em como o cérebro processa a informação e reconhece um padrão de beleza.

O dr. Tomohiro Ishizu é bacharel em Artes e doutor em Filosofia (sim, eu sei). Ele trabalha na Universidade College de Londres, juntamente com o dr. Semir Zeki, professor de Neuroestética da mesma instituição.  Pode parecer estranho que duas áreas tão distintas a princípio possam ter algo em comum, mas não é tão mais bizarro do que saber que eu e o marginalzinho que canta funk nas festas do dono do movimento processamos informações em áreas semelhantes do cérebro (o mais bizarro para mim é saber que aquele serzinho possui um cérebro!). A pesquisa foi publicada no periódico de acesso aberto PloS ONE.

Os dois pesquisadores estudaram os cérebros de 21 voluntários enquanto eles olharam para 30 pinturas e escutavam a 30 trechos musicais. Durante este tempo, eles estavam sendo examinados por um scanner  fMRI, um equipamento que usa fluxos magnéticos para medir o fluxo de sangue para diferentes partes do cérebro. Quanto mais sangue fluindo para determinada região, mais esta região está ativa, já que precisa de mais oxigênio em seus neurônios. Enquanto seus cérebros eram perscrutados, as cobaias tinham que identificar as pinturas e as músicas como sendo belas, feias ou indiferentes ao seu gosto.

Acima vemos os mapas paramétricos mostrando a média dos resultados dos 21 indivíduos (sim, eu também acho que foi pouco, mas tem-se que começar por algum lugar), mostrando os contrastes em (A) visualmente bonito maior que visualmente feio, (B) musicalmente bonito maior que musicalmente feio e (C) os resultados de uma análise de conjunto levando em conta as imagens e os sons. (D) mostra a sobreposição de zonas dentro da região é o córtex orbito-frontal medial — ou mOFC — ativado por algo tido como visualmente bonito (vermelho), musicalmente lindo (verde) e a sobreposição entre as duas ativações (amarelo).

Como podem ver, os exames mostraram que, independente do que eles consideravam "bonito", uma parte de seus cérebros iluminou mais fortemente quando eles estavam de frente para algo que eles gostavam, não acontecendo o mesmo quando eles viam/ouviam algo que lhes era indiferente ou mesmo não gostavam. Isso significa dizer que a imensa gambiarra do cérebro foi-se adaptando de forma a irrigar de sangue certas partes de sua anatomia quando a informação sensorial era positiva aos olhos e ouvidos, sendo classificados como "bonito".

É estranho que depois de centenas de anos debatendo besteiras sobre o significado da beleza vermos que nada disso importa, posto que´por mais que os gostos sejam totalmente díspares, o cérebro processa a informação da mesma forma. Em outras palavras, é aquela região que se sensibilizará perante algo tido como bonito, independente do que seja.

Qual a utilidade prática disso? É interessante saber como o cérebro processa algo positivo, pois ele também alimenta os processos de "recompensa", onde uma ação é tida como positiva e seu cérebro ficará feliz em vê-lo de novo, processando com mais cuidado.

Mas, afinal, o que é a beleza? A resposta é simples, porém tosca, porém "bela": Não se sabe ao certo. Se fôssemos levar em conta o que o exame mostrou, poderíamos intuir que algo bonito é algo que estimula o mOFC, mas seria uma leviandade, já que esta parte do cérebro apenas é iluminada por algo que já foi tido antes como belo pelo cérebro. COMO o cérebro decide isso é relativo e talvez nem seja importante. O importante é saber como nosso cérebro processa as informações, quais partes recebem fluxos extra de sangue, de forma a mostrar como esta ridícula e ao mesmo tempo maravilhosa máquina funciona.

32 comentários em “Da beleza que nós conseguimos ver

  1. Ou seja, a ciência provou que “o belo” é subjetivo mesmo. :roll:

    Eu mesmo sou eclético para música (começa com clássicas de Bach, Vivaldi, Pachelbel com o seu imortal Cânone em D, passando por New Age de Enya, Era e Bjork, rock das antigas, punks clássicos e chega aos mais pesados metal), porém funk, reaggae, sertanejo, forró, axé, pagode, hip-hop, rap e outras escórias sonoras eu odeio a ponto de me estressar. Isso prova que gosto é meramente individual mesmo. Conheço gente que acha a Megan Fox feia e Monica Bellucci horrorosa (e eu a acho a mulher mais gostosa do mundo). Tem homens heteros que vêem beleza em outro homem, mas eu (JURO!) nunca vi…

    Agora vemos que o que antes era filosófico agora torna-se científico e artigo me estimulou o mOFC :P

  2. Desculpe se divaguei, André. Eu li o artigo, sim, mas comentei com sono…

    Bem, eu entendi o que ele quis dizer mostrando a relatividade da decisão que um cérebro toma com relação o que é belo ou não, e não subjetividade, que tem um tom mais filosófico.

    Enfim. Bem… Acho que acordei cedo demais para quem dormiu depois das duas :( Desculpe o incômodo, mas achei necessário responder.

      1. Estou pensando em colocar um questionário de fixação ao final de cada artigo para saber se as pessoas realmente entenderam o que escrevi.

      2. @André, Eu o li três vezes para ser sincero e entendi. Eu sei que fala da maneira que o cérebro reage quando ouve ou vê algo bonito e que em ambos ele alimenta o processo de recompensa. O que não consegui foi comentar e muito menos acrescentar algo.

        Por isso, novamente, peço desculpas pelos porcos comentários. Tenho esse vicio de comentar tudo quanto é artigo e acontece isso. Me resta prometer tomar mais cuidado da próxima vez.

  3. Eu estou cansado de ouvir que “a beleza é sentida pela alma (ou pelo coração)”.

    Essa pesquisa, pra mim, é um tapa na cara de quem pensa desse jeito.

  4. Ai que horror! Meu cérebro não analisa o que julga bonito… Já está tudo processo no subconsciente. Será por isso que temos tanta relutância em gostar de algo que já julgamos ser ruim? Isso vale desde comidas até músicas, por exemplo.

      1. @André, Quis dizer: Então o que eu aprendi quando pequena que era o correto, se tornou o que eu julgo bonito. Não é que eu veja algo e me agrade pela primeira vez, mas eu reconheço pontos positivos no objeto em questão e o avalio como bonito, bom, agradável.

        E era para ser “tudo processado” e não “tudo processo” ._. desculpe o erro.

        1. Não é isso. Vc falou que seu cérebro NÃO ANALISA o que julga bonito. Olha, eu não sei vc, mas meu cérebro processa todas essas informações.

          1. @André, Se já está automático para ele reconhecer que aquilo agrada, não acho que ele vá processar todas as informações por completo.

            Ainda não devo ter explicando corretamente ao seu modo u_û sei que algo ainda ficará falho, mas vou esperar a tréplica.

          2. Vc subestima seu próprio cérebro ou superestima demais sua consciência. O cérebro processa TUDO, sem que vc sequer tenha noção disso.

          3. @André, Tenho uma dúvida quanto aos processos que o cérebro faz…

            – vejo uma imagem e me é dito que ela é boa/agradável
            – vejo uma imagem e ela é parecida com a que foi dita ser boa/agradável
            – vejo uma imagem diferente, mas do mesmo autor que a primeira, que é dita ser boa/agradável

            Para todas darei a resposta que são bonitas, porque agradaram ao meu cérebro. Mas elas agradaram porque realmente meu cérebro as considera positivas ou porque aprendi que elas são?
            É essa a questão que tenho, porque eu penso que mesmo o cérebro processando as três imagens, a partir da segunda, a resposta já vai estar induzida. E isso me faz diferenciar tais processos, dizendo que o cérebro processa algo ou deixa de processar outra coisa.

          4. Defina “aprender”. Seu aprendizado depende de inúmeros fatores; muitos dos quais são totalmente transparentes. Ninguém lhe ensinou como segurar sua bexiga, não é mesmo?

          5. @André, Mas existe um aprendizado que não aprendemos conscientes, afinal, o ID já está programado em cada um, mesmo quando ainda em formação fetal.

            Se eu tivesse lembrado de ego, alter ego e id inicialmente, teria me expressado melhor. Entendo que o ID seleciona o que é positivo/negativo e o ego traduz para o consciente. Enfim… Será que grávidas podem estimular os gostos dos filhos enquanto formam-se?

            Prefiro estudar planetas… Os seres humanos são muito mais complexos.

          6. Vc realmente acredita em Freud? Tenta ficar recitando equações matemáticas para um feto e veremos se ele se torna um Gauss.

  5. Se eu entendi bem a descrição das figuras 1 e 3, elas ilustram a média de atividade dos 21 sujeitos, ou seja, a atividade não ocorreu na mesma área em todos, o que torna o resultado um tanto inútil.

    Isso não tem aplicação prática já que teriam que (re)escanear cada novo sujeito pra identificar as áreas de atividades individuais. Ao menos saberiam a região aproximada para faze-lo.

    Eu teria feito isso direito. Removeria as áreas de atividade do tecido até o sujeito deixar de apreciar funk.

  6. Os computadores que já conseguem ler o pensamento(de forma ainda rudimentar, é claro!) poderão detectar mais essa característica da mente…

  7. @André,

    Então podemos intuir que nossa “formação/educação” vai influenciar na forma como veremos o “belo”?

  8. Nossa, quase fiquei com medo de comentar :lol: Até que um questionário de fixação seria bacana ;-)

    Vejamos se eu entendi direito Andre: A pesquisa mostra que não importa se você é um um cientista renomado assistindo Gaiola das Popozudas ao som de “Surra de Bunda” ou morador de comunidade analfabeto vendo o Bolshoi dançando ao som de O Lago dos Cisnes. Se tirarmos os rótulos, e usarmos os parâmetros da pesquisa, apenas podemos dizer se as pessoas estão gostando ou não.

    Então não existe, para o cérebro, esta historia de musica erudita e musica popular, musica dos anjos e musica do diabo, bale clássico e street dance. Existe o que o cérebro gosta (eu diria que o gostar vem do seu ambiente social) e o que ele não gosta.

    Agora Andre, uma hipótese: É possível que o aparecimento desta gambiarra no cérebro humano é que tenha gerado o aparecimento da Arte e/ou Subjetividade(?) entre os humanos? Pq (me corrija se estiver errado) se os humanos não tivessem este processo(?) cerebral, não há necessariamente nenhuma diferença entre bonito e feio, apenas (parafraseando Terry Pratchett) “… the entire universe has been neatly divided into things to (a) mate with, (b) eat, (c) run away from, and (d) rocks.”

    As (?) são para momentos em que não conheço palavra melhor.

    1. Se tirarmos os rótulos, e usarmos os parâmetros da pesquisa, apenas podemos dizer se as pessoas estão gostando ou não.

      ALELUIA!

      Existe o que o cérebro gosta (eu diria que o gostar vem do seu ambiente social) e o que ele não gosta.

      Yep. A pesquisa não se preocupou em mostrar de onde vem o gosto estético.

      É possível que o aparecimento desta gambiarra no cérebro humano é que tenha gerado o aparecimento da Arte e/ou Subjetividade

      Eu não apostaria em outra coisa.

      1. ALELUIA!
        Amem!

        Imaginei outra aplicação da pesquisa. Imagina aquela cena do cara amarrado assistindo imagens para condicionamento contra a violência (Laranja Mecânica). O camarada esta lá amarrado e sempre que aparecesse uma cena ‘boa’ e ‘da paz’, estas áreas marcadas do cérebro seriam estimuladas… Será que poderíamos reprogramar o cérebro para gostar de ?

          1. Aí é querer demais. Mas… seria ético mudarmos o gosto das pessoas?
            Se fosse em nome do sinho gzius, seria :)

            Agora sério: Não sei… Penso que em certos casos, poderia ser… Imagino que (não sei se há) em casos de pedófilos que estão deprimidos por não conseguirem controlar seus impulsos e querem ser membros produtivos da sociedade, poderíamos usar um método assim com consentimento deles… Penso que cada caso seria um caso para ser extensamente analisado… Ao menos penso que poderia ser mais barato que pagar psicólogos…

          2. @Zero_Anjo, Para esse tipo de caso até que a idéia me parece boa. Fico imaginando se alguém disser que gostou do filme “A Servian Film também não merece esse tipo de tratamento (li algumas críticas e fiquei chocado).

            Gosto é gosto. Cada um tem o seu, mas deve ter limites, principalmente quando leva uma pessoa a cometer ato ilícitos por puro prazer. O mesmo serve para quem ouve funk, Restart e assiste BBB.

            PS: parece que você foi o primeiro a mostrar que entendeu o conteúdo artigo. Parabéns. Me resta me conformar em saber que não fui o único não conseguir comentar de maneira satisfatória.

          3. @André, Interessante o desdobramento da sua pergunta sobre a questão da ética. Polêmico igualmente, sem dúvida.
            Entretanto, postulando a partir do comentário anterior do Zero_Anjo, será que, em algum ponto do futuro, não poderíamos alcançar uma “reprogramação” (consentida por familiares e/ou o próprio paciente, de forma a não ferir a ética) para o “desgosto” do vício, compulsivo e quase irreversível, de drogas pesadas como o crack e a heroína?
            Intrigante e, ao mesmo tempo, talvez uma divagação sem metas, entretanto, será que não teríamos exorbitantemente mais efeito do que os tratamentos em clínicas especializadas podem oferecer, atualmente?

          4. @Cobalamina, Concordo com o Andre. Tem algumas coisas a se considerar no seu exemplo(e no meu tb):

            -A questão da dependência química das substancias, que deve ser tratada. Os caras realmente não conseguem passar sem aquela substancia, o corpo pede, independente do cara achar bonita ou feia…

            -No meu exemplo, o máximo (imagino) que poderia ser feito pelo pedófilo deprimido é fazer ele gostar de coisas novas… não vejo como faze-lo parar de sentir atração por crianças… Talvez a minha ideia servisse como um método para tratar a depressão somente?

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