Como as abelhas enxergam as flores

Estamos acostumados a ver campos floridos de diversas tonalidades, com suas flores multicoloridas chamando a nossa atenção. Obviamente, não incluo nesse "nós" os frangos de apartamento, que muito mal veem o jardinzinho fofinho do condomínio. As cores (bem como o perfume) ajudam as abelhas e outros insetos a localizarem sua fonte de alimento: o néctar.

Acontece que as abelhinhas fofinhas (e letais, se você tiver alergia a elas) não enxergam o mundo como nós, toscos mamíferos de polegar opositor. A bem da verdade, elas até podem ver cores que eu e você, seu cegueta, não conseguimos distinguir. Mas em compensação, podemos jogar Farmville, e elas não (se é que isso é uma vantagem). A Seleção Natural dá, a Seleção Natural tira. Louvado seja André.

Pesquisadores da Queen Mary, na Universidade de Londres, e do Imperial College de Londres — chefiados pelo dr. Lars Chittka da Faculdade Queen Mary de Ciências Biológicas e Químicas — desenvolveram FReD (Floral Reflectance Database ou Banco de Dados de Reflectância Floral), cuja base de dados contém informações sobre as cores que as flores parecem ter para as nossas amigas himenópteras. O desenvolvimento do catálogo envolveu um esforço de colaboração entre vários pesquisadores e foi publicado na revista PLoS ONE.

Der acordo com o resumo do artigo, “a cor da flor é de grande importância em vários campos relacionados à biologia floral e do comportamento dos polinizadores. No entanto, julgamentos subjetivos humanos da cor da flor pode ser imprecisa e são irrelevantes para a ecologia e visão dos polinizadores das flores. Para obter informações precisas e detalhadas sobre as cores das flores, um espectro de reflectância total para a flor deve ser usado em vez de confiar em tais avaliações humanas.”

Obrigado pelo blábláblá, André. O que diabos isso significa?

Que você enxerga diferente de um inseto. Não, não fique de peito estufado, pois você, primata idiota, enxerga numa ridícula faixa do espectro luminoso, cujo comprimento de onda varia entre o vermelho ao violeta, enquanto abelhas enxergam o ultra-violeta também, e isso faz uma enorme diferença e tem tudo a ver com tio Darwin. Abelhas sobrevivem de encontrar flores para extrair-lhes o néctar, e isso é benéfico para ambas. Por um lado, abelhas que conseguem retirar mais néctar do que outras abelhas, terá mais reserva alimentícia e terá maiores chances de sucesso na competição por recursos. Dessa forma, as abelhas mais adaptadas a conseguirem isso terão maiores chances de gerar descendentes e se espalhar pelo local. Quem não conseguir recursos suficiente vai voar nos campos do Além.

Por outro lado, flores que estejam adaptadas a exalar perfumes mais chamativos (esse “perfume” pode até ser cheiro de carne podre, mas vamos nos restringir às favoritas das abelhas e deixar as moscas de lado) e cores mais exuberantes, o que atrai os insetos. Dessa forma, uma espécie de flor que apresentar um diferencial sobre outras espécies atrairá maiores quantidades de insetos. Abelhinha entra na flor (sim, eu sei que isso costuma ser usado como metáfora para atividades biológicas humanas) para tirar o néctar, se “suja” com o pólen e, quando a abelhinha voa, voa, zum zum zum, de flor em flor, vai deixando os pólens de uma nas outras, oque garante a polinização e as plantas possam se reproduzir.

Com isso, temos a chamada “coevolução”, onde diferentes espécies evoluem conjuntamente, o que garante que essas espécies sejam beneficiadas. As espécies nesses mesmos locais que não evoluem dessa forma ficam, portanto, em desvantagem e gerarão menos descendentes. O tipo de coevolução neste caso é a coevolução cooperativa (ou simbiótica) por mutualismo, onde ambas as espécies são beneficiadas (existem outros tipos de coevolução). Qualquer melhoria para uma das espécies envolvidas gera uma vantagem para a outra espécie e vice-versa. Obviamente, se alguma mutação doida trouxer um problema para uma dessas mesmas espécies, a outra terá probleminhas e ambas estarão ferradas, o que facilitará a ascensão de duas outras espécies. Não, a Natureza não é ética e pouco se importa quem vive ou morre.

Para saber mais sobre coevolução e polinização: http://biology.clc.uc.edu/courses/bio303/coevolution.htm

Voltando ao FReD, o trabalho enfocou a questão que os registros existentes de cores das flores não levavam em conta o sistema visual de insetos polinizadores, como o das abelhas, que – como eu já disse – enxergam de forma diversa de nós, seres humanos.m Para tanto, dr. Chittka e sua equipe mediram a reflectância de um vasto número de flores em diferentes localidades e analisou o que os zangões percebem, incluindo diferentes tonalidades de ultravioleta. Com essas informações, os cientistas criaram uma base de dados, que pode ser acessada gratuitamente no endereço: http://www.reflectance.co.uk/

De acordo com Sarah Arnold, doutoranda do dr. Chittka, o banco de dados das cores das flores são indexados a partir da importância vital, sob o ponto de vista de polinizadores; e pela primeira vez, esta base de dados permitirá analisar as tendências mundiais na cor de uma flor, por exemplo, como essas cores podem mudar em áreas com alta radiação UV. Existem muitas possíveis aplicações para cientistas de diferentes áreas.

21 comentários em “Como as abelhas enxergam as flores

  1. E quer saber o mais triste? A maioria dos primatas alfabetizados que conseguem acessar a Internet, vai perder tempo com discussões inúteis ao invés de se interessar pelas descobertas da ciência.

    Also, eu sempre pensei (desde pequeno) que seria interessante enxergar outras cores além das cores comuns.
    Talvez por um pequeno problema que eu tenho : Um dos meus olhos tem uma visão mais azulada, enquanto o outro tem uma visão mais avermelhada. O.O’

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    1. É, eu sei. O vídeo que eu coloquei da garota que ficou orando e perdeu a hora de entrada no vestibular deu DEZ vezes mais visualizações num único dia que meus artigos de ciência em período equivaente. Isso mostra que não é só crente que é alienado.

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  2. “primata idiota, enxerga numa ridícula faixa”
    André, só pq vc não enxerga uma faixa comprida de espéctro de luz não faz a sua visão pior. Elas têm fotorreceptores especializados, no entanto seu sistema nervoso é tão simples que é possível simulá-lo bem com um computador. O que não pode ser feito com o ser humano.

    Sou daltônico e com certeza não sou mais “idiota” por isso :-P

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  3. Agente não vê as cores iguais aos animais. Mas, será que agente vê as cores da mesma forma entre nós? Tipo, o vermelho que vejo, é o mesmo vermelho que você vê? (espero ter cido claro :mrgreen: )

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  4. Como é incrivel a capacidade de relações de certos seres vivos , a flor necessita que seu Pólen seja levado para continuar seu ciclo , enquanto a abelha precisa do néctar… È realmente fantástico, tem ainda aqueles usam deste tipo de relação para proteção o que me parece ser o caso do peixe-palhaço e a anêmona…! Bom ele não me parece tão palhaço…! Òtimo artigo André.

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  5. Alguem já descobriu a causa do sumiço das abelhas? As hipóteses vão desde agrotoxicos até ondas de rádio e celulares. O que se verificou é que grande parte das operárias simplesmente não conseguem voltar para a colméia e morrem.

    Sobre o primata idiota…. Bem, é verdade. Mas ultimamente percebo nos recentes artigos uma dose de misantropia por parte da divindade do site.

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  6. Fui seca no FReD acreditando que veria novas cores, mas lembrei que não enxergo como os insetos e dei uma de forever alone ao encontrar os dados das pesquisas. Muito interessante a pesquisa :/ uma pena, nós primatas, sermos tão desprovidos da evolução positiva e não podermos enxergar as tais cores.

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  7. As abelhas são mesmo surpreendentes:Resolvem problemas de minimização,geometria e do caixeiro viajante que é np-completo.Enxergam o ultra-violeta e ainda se orientam pela posição do sol.Tudo isso com um cérebro do tamanho da cabeça de um alfinete,quase inacreditável… :smile:

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