Tribunal de Justiça de SP proíbe distribuição de livro com conteúdo “erótico”

E aqui vamos nós descendo a ladeira. Se antes o Conselho Nacional de Educação quis cercear o uso de livros racistas e de apelo ao ódio, só faltando ter uma suástica na capa (maldito Goldwin!), como o de Caçadas de Pedrinho, o Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) proibiu que a obra Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século continue sendo entregue a alunos da rede estadual paulista. Por causa de que? Por que o livro atenta contra a moral e os bons costumes, pois tem "elevado conteúdo sexual, com descrições de atos obscenos, erotismo e referência a incesto". Eu realmente preciso citar Orwell de novo?

A referida obra reúne 100 contos escritos durante o século XX (André, você ilumina nossas mentes. Obrigado!), desde Machado de Assis, até Clarice Lispector (que eu sempre achei ser uma chata de galocha), passando por Lima Barreto, João do Rio e até Inácio de Loyola Brandão. Aliás, foi justamente o conto de Loyola Brandão que deu a celeuma, posto que, no conto, uma distinta senhora recebe cartas anônimas para lá de “quentes” e os “sábios” jurisprudentes determinaram que nossas inocentes criancinhas, virgens e castas como Nossa Senhora, não poderiam estar em contato com este absurdo literário. No que eu chamo de Tática da Barata, os perclaros safados vagabundos burros iletrados apedeutas estúpidos juízes tentaram amenizar a situação dizendo que tal decisão “não desmerece, em hipótese alguma, a qualidade da obra”.

Isso, no meu modo de entender, significa o mesmo que: “Apesar de eu estar te torturando de forma absurdamente sádica, não desmereço a importância da vida humana”.

Os psicomarrecas da Educação devem estar pulando de felicidade, posto que assim não precisam ler aquele livrão (que não tem mais figuras do que texto nem local pra desenhar ou colorir). De qualquer forma, eles estão protegendo a pureza de nossas crianças, mesmo porque nunca a veríamos envolvidas com tráfico e bem sabemos que eles começam sua vida sexual lá pros 18 anos, como determina a lei.

A Secretaria de Educação está proibida de distribuir o livro sob pena de multa de R$ 200 por exemplar que seja entregue aos alunos. Entretanto, os livros que já estão com os estudantes não precisarão ser recolhidos. Segundo o TJ-SP, "o eventual desrespeito à dignidade das crianças e adolescentes já teria se consolidado, portanto, seria ineficaz o recolhimento das obras". E o mais interessante é saber como o TJ-SP se preocupa, vai que algum livro distribuído pela Secretaria de Educação de SP viesse com um link para um site com mulheres peladas? Nhé! Tudo perda de tempo, pois nossos especialistas sabem que escolas não salvam o mundo. Fico muito satisfeito com esta vigilância da polícia do pensamento. Por isso, os Grandes Primos fiscalizam bem o que pode e o que não pode ir para a mão das crianças. Loyola Brandão é um maníaco pervertido e jamais poderia entrar na cultura popular, pois ele jamais alcançaria o nível de estilística e sofisticação de alguns livros distribuídos pela Secretaria de Educação ensinando alunos do terceiro ano do Ensino Fundamental sobre esporte.

Não vamos dar atenção a estas espúrias notícias da Imprensa Golpista. Nosso sistema educacional é o melhor do mundo. Perguntem ao futuro ex-presidente. Estamos em 73º em desenvolvimento do IDH, bem à frente da Argélia, Tonga e Fiji. Ok, estamos abaixo de Trinidad e Tobago, mas estes não contam, pois são financiados pelos Yankees. Só é vergonha por estarmos na frente de nossa amiga e companheira Venezuela, mas estamos trabalhando para que eles nos passem, como bons aliados que somos.

Próximo livro a ser proibido: Qualquer cartilha que traz “Vovó viu a uva”, pois “uva” tem conotações sexuais e faz referência à anatomia feminina (além de ofender crianças que não têm pais ou avós).

11 comentários em “Tribunal de Justiça de SP proíbe distribuição de livro com conteúdo “erótico”

  1. Para quem cresceu assistindo as gostosas das paquitas mostrando a bunda, isso de literatura sexual é agua com açúcar.

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  2. :/ se continuar desse modo, melhor eu correr aos sebos da cidade e resgatar todas as obras do Azevedo. Os adolescentes não vão poder estudar ultra-romantismo brasileiro, né? Do jeito que a censura, digo, preservação da inocência alheia (que nem existe mais) anda, talvez nem haja mais essa escola literária em 2011.

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  3. Absurda a decisão do TJ paulista; realmente, trata-se de uma incoerência inacreditável. Mas já que a jurisdição é inerte, quem teria ajuizado uma ação com um pedido igualmente absurdo?

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  4. Então um por causa de um conto, 1% dos contos do livro, que contém linguagem sexual – sendo que “sexo” nem é o assunto principal do conto como fica claro em seu desfecho – estão colocando o pobre livro na lista negra?

    Querem proibir os alunos de ter acesso à obra? OK, sejam coerentes e proíbam Macunaíma; proíbam falar sobre bailes funk (afinal os alunos não são incentivados a discutir temas “próximos” a realidade deles?); proíbam Iracema, a Virgem dos Lábios de Mel com sua sexualidade exuberante; proíbam Jorge Amado com suas tietas, donas flor e capitãoes de areia; proíbam o Grande Sertão, de Guimarães, por seu incentivo a homossexualidade; proíbam O Cortiço, de Aluísio Azevedo; enfim, melhor ainda, proibamos a bíblia nas aulas de ensino religioso!
    Tal obra recheada de perversão e violência sexual não poderia se aproximar de nossas indefesas criancinhas quando estão vulneráveis, à espera de uma moral decente.

    Mesmo considerando que tal livro, de literatura contemporânea, seria direcionado a alunos do terceiro colegial, acredito que nossos ilustres juízes podem ficar descansados: trata-se de um livro, coisa da qual os aborrecentes têm alergia de se aproximar, ainda mais por não ter figuras.

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