Ex-diretor do Butantan chama acervo perdido no incêndio de “bobagem medieval”

instituto_butantan.jpgDe acéfalos eu não espero grande coisa em termos de ideias e argumentação. Tais idiotas só servem de escárnio e alvo de chacota. Mas quando lidamos com pessoas mais, digamos, esclarecidas (se é que realmente o são) falando merda, devemos puxar o freio de mão e dizer: WHAT PORRA IS THIS? Falo isso pois em reportagem da Folha, compartilhada pelo Átila, lemos a “belíssima” pérola do ex-diretor do Instituto Butantan – o qual sofreu um incêndio, perdendo todo o seu acervo preservado desde que o instituto foi fundado -, relinchando, digo, dizendo que aqueles exemplares não passavam de de uma bobagem medieval, já qui o Butantan tinha mais é que se preocupar em produzir vacinas, como coisa que é só para isso que a Ciência serve.

Desejando que o perclaríssimo ex-diretor tome uma mordida de sucuri na bunda, eu declaro que esta é sua QUINTA INSANA!

Nós, cientistas, temos um apego quase territorialista (quase?) aos apetrechos constantes em nossos locais de trabalho. Com efeito, eu mataria alguém se mexesse em minhas queridas vidrarias alemãs da década de 30, quando eu trabalhava no Laboratório de Química do Museu Nacional, no Rio de Janeiro. Se eu fosse um pouquinho mais egoísta teria urinado no local para marcar meu território. Só era uma pena que nem todas as fêmeas circundantes me vissem como Macho Alfa; se bem que tinha uma loira da Paleontologia que… Bem, deixa pra lá.

Isaias Raw foi diretor do Instituto Butantan no período compreendido entre 1985 e 2009. Raw, ao que parece, tinha certos pobremas com a mmanutenção do acervo, que para ele era totalmente inútil. Para ele, HAL Raw, o Butantan deveria ficar produzindo vacinas direto, mas eu vejoum problema aí. Um centro de pesquisa não é apenas para produzir remédios, e eu não débil mental para desmerecer sua importância. Não obstante, Ciência é o acúmulo de mais e mais informações, estudos, pesquisas etc. COMO os pesquisadores só farão vacinas? Não é importante o estudo de espécimes? Para que serve a Biologia então, ó Hades? Cientistas alegam que Raw praticamente negligenciou, desdenhou e chamou de feia a pesquisa realizada no local. Apesar de toda a verba recebida pelo Butantan (boa parte dela desviada), não foi investido em segurança. Raw renunciou ao cargo por investigações sobre improbidade administrativa e desvio de verbas, o que me faz lembrar de certas maluquices que eu vi no Museu Nacional, como o depósito onde eram guardadas as rochas, minerais e meteoritos com a porta segura por uma dobradiça e sem fechadura.

Raw diz que os pesquisadores não receberam (de forma bem merecida, segundo ele) um só centavo da FAPESP, só que é mentira. Toda a grana que o Instituto recebeu podia SIM ser aplicada em infra-estrutura, mas parece que o escroque ex-diretor não estava inclinado a isso. Assim, o que se via no local era não só a maior coleção de serpentes do mundo, como a maior coleção de gambiarras por metro quadrado. É errado, mas só quem trabalhou em locais precários, sem um mínimo de condições para levar um trabalho sério adiante, sabe como é isso. Professores de col´gios públicos são um excelente exemplo.

Eu não tenho amigos que trabalhem no Butantan, mas eu entendo, deploro, me solidarizo e sinto verdadeiramente sobre todo o ocorrido. Não poderia, contudo, fazer melhor depoimento – que nem depoimento seria, dado que eu nunca trabalhei lá e nem sou biólogo – que o Danilo Guarda fez e o Rafael do RNAm publicou.

É por isso que ainda há Ciência no Brasil: por causa de pessoas sérias que amam suas profissões, apesar de estarem sempre remando contra a maré e os cortes de verbas. É por causa das ingerências, péssimas administrações, uma política científica porca e um bando de eleitores estúpidos que elegem políticos ladrões que não veem nada além do próprio bolso que tragédias assim acontecem. E, acreditem, o que aconteceu no Butantan não foi apenas a perda de muitos animais mortos (alguns eram até mesmo da coleção particular do Dr. Vital Brazil, fundador do instituto). Foiu uma fatalidade, uma tragédia, algo que feriu com um golpe profundo e doloroso o âmago de nosso setor de pesquisa. Mas as pessoas ainda verão aquilo como “uma bicharada morta”.

Isaias Raw, independente de querer trazer “avanços” para o Brasil em termos de vanguarda científica, não passa de mais um burocrata. Cientistas de verdade trabalham sério, usando guarda-pós amarrotados, estudando, pesquisando, descobrindo, se intoxicando com compostos voláteis aos quais são expostos por falta de equipamento de segurança adequado, se desdobrando para aprender mais, de modo a compartilhar com o mundo. Burrocratas não passam de pessoas engravatadas, que mesmo que tenham sido cientistas um dia, perderam a capacidade de ver beleza em descobertas, tratando os objetos de pesquisa como coisas sem vida, coisas sem utilidade.

Este é o nosso Brasil. Estes são os que comandam a pesquisa científica daqui.

10 comentários em “Ex-diretor do Butantan chama acervo perdido no incêndio de “bobagem medieval”

  1. Realmente é algo tão triste atitudes como essas ainda acontecerem, aposto que se a casa desse tal aê pegasse fogo ele não seria tão frio quanto foi com essa declaração.

  2. Sou um mero estudante de ensino médio e sinto mal por isso.

    Não me resta soltar um “tsc, tsc…” para esse coitado do Raw, que faz jus ao nome. Bem vazio e sem nada esbolçado nele. Um belo projeto de nada.

  3. Escolhi o nickname “Demente” por me considerar um subproduto estranho de uma sociedade louca e doente, com padrões de sanidade que deixam muito a desejar – ou seja, alguém relativamente são, fora a falta de modéstia. Porém, chegou minha vez de dizer:

    Parem esse bonde que eu quero Descer!!!

    O incêndio já era algo para se preocupar, quanto mais a opinião de um ex-diretor comparando os espécimes perdidos a velharias. Lembrem-se de que são poucas as pessoas treinadas para desconfiar de “argumentos de autoridade”!

    Desculpem o exagero, mas daqui a pouco vão fechar os museus porque eles servem apenas para guardar “velharias” – isso se os museus durarem o suficiente para isso!

  4. Bem diferente foi a matéria vinculada na Tv essa semana sobre o acervo da cinemateca.Um modelo de cuidado,de esforço de recuperação,o ambiente climatizado e lugar ainda mais especial,uma câmara onde poucos podem entrar,nem mesmo acender a luz,onde estão os originais,as relíquias de filmes aparentemente ‘medievais’,como os rudimentares filmes do cinema mudo.
    Impossível não comparar,em momentos assim,com o incêndio da biblioteca de Alexandria.
    No programa Globo Rural,uma vez, mostraram o Centro de Inteligência do Feijão.Quem diria que o feijão nosso de cada dia,que vemos até com certo desprezo como comida de pobre,ainda oferecido nas feiras em sacas de estopa mostrando as poucas variedades que conhecemos,tem uma família tão nobre,diversa e é objeto de tanto estudo e cuidado de cientistas.
    Sem falar nos enormes subterrâneos onde potências como EEUU guardam,sob proteção até de eventos nucleares,milhares exemplares de plantas,tratadas como questão de Estado,de Segurança Nacional.

  5. Dá pra ver porque ele é ex-diretor e não diretor do instituto, também estou no ensino médio e achei um absurdo uma pessoa que ja dirigiu o Butantan dizer isso. Onde estão os verdadeiros cientistas? Espero que o novo diretor do Butantan seja mais consciente e consiga reconstruir pelo menos parte do patrimônio que foi destruído. :mad:

  6. Incrível e absurdo ver uma pessoa que dirigiu esse instituto de pesquisa desdenhar do acervo do próprio instituto: “não, a pesquisa científica não tem nenhum valor, vamos fazer apenas vacinas e soros…”. Certo, como vamos elaborar vacinas e soros se não pudermos identificar as espécies? A pesquisa científica no Brasil tem um futuro “briliante” com manda-chuvas possuindo tal mentalidade.

  7. Pingback: Blog do Lucho

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