Cientistas criam primeira bactéria com genoma sintético

venter_god.jpg2010 é realmente o ano que fizemos contato. O ser que apareceu e disse “olá” não é verde, não tem escamas, não tem sequer um corpo. A bem da verdade, o ser que apareceu é apenas um punhado de células, mas células especiais, pois cientistas do J. Craig Venter Institute apresentaram a primeira célula controlada por um genoma sintético, isto é, o genoma dessa célula não é natural e sim sintetizado em laboratório. Será este o momento que dará início aos replicantes? Harrison Ford começará a caçar renegados? Ou será um evento memorável na história da ciência, quando teremos tecnologia avançada para resolver problemas ambientais? É cedo dizer, mas os chineses dizem que toda longa jornada começa com um primeiro passo.

vida_artificial.jpg O estudo foi publicado no periódico indexado (eu disse INDEXADO, aprendam como se faz ciência, criaburricionistas) Science e é um marco para as ciências biológicas, pois abre um leque imenso de possibilidades. Venter já afirmara que Synthia estava prontinha para aflorar este ano. Os pesquisadores sintetizaram o genoma da bactéria M. mycoides, adicionando a ele sequências de DNA que serviriam de marcadores, de modo que a bactéria pudesse ser distinguida das bactérias tidas como “normais”, isto é, que não são sintéticas. Depois de replicarem seu DNA sintético trecho a trecho, os pesquisadores implantam o código genético formado em uma bactéria Myoplasma capricolum. Entretanto, se você prestou atenção, apenas o genoma foi sintetizado e não toda a bactéria. Isso ainda pode demorar um pouco, mas estamos mais próximos disso do que estávamos há alguns anos. Se me perguntarem o que eu diria sobre isso há uns 30 anos, eu responderia que é coisa de ficção científica (e voltaria a jogar meu Atari). Vejam a reportagem gravada pela Science no vídeo abaixo:

Uma das propostas de Venter para a aLife (abreviação de Vida Artifical em inglês) – ou “vida 2.0”, como também é chamada – é a produzir de etanol ou hidrogênio, o que seria uma forma de fácil obtenção de combustíveis pouco poluentes (não existe combustível não-poluente). Venter já foi acusado de estar criando uma espécie de “Micróbiosoft” (eu realmente preciso explicar o motivo do trocadilho?), de forma a monopolizar a tecnologia. Assim, os críticos, graças ao Método Científico, se mostram céticos e partem para dar um freio na história a fim de pensar, repensar e reanalisar tudo o que foi obtido. Se todos aceitassem qualquer proposição como alguma verdade absoluta, ainda estaríamos comendo carne crua numa caverna úmida. Sendo assim, estes críticos partem para o ataque, dizendo que os benefícios potenciais de organismos sintéticos têm sido exagerados. Uma dessas pessoas é a Drª Helen Wallace, da Genewatch UK, uma organização que monitora o avanço das tecnologias genéticas. Segundo ela, a bactéria sintética pode ser perigosa.

Segundo a cientista, o propósito principal da bacteria, que seria agir no meio ambioente de modo a conter a poluição, por exemplo, pode ser mais danoso do que se imagina. A bem da verdade, ela está correta, pois não se sabe ainda como esta bactéria iria reagir sobre as frias e inexpressivas determinações da Seleção Natural. Ela ainda alfineta Venter dizendo que “ele não é Deus (…) ele está realmente sendo muito humano, tentando obter dinheiro investido em sua tecnologia e evitar uma regulamentação que restrinja a sua utilização.

As alegações de Wallace têm valia, sim. Devemos comemorar o desenvolvimento de uma nova tecnologia, de novas possibilidades, de novos conhecimentos… Mas, como diria Tio Ben: Grandes poderes conferem grandes responsabilidades”. Ainda não podemos ter certeza que nada de mal irá acontecer. Só um completo imbecil tem certeza absoluta no ramo científico. Deixamos as “verdades absolutas” e dogmas para as religiões, que não são responsáveis nem por si mesmas. Ciência é coisa séria, e apesar de ser amoral, existem comitês de ética e equipes de cientistas que continuarão a pesquisar isso por anos a fio, pois a Ciência não dá resultados de um dia pro outro.

Venter mostrou que realmente entende de seu ramo de atividade. Cabe agora que a pesquisa seja intensificada, e com certeza o será. Cientistas loucos à solta sendo combatidos por heróis super-poderosos só existem em Histórias em Quadrinhos (HQs). No mundo real cada qual toma conta do seu irmão, pois cientistas são os próprios guardiões, não de outro cientista, mas da Ciência, pois ela não é uma deusa intocável, é o puro conhecimento e este deve ser usado para o bem e não por algum lunático.

Não sei realmente se Venter se acha um deus, mas com certeza ele demonstrou que a vida não é um fator irredutivel e Behe que vá para o Inferno. O que os pesquisadores do Instituto Venter conseguiram não foi uma prova que há um Projetista Inteligente, mas sim que pessoas inteligentes podem interferir no meio natural de modo bem profundo. Se isso é pro bem ou para o mal, cabe a outros pesquisadores determinarem e lutarem para que algum tosco metido a esperto não tenha ideias de jerico. Não, Dave, eu não tenho medo com relação a isso.


Fontes: BBC / G1 / Science / Scientific American [1] e [2]

17 comentários em “Cientistas criam primeira bactéria com genoma sintético

    1. Na verdade, é uma T-Bactéria. :mrgreen:

      Viu? Nós, cientistas temos senso de humor. Por exemplo: Dois neurônios vinham caminhando pela rua. De repente, o primeiro neurônio grita: “Ai, Jisuis, olha o Darwin!” (ploft!)

      O segundo neurônio olha de um lado pro outro e diz: “Darwin? Que Darwin, ó gajo?” (ploft!)

      1. Mas, falando sério agora: é possível que a bioengenharia, se usada de forma errada, cause um caos global? Ou ainda estamos longe daquilo que a ficção nos mostra?

  1. Bom, agora falta eles conseguirem descobrir a “faísca” por assim dizer, que dá a ignição ao processo da vida, afinal, somos compostos basicamente por átomos, que carregam cargas elétricas. Mas o que sempre me deixou encucado é: se somos basicamente átomos e possuímos vida, porque nunca conseguimos presenciar um momento em que vida fosse “gerada”? Eu espero viver até descobrir a resposta.

    1. Achei que seria clichê demais, mas vá lá:

      É um pequeno movimento de flagelo para uma bactéria, mas um salto gigantesco para todo o reino protista.

  2. Adorei a noticia!

    Isso abre um leque gigantesco de possibilidades!

    Mas tb haja saco agora pra aguentar os CRIAS falando q o cara quer ser Deus e td mais….

  3. Paz do senhor Irmão !

    Belo texto, livre de verdades absolutas. Isto sim é ciência.

    Até mesmo porque, levando em consideração a Teoria das Bolhas, nem as Leis da Física, podem ser algo constante, dotado de imutabilidade.

    E aos ateus, e aos não ateus, eu digo:

    – Eu sou Eu, Não vou mudar a partir de uma descoberta científica, e não vou me render a novas ou antigas religiões. Prefiro me responsabilizar por minhas próprias convicções, e continuar vivendo sem ter denominações.

    (desse jeito, eu viro um poeteiro)

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