Novas descobertas sobre a capacidade visual dos morcegos

A expressão “cego como um morcego” nunca foi cientificamente certa, já que morcegos não são cegos, e sim, eles podem ver muito bem de dia, apesar de seu comportamento noturno. Cientistas do Max Planck Institute for Brain Research, em Frankfurt, e da Universidade de Oldenburg analisaram a sensibilidade das retinas de algumas espécies morcegos e detectaram células cones e pigmentos visuais neles, por meio de análise eletrorretinográfica. A pesquisa foi publicada na PloS ONE.

Células cone agem como fotorreceptores, isto é, eles reconhecem a luz que chega na retina e transformam em informações para o cérebro. Seu melhor funcionamento se dá em ambientes bem iluminados. Tais células se tornam mais esparsas do centro da retina para a sua borda, ou seja, quanto mais na borda da retina, menos células capazes de processar informação luminosa.

Isso significa dizer que, como os morcegos possuem células cones, eles possuem capacidade de enxergar em lugares bem iluminados, bem como visão cromática (eles distinguem cores), acabando com o mito que os morcegos são cegos. Simplesmente, seus hábitos são noturnos, o que os ajuda a conseguir alimento e fugir dos predadores.

Através de análises, os pesquisadores encontraram um aumento da sensibilidade à luz ultravioleta. Em outras palavras, os morcegos não só conseguem enxergar durante o dia, como são capazes de discernir luz ultravioleta, em comparação aos pobre olhos humanos que só conseguem distinguir cores que vão do espectro vermelho ao violeta. Infra-vermelho (basicamente, ondas de calor) e ultravioleta são invisíveis aos nossos olhos.

Assim, os morcegos possuem uma boa vantagem sobre nós já que, possuindo células-cones sensíveis ao ultravioleta, os filhotes de Batman possuem uma melhor orientação visual no crepúsculo, podendo fugir de pedradores e localizam melhor algumas flores, o que dá uma vantagem considerável às espécies que se alimentam de néctar (nectarívoros).

Morcegos – ao contrário do que diz a Bíblia – não são aves, mas mamíferos da ordem Chiroptera (cheir = mão ; pteros = asa). Tal ordem possui duas sub-ordens: Megachiroptera e Microchiroptera (cerca de 700 espécies diferentes). Os micromorcegos da sub-ordem Microchiroptera (os chamados “morcegos verdadeiros”) são pequenos e possuem sistema de ecolocalização (eles emitem um ruído de alta-frequência que, ao atingir algum corpo, é refletido até seus poderosos ouvidos; uma espécie de sonar, como podem perceber. Já os morcegos frugívoros não possuem sistema de ecolocalização. A maioria dos morcegos não são hematófagos, logo, pode perder seu medo do Drácula.

Os olhos dos micromorcegos são pequenos e suas retinas são dominadas por bastonetes, que são células que apenas determinam o nível de luminosidade, mas não são tão especializadas quanto as células cone. Assim, os bastonetes são, majoritariamente, encontradas mais para as bordas da retina, e são responsáveis pela visão periférica. Como vocês devem ter notado algum dia, a visão periférica é capaz de detectar intensidades de luz e movimento, mas não possuem a nitidez da sua visão central.

Você pode fazer um teste simples: abra os braços com as mãos fechadas e os polegares para cima. Olhe bem à sua frente, sem virar a cabeça. Agora, mexa os polegares. Se sua visão estiver bem, você poderá ver os movimentos, mas sem grande nitidez. Se você não conseguir ver, vá fechando os braços lentamente, até conseguir.

Uma das características do glaucoma é o estreitamento de sua visão, onde parece que você olha por dentro de um tudo. Se você pensar um pouco, saberá o que isso significa. Aos poucos, suas células estão perdendo a capacidade de captar a luz e você está ficando cego. Cirurgias corretivas de glaucoma apenas a estacionam, mas a visão perdida não poderá voltar ao que era antes.

Voltando aos nossos amiguinhos alados, a Drª Brigitte Müller e seus colegas do Instituto Max Planck estudaram os fotorreceptores dos morcegos que se alimentam de néctar, usando métodos histológicos e de biologia molecular. Com a ajuda da equipe do Dr. Josef Ammermüller, da Universidade de Oldenburg, usaram registros eletrorretinográficos para uma análise mais aprofundada. Para maiores informações sobre eletrorretinografia, vocês podem acessar o site Vetweb.

Alguns anos atrás, em um estudo comportamental do morcego Glossophaga soricina em seu comportamento no escuro, cientistas não encontraram nenhuma evidência de reconhecimento de cores, mas sim que tinham capacidade de detectar luz ultravioleta.

Considerando todos estes resultados, Müller e colegas concluem que o aumento da sensibilidade da retina à luz ultravioleta, em ambas as espécies estudadas, resulta da proporção significativa dos cones expressando o gene S opsin. Medições de transmitância das córneas e lentes de G. soricina e C. perspicillata mostraram que a luz ultravioleta, realmente conseguem atingir a retina dos morcegos.

“Os resultados de nosso estudo indica uma sensibilidade ao ultravioleta, baseada em células-cone em filostomídeos [uma grande classe que abrange inúmeros morcegos]”, diz a Drª Müller. “Além disso, com os dois tipos de cone, os morcegos têm a condição necessária para uma visão dicromática, uma condição comum em mamíferos. A utilização da capacidade de visão baseada em células-cones deve melhorar a capacidade de morcegos afim de perceber informações visuais.”

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