O fogo domado pela cruz

Com a evangelização da Europa, os cultos da Antigüidade à fecundidade e ao Sol, que aconteciam no dia do solstício de verão, foram integrados ao cristianismo. Passaram a acontecer no dia 24 de junho, festa do nascimento de São João Batista. Essa escolha não foi feita ao acaso e guiada apenas pela efeméride, ou seja, a suposta natividade do santo em seguida à noite mais curta do ano no Hemisfério Norte. Na verdade, João, aquele que purificava os judeus pecadores no rio Jordão, representa os elementos que governam as cerimônias solsticiais, a saber, o fogo e a água. Nos Evangelhos, João pronuncia as seguintes palavras: “Eu utilizo a água, mas aquele que vier depois de mim batizará com fogo”.

Se os ritos ligados à água praticamente desapareceram, a tradição do fogo se manteve e permanece como o aspecto mais pagão dessa festa, ainda que tenha sido motivo de incômodo debate na hierarquia da Igreja. O concílio do ano 452, por exemplo, reuniu os bispos da França e do norte da Itália em torno de alguns desafios, entre os quais agir contra os costumes pagãos. Atribuem-se a Santo Agostinho algumas prescrições anteriores ao concílio, visando fazer desaparecer as antigas superstições: “Que ninguém, na festa de São João ou em determinadas solenidades ligadas aos santos, se dedique a observar os solstícios, as danças e os cantos diabólicos”.

Mas as fogueiras, ainda que razoavelmente domadas pela cruz, permaneceram e se institucionalizaram na França medieval e na Europa moderna. Em geral, a cerimônia começava por uma missa dedicada a João Batista ou ao santo padroeiro da aldeia. Em seguida, a multidão saía em cortejo, exibindo estátuas religiosas sobre espécies de charretes. No mais das vezes, cabia ao padre ou equivalente católico a honra de acender os fogos. Em Paris, o rei tinha o costume de acender ele mesmo, na praça da Grève – hoje praça do Hôtel-de-Ville –, sempre depois de uma bênção preliminar das fogueiras, feita pela autoridade religiosa local. O último soberano a ter tido essa honra foi Luís XIV.

Na verdade, o lado pagão da festa resistiu em outros aspectos na França, ainda que com a discreta desaprovação dos bispos. À beira do rio Loire, promoviam-se por vezes banhos rituais, e barcas em chamas podiam ser vistas sobre as águas do rio. Na Alsácia, cultivava-se a tradição de beber o “orvalho de São João” para se purificar. As moças se enfeitavam com flores vermelhas para dançar em torno do fogo, isso a fim de melhor seduzir o futuro noivo. Subsistia ainda, no leste da França, o uso de guirlandas de palha, simbolizando o disco solar dos antigos. Eram lançadas em chamas, do alto de colinas, para fertilizar os campos.

Alguns usos e costumes medievais podiam ser encontrados em toda a Europa: fazer os rebanhos passarem através da fumaça dos braseiros da festa joanina supostamente os livrava de doenças no ano seguinte. Da mesma forma, esse ritual servia para proteger as crianças e curar os doentes.

O costume joanino mais macabro persistia ainda no século XVI. Consistia em pendurar sacos com gatos ou raposas ainda vivos à madeira empilhada a ser queimada nas fogueiras. Essa prática era institucionalizada em Paris, como revelam registros da época. “Para Lucas Pommereux, delegado dos cais da cidade, cem sóis parisis (quantia em moeda da época), por haver fornecido, durante três anos que se cumpriram na festa de São João em 1573, todos os gatos necessários para a citada fogueira, como de costume. Inclusive por ter fornecido uma raposa há um ano, quando o Rei estava presente, de modo a propiciar prazer a Sua Majestade, e ainda por ter fornecido um grande saco onde estavam os citados gatos.”

Em vários momentos da história, a festa joanina teve um papel sociológico importante, em especial no campo. Ali se encontravam senhores feudais, camponeses, mercadores e jovens em busca de diversão e negócios, já que a reunião significava a montagem de feiras e mercados.

No Brasil, a celebração do dia do nascimento de São João, 24 de junho, vem do período colonial e é o ápice da estação fria – a noite mais longa do ano, ou solstício de inverno, próxima dos dias que homenageiam também outros dois santos: Antônio (13 de junho) e Pedro (29). O sinal trocado do clima nunca foi empecilho para o calor da diversão, especialmente no Nordeste e no Norte brasileiros, onde o inverno traz frescor, raro em outras épocas – nos trópicos e na faixa ao sul do equador, vive-se o avesso dos rigores do Hemisfério Norte.

O inglês Richard Francis Burton (1821-1890), cônsul que viajou pelo Brasil entre 1865 e 1868, deixou impressões escritas sobre o clima e as brincadeiras juninas locais. Essas anotações compõem um dos capítulos do clássico Antologia do folclore brasileiro, de Luís da Câmara Cascudo (1898-1986). “O Natal, festa do solstício (de verão) do Sul, tem pouca importância nestas latitudes. Nesta época o tempo está quente e chuvoso e as estradas estão más. O São João (ao contrário) é o tempo mais frio do ano, a temperatura está, então, agradabilíssima e as estradas em bom estado. O povo em toda parte se reúne nas cidades e nas igrejas. Cada lugar tem sua fogueira (…). A festa se mantém com a mais completa ignorância de sua origem.”

A Igreja Católica trouxe ao Novo Mundo a celebração de São João, nascida pagã, já cristianizada. João Batista tem esse nome por ter batizado inúmeros judeus (e, mais tarde, o próprio Jesus) nas primeiras décadas da era cristã, mediante confissão dos pecados e banho no rio Jordão. Desse modo, como pregador autônomo da volta do Messias, antecedeu Cristo e, por isso, passou a ser considerado seu profeta. Paradoxalmente, ele se tornou, no folclore nativo, o “santo festeiro”, que dorme durante seu dia para não cair na tentação de descer à Terra e brincar com os homens – se isso ocorresse, o mundo acabaria em fogo, no rastilho de uma alegria transbordante que, ao fim, exalta um Deus amável e dado a concessões dionisíacas e a rituais de fertilidade.

De fato, a celebração, de forte identidade francesa, chegou ao Brasil já modificada pelos portugueses e aqui sofreu outras influências, especialmente de índios e negros. Esse tipo de catolicismo popular e miscigenado juntou às comemorações as práticas de sortilégios e simpatias, muitas relacionadas ao matrimônio, válidas também nos dias de Santo Antônio (originalmente cultuado como protetor de exércitos e, mais tarde, como casamenteiro em um país que precisava da fertilidade para ocupar seu imenso território) e São Pedro, que por sua vez cuidava de arranjar marido às viúvas, segundo Gilberto Freyre (1900- 1987) escreveu no livro Casa-grande & senzala.

Muitos estudiosos lembram que a festa junina reúne elementos europeus, mas também africanos e indígenas. A fogueira de Xangô, orixá sincretizado com São João, reverencia a importância civilizadora do fogo e é acesa no dia do santo pelos lados da Bahia. A contribuição das comunidades ameríndias fica ainda mais clara na culinária junina, que misturou o gosto português pelo açúcar, o cravo e a canela em pó com o gosto nativo por mandioca (aipim ou macaxeira), batata-doce, milho e canjica.


Fonte: História Viva

Um comentário em “O fogo domado pela cruz

  1. Tá explicado o lance da fogueira. Mas gosto de pensar ainda que festas juninas são uma bela manifestação cultural, e que podemos muito bem nos divertir nelas, sem precisar dar bolas ao cunho religioso…… :mrgreen:

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